Menú // Pesquisa
#ComoFoi Talea Jacta e Naxatras

#ComoFoi Talea Jacta e Naxatras

Se 31 de Julho é o melhor dia para casar, então 4 de Abril é o melhor dia para um concerto que casa o psicadélico e o stoner.


A familiar Garboyl junta os portuenses Talea Jacta com os gregos Naxatras no Hard Club numa noite de viagens alucinantes (ou alucinadas?).

Inaugura-se o passeio pelo cosmos com o duo Talea Jacta, composto por Pedro Pestana na guitarra e loops e João Pais Filipe na bateria e percussão.

o par cria uma bolha onde cabem muitos mundos.

Há que referir que este prodigioso par surge do projecto “Duos Improváveis” mobilizado pela Favela Discos, quando se juntam o percussionista de HHY and the Macumbas e o guitarrista de 10000 Russos. Aquela que é uma junção de facto bizarra funciona como se pode imaginar que dois virtuosos funcionem em palco. Notando-se bem as diferenças das escolas de um e de outro, a sincronia e a química entre os dois é de tal ordem que dispensam trocas de olhares ou comentários ao largo do concerto.

Por onde um vai, o outro já sabe.

Entre a percussão de João bem à músicas do mundo, que dão vida própria às ancas e aos pés, e o mundo que Pedro constrói entre a sua guitarra e um piano de pedais aos pés, o par cria uma bolha onde cabem muitos mundos. Os loops vão-se sobrepondo como um castelo de cartas, e o cenário que criam é absolutamente psicadélico.

Fecham-se os olhos, dobram-se as nucas para trás, e sacodem-se lentamente as cabeças: não é uma viagem ao espaço sideral, é espaço para viajar pela quinta dimensão.

Quem seguramente deve andar pelo cosmos é o Júlio. Há anos que em Moledo se anda a chamar pelo Júlio, chegado o Sonicblast, e ainda ninguém sabe do Júlio. Mas como a procura não pode esperar por Agosto, andavam os habituées do Sonic a chamar por ele no Hard Club.
Mesmo assim o Júlio não se acusava.

Este grupo de stoner rock grego é a personificação de um estado alterado de consciência.

Eis que entram Naxatras. A vibração no público é generalizada. Este grupo de stoner rock grego é a personificação de um estado alterado de consciência. A música que tocam é quase cinematográfica; não é difícil que, fechando os olhos, nos encontremos numa bolha muito nossa e muito deles.

Sem serem espampanantes com a virtuosidade da sua técnica, vão chegando aos corações e às cervicais do público. Tocam um rock que é familiar, é íntimo, e não é difícil, mas recusando o simplismo que às vezes pauta o género. De sublinhar a igual relevância que baixo e guitarra têm nas composições, quando há momentos em que é a guitarra a segurar o ritmo e o baixo a garantir a melodia.

Quando tocam “On the Silver Line”, a plateia está ao rubro. Os Naxatras sabem bem o que a malta quer, e sabem bem o que nos dar. O que há de mais assinalável nesta banda é que o que se ouve ao vivo, nem numa nota difere daquilo que se pode ouvir em casa.

O trio tem o seu som e os seus mapas astrais tão dominados que o universo parece deles.

Perto do final, tocam o que parece ser um medley da “War Pigs” e da “Children of the Grave” dos nossos queridos Black Sabbath. A energia no público muda, as cabeças em vez de caírem para trás caem para a frente, e os braços levantam-se energicamente. E tocando um stoner mais ou menos progressivo, guardam o melhor para o final, para assegurarem que não fica ninguém pelo caminho durante a viagem. As melhores e mais familiares músicas de Naxatras ficaram para o encore.

Quando se ouvem os primeiros acordes de “I am the beyonder”, o público explode numa ovação geral. E maior a ovação quando em vez de declamar “I am the beyonder” ao microfone, o vocalista John Vagenas chama pelo estimado Júlio.

A CVLTO foi até ao espaço sideral de passeio com Talea Jacta e Naxatras, e foram mundos muito diferentes os que vimos nesta excursão. Havemos de lá voltar, um dia, mas queremos ir em tão boa companhia como fomos nesta noite.

A ver se por essa altura já se sabe do Júlio.

 

Texto: Zita Moura
Fotografias: Mar