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#QuemPensa é Irene Telles: “Tato”

#QuemPensa é Irene Telles: “Tato”

Agora que te esqueci, redescobri em mim todas as vontades que perdera, encontrei esta pessoa que existia antes de ti, não para ti.


1

Vejo tanta gente, tantas caras, tantas vidas. Situações com que me deparo me exigem o reparo.
Tateio minha pele em busca do que em mim sobrou quando a noite nos separou.

Conduzo pela madrugada fria, ouvindo tua voz ecoando em meus ouvidos, ensurdecidos para outros. Olho-me pelos espelhos, vejo meus reflexos, procuro vestígios de ti. Ausentes e presentes. Lembro-me de cada toque. Cuido para não me despistar.

Subo numa decadência as escadas que me fazem regressar à cama em que não te encontro.

Durmo.

Acordo rodeada por sensações tuas, pairam no meu quarto, sinto tua tristeza matinal acompanhada de minha apatia casual.

Tomo pequeno-almoço com a insuficiência e vou.

Vou.

Uma melodia lenta acompanha meu ritual matinal, em que me banho e me visto com a negligência, aparentemente disfarçada. Quando encontro o esforço, saio.

Saio.

Enfrento os planos da cidade, surgem os edifícios e a natureza fundidos no céu, as ruas são oblíquas, perpendiculares, desordenadas. Desafiam a minha sobriedade, convidam o meu erro. Por elas vagueio, azulejos amortecem os fortes e amontoados blocos que me domam.

O meu passo é acelerado, incoerente, perdido. Vejo tanta gente, tantas caras, tantas vidas. Situações com que me deparo me exigem o reparo. Não sei como agir, como intervir.

Vejo todo o meu povo sentir saudade. Que de mim há neles? Que grama das minhas sensações é também apreendida por eles? Todos tão incompreendidos, arrependidos, esquecidos. Não vejo correntes ecoando por trás dos seus passos.

Eles não me contam quem são, não me dizem onde vão. Todos corremos atrás do que não vemos. Fugimos do que conhecemos.

Mulheres que deixaram seus países me observam, analisam. Encaro seu rosto, miro seus olhos, estáticos e desprevenidos. São as estátuas de meu passeio.

Sigo.

Que ânsia pela minha ingenuidade inane.

2

Tantas opções de fuga me são oferecidas, quantos ses me assombram. Que cidade de labirínticas opções. Vejo pequenos entreterem-se.

Que ânsia pela minha ingenuidade inane.

Sigo.

Vejo o chão forrado de corpos. Vejo cobertores sujos perdidos, abrigos escondidos. Olham para mim, envergonhados pelas vida que, sem vergonha, os explorou. Peles morenas e baças, rugas fundas e imundas. Sinto as cinzas da minha felicidade me escaparem. As aprisiono mas meus dedos não as detêm. Que frio, que vento flui por meus dedos. Que vazio entre meus dedos.

Sigo.

 

Encontro um jardim perto de ti em que posso me sentar, parada, assim só o tempo vai.

3

Calma, uma parede.

Fim.

Um cubo me abraça, seus vértices carregam agulhas e almas desalmadas. Que densidade visual me assombrou.

Retorno. Sigo.

Vejo placas, semáforos, ouço buzinas, alarmes. Sinto pessoas me esbarrarem, empurrarem, roubando meu corpo para seus caminhos, invadindo meus ouvidos com seus relógios. Que transtorno me assombra.

Fujo.
Sigo.

Autocarro. Meu povo está sentado. Poucos encaram suas mãos. As tateiam, sentem suas fissuras e formato. Avaliam sua pele, suas unhas, seus arranhões. Julgam suas cúmplices, observam seu danos. Percorrem seus pulsos, cansados de as carregar, de as sustentar.

Sento-me. Vejo a cidade deformada passar por mim, rasgos cromáticos se impõem a meus olhos, os vidros gelados sustentam minha cabeça vibrante. Atordoada me levanto e os sigo.

Tijolo e paralelo, em paralelo encontro outras sensações umas minhas, outras não. Umas me puxam, outras me repugnam.

Desisto de ir.

Encontro um jardim perto de ti em que posso me sentar, parada, assim só o tempo vai.

Olho mas não chego a ver, rapidamente me perco em mim, egocentricamente.

 

4

Procuro despertares, observo tudo o que me envolve e não me absorve.
Penso como será hoje, sem ti.

Levanto-me saciada de emoções, perturbada por visões e desespero com tua ausência. Amparo minha incoerência com as tuas cientes palavras e caio numa ilusão de esperança, de que um dia voltarás, aberto, sereno e desprevenido, pronto para ser amparado e explorado.

Projetando teus retornos, sou exacerbada pela realidade, que acentua tua fuga audaz, que mazelou meu peito e agrediu meu senso. Retornando à minha realidade, amassada por tuas mãos, sentenciada por tuas palavras, me levanto.

Deixo para trás o banco de recordações a que me prendeste, passeio pelas casas a que não pertenço, esboço sensações a meu entendimento, substituindo-te. Procuro repor cada sensação que moldaste e arrancaste, destruindo teu lugar, criando o vazio que procurei ocupar.

Procuro despertares, observo tudo o que me envolve e não me absorve. Egocentricamente afasto-me de meu ambiente pois tuas memórias deslizam pela minha pele.

Tudo está desfocado e alterado, o rumo parece apagado e arruinado.

O meu presente por ti fora violado. Sigo com insegura passada desenhando meu rumo descuidado.

Caminho.

Caminho.

Esbarro contra tua memória, tropeço em meu lamento. Encontro minha porta, que guarda meu conforto. Ansiosa por a passar, encontro uma casa amorfa. Foco-a atentamente, procuro a razão daquela esterilidade. Não sinto meu lar, pilar de minha existência.

 

5

O meu quarto fora por ti tomado, as paredes agora escorrem teu suor.

Uma voz desperta minha criatura. Me fala de variadas temáticas, em cada uma delas ouço tua opinião e a absorvo. Tomo consciência de meu extravio. Onde me deixei?

Na rua em que caminhei e desfiz cada presença, na tua cama ou no momento em que te conheci?

Finalmente, recupero minha razão, sinto minha incoerência mental. Arrumo-te mas não te esqueço, tento apertar-te numa extensão a que raramente acedo.

Arrumo-te, arrumo-te.

Renuncio-te.

Perco-me no labirinto de teus cabelos, caio de teus ombros e aterro em teus pés. A fuga é sabotada, fico presa em tua sombra que me apoquenta.

Estás em meu quarto, ocupas meu espaço desordenando meus vícios e ódios, ofendes minha privacidade e amaldiçoas minha consciência.

Vejo-te altivo e velado em carisma, tentando me seduzir, recuperar.

Sinto o peso da tua alma, a beleza de tua mente e o encanto das tuas palavras. Sinto tua instabilidade, egocentrismo e perversidade.

Deitas-te na minha cama, desarrumas meus lençóis, rasgas minhas roupas e pisas meus livros, crias um caos que me engole e persegue. O meu quarto fora por ti tomado, as paredes agora escorrem teu suor. Teu cheiro abunda e me afunda. Recuo.

Invadida, saio. Penso repetidamente em te elidir.

Tento que cada milímetro de teu abraço, traço do teu afeto, se desvaneçam em mim. Durmo importunada pela tua voz, pelo teu desejo feroz de me possuir, de me engolir.

 

6

Estudo e tu estudas-me, prejudicas meu entendimento.
Acordo. Te recordo.

Estás sentado na cadeira da minha secretária, observas-me silenciosamente, acompanhas meu despertar.

Dispo-me contemplada por teus olhos, visto-me procurando o que te apela. Deixo meu quarto.

Saio.

Precedes meus passos, gritas meu nome.

Todos me observam, me julgam. As ruas terminam numa descida, carregada de despedida. Enfrento minha rotina e obedeço a meu percurso.

Estudo e tu estudas-me, prejudicas meu entendimento.

No fundo da rua que me pisou, encontro meu atelier, imundo e vazio, esperando pela obra que nunca chega.

Pinto cada vez menos, pinto cada vez pior, sem alento, sinto desesperança invadir-me enquanto te alimentas desta impregnação.

Em meus quadros, vejo corpos deformados, cores abatidas e sujas, seus olhares cruzam-se procurando razão e expressando desilusão.

Desiludidos, despem-se em minhas mãos e expressam sua aflição, amontoam-se e tentam moldar-se a pensamentos externos, contorcem-se perante factos e penam pela realidade a que são expostos.

A misericordiosa escuridão atenua sua visão clara e a deturpa, criando ilusões de felicidade.

Iludidos, por momentos vivem. Quando a luz os abrange rapidamente se contorcem e encolhem, procurando ocupar o mínimo espaço no mundo que habitam, pertencer a ele os inclui na decadência.

 

7

Tornas-te cada vez mais presente e alimentas-te de minha submissão, enegreces meu olhar, deturpas meu julgamento.
Decadência.

A decadência surge em todos os meus quadros, abunda em meus pensamentos e era venerada por ti. Enquanto pinto, gritas e esperneias, não suportas a falta de atenção. Não suportas que não viva para ti.

Quanto mais pinto, mais ausente és, o teu som é abafado e tua cor despigmentada.

Quando me abandono, quando perco meu estado original e deixo o atelier retornas violentamente.

Compensas.

Compensas cada segundo de ausência com persistência.

Incomodas-me, balanças meu corpo, apertas meus pulmões, pisas meus pés.

Tornas-te cada vez mais presente e alimentas-te de minha submissão, enegreces meu olhar, deturpas meu julgamento.

Consegues consumir-me.

Consomes-me.

Habituo-me a pertencer-te. A tua presença já não me incomoda. Persegues meus rituais e conheces minhas pessoas.

Elas interessam-se por ti, por tua aparente sabedoria e compaixão.

Não compreendem minha distância, não perdoam minha falsa indiferença. Sentem-te como outrora te senti, transparente.

Retorno a minha casa e meu quarto está silencioso, sem sinais de ti, ausentaste-te por completo, questiono minha sanidade e reconheço a tua distância.

Posiciono-me no centro, estática, tentando perceber se voltas.

Já é noite e nem sinais de ti, da minha ilusão.

 

8

Caminho vigorosamente as ruas em que não estás, realizo teus percursos, lembro teus locais.
Vazio.

O vazio e o silêncio são avassaladores, vivem contigo ausente. Não habituada a tal plenitude deito-me imersa em meus frescos lençóis. Deito-me no canto da cama esperando que regresses, não para me confortar, mas para sustentar a única constante em minha vivência.

Espero por ti.

Espero.

Quando finalmente sinto teu peso em meu torso, tua respiração na minha boca, recupero a minha vontade de escapar. Procurando não te pertencer abandono a cama em que abundas, penso no porquê de te querer de volta quando finalmente te foras.

Que me amordaça a ti?

Afasto-me de meu quarto, de teu cheiro e saio. Saio para te encontrar.

Caminho vigorosamente as ruas em que não estás, realizo teus percursos, lembro teus locais. Ansiosa por ti, espero ver-te passar numa esplanada, para que possa partilhar teu espaço.

Observo a cerveja morrer enquanto a noite cai, resolvo deambular já sem esperança de te encontrar.

Retorno. Durmo. Sonho contigo.

Desperto sem sinal teu e forço-me a não te desejar, a não te querer consumir, engolir.

 

9

Sinto que coseste minha mente a teu peito, para que escute tua presença em todos os segundos de minha existência.

Em minha rotina surgiram novas pessoas, novas possibilidades. Sinto-me intimidada, não gosto de falar, discutir, sinto-me presa a teu discurso e julgamento.

Cada meu ato depende da tua aprovação. Sinto novamente que me perdi em ti. És intruso no meu novo círculo de pessoas, elas não te conhecem, não sabem o que me falta, o que torna meu olhar disperso.

Não sabem que te procuro.

Minha dependência tem vindo a piorar agora que me desprezas, mas conheci novas pessoas.

Atentei uma nova pessoa. Considerei sua presença, que se impõe por todo o espaço que absorve seu discurso, que atinge os mais inanimados, que me atingiu.

Coeso e certeiro seus dedos tocam minha cara e seu tato não me recorda o teu, suas mãos são suaves e certas, não carrega nelas a tua insegurança e incerteza.

O deixo quando me toca, anseio que me volte a tocar entendes? Desejo-o a ele e não a ti.

Deixo-o certa de que te esqueci, de que deixarias de me assombrar e perturbar.

Encontro-o todos os dias, partilho seus amigos e seus ambientes, seus interesses e manias, mas não o transmito, sinto que ainda te pertenço.

Sinto que coseste minha mente a teu peito, para que escute tua presença em todos os segundos de minha existência.

Ontem, no entanto, por momentos senti que podia ser dele, que lhe podia pertencer e que ele podia me aguentar. Carregar-me como nunca foste capaz. Serias capaz de carregar qualquer peso, sinto-te retorcer para conseguir o que queres, só optaste por não me querer.

Entristeces-me, desamparas-me. És tão pesado em meus braços, nada mais carrego, nada mais vejo. Tudo me passa ao lado, menos ele…

Já sei seus costumes e conheço seus trajes, vejo-o de longe, observo-o de perto.

Ontem, despi-o e senti seu peso em meu torso, sua respiração em minha boca e nem me lembrei de ti, não apareceste.

 

10

Em meus sonhos trazias teu veneno, que me sacia, escraviza e despreza, deixa-me presa durante horas

Mal ele abandonou o quarto e retornaste, irado por não me possuíres, por eu desejar outro. Não esperavas que ele regressasse e ficasse, não te senti, fundi-me nele.

Agarrei seu corpo, engoli sua saliva e tu observaste. Parado, ficaste no canto do quarto, como um louco que encara uma parede, cada vez que abria os olhos para recuperar da imensidão em que ele me mergulhou via-te, sinto que sempre fui devota a ti, mas não ontem.

Ontem nem tocaste em minha cama e partiste, fiquei desesperada com a ideia da tua falsa presença ser de facto uma ausência.

Por isso perdi-me, revirei-me. Adormeci.

Em meus sonhos trazias teu veneno, que me sacia, escraviza e despreza, deixa-me presa durante horas.

Venero-te estática.

Desperto e tento-te esquecer mas hoje recordaste-te de mim. Chamas-me como se eu existisse para ti, como se necessitasses de minha presença. Fico suspensa nas palavras em que me pedes que te encontre.

Cedo novamente a teus pedidos, que frequentemente podem ser entendidos como exigências e vou.

Vou.

Um corpo moreno, de olhos negros e cabelo cor de carvão, com mãos fortes e voz pesada espera-me.

Teu discurso frágil e honesto destrói-me, preferia que omitisses toda esta sinceridade.

Preferia que me mentisses.

Preferia que não falasses.

Esqueço constantemente tua eloquência, tua capacidade de antecipar minhas frases, de prever minhas reações. Sabes que te engano, mas desconfias que te amo.

Sei que já quiseste que fosse tua mas fugi.

Fugi.

Nunca pensei que meu escape terminasse em doentia dependência. Adoras minha submissão, extensão da tua masculinidade.

És viril e adorado por outras a que me expões, contas-me quais são tuas aspirações e abandonas-me.

Por vezes exprimes gestos de afeto mas o abandono persiste.

A cólera surge, não só pelo abandono propositadamente cruel, mas também por te apresentares impenetrável quanto a mim.

Todas as pessoas merecem tua compaixão e altruísmo, mas eu padeço de certa demência de caráter que me exclui de tua bondade, especialmente do direito de te ver sorrir.

Desisto de te persuadir, de tentar existir contigo.

Depois de me engolires e expelires tua raiva, saio.

Saio.

Novamente conduzo pela madrugada, a sentir minha pele tocar a roupa que amassaste.

 

11

Quando decides me libertar, consigo escutar suas palavras, belas e bem pronunciadas.

Mudar de cidade afastou-me da tua podridão, não obstante sinto aversão a outros que passeiam em meu redor, menos ele. Lembras-te dele?

Ele vem com a sua postura elegante e olhos prudentes, caminha em minha direção numa reta majestosa, cujo fim está por mim definido.

Beija-me e espero que ele fale.

Fala.

Caminhamos e lembro-me que este passeio nada mais é que a minha tentativa de fuga, mudar de cidade não foi suficiente, olho outros e procuro teus pormenores, encontro tuas sobrancelhas e boca, mas tudo é tão insuficiente quando comparado com tua aparência.

Todos teus detalhes são exclusivamente teus e não partilhas semelhanças.

Retorno.

Caminhava com ele, com o único que me apela.

Ele arrasta-me para seu mundo e expõe seus pensamentos, tento acompanhar, escutar.

Atenta a cada palavra, percebo sua complexidade e intensidade. Intencionalmente ele me afasta, sabe que não partilho, que apenas me deixo acompanhar.

Contraio sua atenção com uma expressão de sensibilidade ou compreensão, sinto-me a enganá-lo, mas simplesmente não consigo prescindir do espaço que ocupas em minha mente.

Quando decides me libertar, consigo escutar suas palavras, belas e bem pronunciadas.

Na verdade, ele tem um esplendor que sempre desejei encontrar, que tu não tens.

Trazes contigo uma poluição emocional que me abrange impiedosamente.

Ele traz com ele uma carícia a que nunca me habituaste, uma ternura que nunca possuíste, talvez seja isso que me atrai em ti.

Provavelmente teu desprezo cause uma necessidade constante de te ter.

Vamos para o meu atelier, ele partilha seus textos e pensamentos, é bom escritor e pensador, transmite-me simultaneamente conforto mental e inquietude.

 

12

Apesar de me importunares em tudo o que faço, consegues ajudar-me a pintar. Fermentas minhas emoções.

Nada nele me recorda de ti, penso que isso seja um aspeto positivo.

Ele deita-se no sofá e continua a conversar comigo, desta vez ouço cada detalhe que sua voz emite e torno-me obcecada, reconheço nele teu interesse e tua capacidade de antecipação.

Analiso-o, alto e esbelto, pronto para me seduzir após uma educada conversa, a sua atitude baralha-me e interrogo-me qual das suas facetas é mais proeminente.

Admito que possui uma paranóia mais grave que a tua. Carrega nele muitos pensamentos e observações. 

Procura nas pessoas sinais de julgamento. Tenta agir de acordo com o esperado. Assusta-me sua submissão à norma. É confuso como de noite nada o agarra.

Talvez seja do álcool.

Cansei-me de conversar com ele, já não sei conversar, nada de pertinente me ocorre para dizer, sinto que me escuta mas refuta tudo o que digo.

Não partilhamos mesmas sensações ou aspirações. Dispersamos um do outro como esperávamos. Pelo menos a espera foi agradável.

Passeio como o costume, não te encontro mas também não te procuro.

Tu.

A tua projeção está sempre aqui, a incomodar-me.

Incomodas-me.

Persistes em me acompanhar como se contigo fosse ficar. Conversas comigo nesta nova cidade, que procurei para me afastar de ti.

As novas pessoas que apareceram rapidamente perderam o interesse, não por serem desinteressantes, mas por suas conversas apenas conseguirem fazer eco no meio de tuas palavras.

Hoje decidi te abafar, pintei. Admito que já te tentei pintar mas a minha incapacidade de traduzir tua expressão acabou por me fazer abandonar a ideia.

Talvez tenha sido autossabotagem pois pintar-te incluir-te-ia no único momento em que não estás.

Apesar de me importunares em tudo o que faço, consegues ajudar-me a pintar. Fermentas minhas emoções.

Mas sei que tenho de te negar, por mais repetitiva que seja esta atitude fracassada.

A verdade é que sou sensível, apenas não é comparável a minha sensibilidade quotidiana à que sinto quando estás ou não estás. Desde que te projete, sinto.

Visto que insisto em te ver acho justo parar de te culpar por me importunares, visto que estás completamente ausente, tu nada fazes.

Já formei em mim uma ilusão do que és a partir do que me mostraste, agora não lido contigo mas sim com ela.

Agora que reconheço tua inexistência, sei que existes tu e tu para mim. O eu que carregas está agora totalmente independente de mim, por mais que insista em me ouvir.

Quando decidi nunca mais te ver, cansei-me de te ouvir gritar.

Quando decidi não ver mais nenhum de ti, fez-se um silêncio perturbador, que durou.

Dura.

Dura.

 

13

O espaço que deixaste não precisa de ser preenchido, tenho muito uso para lhe dar.

Dura e pensei que me fosse incomodar mais. Estou tranquila sem ti e como não sinto com tanta intensidade, pouca coisa me afeta, pelo que sobra o pouco.

Não é que as coisas não me afetem mas percebi que inúteis são minhas sensações quando nada posso fazer para mudar o que observo.

Ultimamente tudo o que tento mudar permanece idêntico, reconheço minha impotência mas não fico afetada. Se ficasse, não era impotente.

Já há algum tempo esta incapacidade de mudar está presente, mas até há pouco tempo, tinha-te duas vezes a ocupar meu tempo.

O espaço que deixaste não precisa de ser preenchido, tenho muito uso para lhe dar.

Portanto, continuas presente, nem que seja pela tua ausência.

Agora tenho de aprender a lidar com a solidão que se impregnou em mim desde que foste.

Agora só me falta a vontade de me ajoelhar quando esqueces teu poder, só me falta o gosto de te ter quando esqueces de me fazer engolir-te, só me falta o prazer de estar presa quando não encontras as minhas mãos.

Tanto me falta quando não encontro teu peso em meu torso. Quanto me falta quando te esqueces de me amassar.

Ainda mais me falta quando optas por não estar.

Também eu optei por te excluir involuntariamente, por compromisso com a minha estabilidade.

Este vazio que me fez esquecer de como ser dominada contagiou meu dia em que procuro opiniões que substituam teu discurso, assertivo, que aumenta meu equilíbrio, não por seres positivo mas por me ocupares tempo.

Tempo que agora me deixa ainda mais vazia.

Já não me lembro de não me ocupares, não sei com que me ocupar sem que me comprometa.

Comprometo-me.

 

14

Percebo que não sou eu que sofro de perseguição mas ela que sofre de abuso da minha vista.

A pintura e a escrita consomem-me. Acentuam a minha insatisfação e alimentam minha procura por aprovação. Condeno a dependência que tenho do julgamento alheio,, que desconhece todo o meu processo criativo.

Mas hoje cansei-me de escrever, de pintar, cansei-me de te esquecer.

Penso que quando me perseguias ocupavas meu cérebro e isso acalmava-me desconfortavelmente.

Ocupava-me.

Neste momento minhas ocupações mais me punem pois dependem apenas de mim, elas não me rejeitam. Melhor seria se me rejeitassem, pois não tenho coragem de as abandonar.

Tive coragem de te deixar, de percorrer as ruas sem a tua sombra, agora esbarro-me e perco-me sem ninguém para me acompanhar.

Fazes-me falta.

Fazes-me falta.

Não tu, a pessoa que existe neste mundo físico, mas a minha companhia que pensava que me perseguia.

Percebo que não sou eu que sofro de perseguição mas ela que sofre de abuso da minha vista.

Apenas existe em mim e para mim, o que seria extremamente adequado se fisicamente me desejasses mas como és apenas um vulto não sei como posso ser para ti, só se for por te dar existência.

Estou desiludida e cansada de persistir em te erradicar, estou cansada de te negar e nunca te admitir.

Ontem voltei a falar comigo e voltaste a condenar-me, o meu quarto encheu-se novamente de ti.

 

15

Simplesmente não existe mas és a minha cocaína quando não tenho mais força e a minha heroína quando quero que todo o meu mundo seja prazer.

Estou tão cansada das tuas desilusões e das minhas feias conclusões. Estás cansado de mim.

Estou cansada de ti.

Mas é um cansaço que me pesa como um braço engessado. Preciso desse peso para que me repares. Não é tua obrigação e sei que as tuas emoções também existem, mas quando me persegues e não te vejo só penso em mim. Porque na verdade, não existes nem para mim, nem para o meu vazio.

Estás cansado.

Mas enquanto a tua pessoa está cansada de ti continuas a acompanhar-me e agora, até na minha mente me rejeitas.

Já me esqueci dos níveis de rejeição que atingiste, mas é impressionante como te recordas quando estou quase a escapar e como me abraças com força em demasia. Abraças-me e voltas a perseguir-me e o ciclo retoma-se.

Devias ter vergonha de me fazer isto. Odeio-te.

Odeio-te, ouviste?

Estou tão cansada que sejas a minha sombra e enegreças tudo em que toco. Cansaço e cansaço.

O pior é que depois de todas as tuas desilusões e manipulações, volto a quebrar e arranjo energia que não existe para mais nada.

Nem para a escrita, nem para a pintura.

Simplesmente não existe mas és a minha cocaína quando não tenho mais força e a minha heroína quando quero que todo o meu mundo seja prazer.

Porque apesar de tudo quando estou contigo, o verdadeiro desaparece e entro num êxtase que não consigo explicar-te.

Esperarei para sempre que o sintas. Por mais que outros me encostem suas mãos ou engulam minha saliva.

Sei que te incomoda.

Incomoda-me que te incomode porque tudo o que te afeta me afeta.

Não percebes que te odeio porque sinto por mim e por ti e nem me dás o prazer de uma igualitária companhia?

 

16

Hoje terminamos e esqueci-me das vezes que te amei sem me amar, já não sei como me recordar do que é esquecer-te.

Hoje terminamos e não sei que vida viver, sinto que me perdi há cinco anos e agora me reencontrei, abandonada como uma criança, que espera por ser retomada abismada pela vida sufocante que a abraçara.

Hoje terminamos e ontem acabamos separados e sinto que sou uma ave migratória que ficou para trás, sinto que perdi os meus outros e abracei os teus outros, não sei onde os deixei, não sei.

Hoje terminamos e esqueci-me das vezes que te amei sem me amar, já não sei como me recordar do que é esquecer-te.

Hoje terminamos e tenho de te esquecer.

Vou, um dia, sabes?

Um dia te esquecerei e ficarei quieta a observar tal esquecimento, como se de uma ópera se tratasse.

Ouço as tuas palavras ecoarem por meus ouvidos, que já não ensurdecidos ouvem toda uma multidão imensa, que me absorve e afundo.

Afundo.

Afundo.

Afundo nesta imensidão em que te perdi e me perdi.

Afundo-me e encontro estes olhos negros como carvão nos conflitos da minha memória.

Encontro estas mãos cheias de estradas que me levam aos extremos do prazer.

Encontrei as pernas cuja direção me puxa para lugares escondidos de mim em que me perco.

Afundo-me sempre contigo, mas afundo-me sem ti desta vez.

Vejo-te mas não te apreendo, passo por ti mas vais-te nesta queda imensa.

Vejo teu rosto esbatido, pela velocidade passar por mim, amarro tuas mãos mas elas não me detêm e amarro teus pés mas eles não me chutam.

Caio.

Caí.

Caí e o corpo dói, sinto uma turbulência na cabeça que bateu de frente na dureza do paralelo.

A minha cabeça treme como reação a esta batida.

Batida.

Lembro-me das tuas batidas.

Lembro-me de quando minhas pernas tremiam.

Mas agora que caí, já não sei como lá voltar.

Foste-te!

Acabamos!

Caí, afundei.

Saí pela porta dos fundos do corredor em que fugi de ti .

Encontrei a porta dos fundos e ela leu minhas mãos e falou-me de ti, de como eras e não de como és porque já nem ela te vê.

Morreste?

Que é feito de ti?

Não estás em minhas previsões não estás em minhas alucinações.

Esperneio para que reajas, para que me amarres como é costume.

Mas não me lembro do que mais fazer, para te apelar.

Parece que esqueci como te apelar, já não me lembro do que te desperta.

Como te despertar?

Já não sei de ti!

Amanhã procuro-te.

Saio pela porta dos fundos e encontro a poetisa que me diz que encontrarei todos meus medos e adversões quando retomar.

Opto mais uma vez por não enfrentar a minha vida.

Não acordo.

Adormeci, caí e não acordei.

Encontro-me neste limbo existencial que não te procura.

Posso acordar?

 

17

Levanto-me da cama e tudo o que tenho é luz natural que enaltece a minha perda nada casual e minha vitória e libertação descomunal.
Hoje acordei e não senti teu cheiro a cerveja nem vi teus olhos expandidos de negro profundo.

Hoje revirei-me e minha mão procurou-te e encontrou o fresco dos lençóis, os meus pés procuraram o quente das tuas pernas mas falharam.

Os fios de teus cabelos estão na tua almofada.

A tua camisa está caída na cadeira em que costumavas declamar e o copo ainda lá está.

A janela que cobrias com cobertores está aberta e sinto a brisa da perda arrepiar minha nuca descoberta.

A porta encostada bloqueia a luz, que escapa por um fio esguio amarelo e desbloqueia meus olhos.

Minhas pupilas retraem e percebo que não estás.

Não ouço teus passos pela casa, não ouço a louça de teu pequeno-almoço.

Não encontro tua medicação.

Não encontro minha submissão.

Não encontro tua violação de minha vontade.

Não te encontro!

Portanto, não te entro dentro.

Levanto-me da cama e sinto o frio da madeira porque levaste o tapete.

Levanto-me da cama mas não encontro a roupa porque a queimaste.

Levanto-me da cama mas não tenho água porque a cortaste.

Levanto-me da cama e tudo o que tenho é luz natural que enaltece a minha perda nada casual e minha vitória e libertação descomunal.

Sinto-me livre, ouviste?

Não te tenho para me enrolar em cordas até a minha pele arder.

Não te tenho para que aproximes a ponta do cigarro de minha pele até queimar.

Não te tenho para puxar o meu cabelo até a dor arranhar.

Portanto, não te entro dentro.

 

18

Não sinto a tua falta pela hora do pequeno-almoço, por isso saio para pintar.

Saio para ver o verde, os pássaros e tudo o que não via quando me deixaste.

Quando me deixaste só te via e ouvia.

Quando me deixaste não notava qualquer oitava, não via qualquer via.

Só em ti pensava, só por ti passava.

Agora que te esqueci, redescobri em mim todas as vontades que perdera, encontrei esta pessoa que existia antes de ti, não para ti.

Pintar.

Decidi pintar sobre submissão mais uma vez, mas não tenho um impositor de autoridade ou verdade.

Descubro que preciso de outra temática que desenrole minha vida estática, que deixou de te pertencer.

E ele voltou, vi-o agora na esquina, ele está doente, consumido pela vida.

Hoje escrevi-lhe e ele leu:

Tenho-te a ti para me deixar fraca

A esperar pela tua placagem inevitável que me apoquenta como me esquenta

Quero que me empurres das escadas e me deixes morta definhada

Quero que me deixes apodrecer para não mais perecer pela tua morte adiada

A agulha afiada com que coseste minha boca, abre agora buracos por onde escapa o cheiro jejuado

O cinto pontiagudo que apertaste agora abre feridas de poros em que sangro, jarros de lágrimas esquecidas e perdidas

Escorrem por tua língua seca e negra apodrecida que não te deixa falar

Já nenhum produz palavras, nenhum emite sentenças de morte, por sabermos que já estamos condenados a uma precoce e veloz, que nos correrá pelas veias secas de sangue e cheias de nós

Espero ver-te um dia para que me deixes mais fraca e não tenha medo do fim que emites tão solenemente e verbalizavas tão convincentemente.

 

19

Tenho de me despedir dele também sabias?

Assim, já nada me compete.

Então, fico sozinha.

 

Irene Telles.
Sono – Irene Pedras