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#QuemPensa é réu: “s/t”

#QuemPensa é réu: “s/t”

quando eu tinha 10 anos, plantei uma árvore neste jardim, lá ao fundo, à esquerda. não sabia que árvore era, não fazia ideia quão alta ela ia ficar e não lhe dei nome, na altura. era a minha árvore.


por cima da minha cabeça uma vinha plantada pelo meu avô das poucas memórias físicas que restavam dele, nunca o conheci.

durante muitos anos, quando parava de chover, eu dizia vou ver a minha árvore!” e lá ia eu, pequenita, e depois maior, a saltitar de pedra em pedra para ver a minha árvore. de um raminho frágil e pequeno, durante 14 anos fui vendo aquela árvore a crescer, até que já era mais alta que qualquer pessoa.

era um sobreiro. e era um sobreiro feliz. o meu tio podava a minha árvore, de vez em quando, para não atropelar a laranjeira e a macieira.

quando se é bicho de cidade, não há apego a coisa nenhuma, tudo é efémero, tudo é descartável, tudo tem que ser substituído por aquilo que mais compensa. naquele jardim, para mim, o tempo parava.

era no fundo da casa, pela cozinha, havia uma porta de madeira pintada de branco e assim que se saía, havia um alpendre de cimento com uma mesa de plástico branca, meia dúzia de cadeiras, e para a frente só jardim. por cima da minha cabeça uma vinha plantada pelo meu avô das poucas memórias físicas que restavam dele, nunca o conheci. sete degraus de cimento levavam-nos do alpendre para o jardim; um tanque à direita e lá para baixo, só plantas, flores, árvores, frutas. havia laranja, maçã, hidrângeas no primeiro plano, rosas brancas, rosas cor-de-rosa, rosas amarelas.

mais tarde veio um cão que primeiro era pequeno e frágil, depois tornou-se grande, com voz grossa e foi-me ensinando o que é amor.

muitas árvores que não davam fruta, também. a única coisa que nunca pegou naquela terra foi relva, daquela bonitinha, casa de barbie, sabes? não era um jardim organizado, era um jardim que foi acontecendo; às vezes era alguém que plantava, às vezes era qualquer coisa que ali caía.

até maracujá chegou a haver – ah!, tempos felizes.

também havia animais. o primeiro foi o cão da casa, que era um rafeirito, pequenito que só reclamava – mas era um cão feliz; depois houve um cágado muito velhinho; depois vieram os ratos, ratazanas e os gatos independentes, que magoaram o cágado. não mais houve cágado. mais tarde veio um cão que primeiro era pequeno e frágil, depois tornou-se grande, com voz grossa e foi-me ensinando o que é amor.

lembro-me de tanta coisa neste jardim

um saco esvoaçar, quando o pai natal levantou voo e eu aterrorizada com a ideia do pai natal me ver; tardes de verão a limpar o pó à colecção de discos de vinil e cds do meu tio; tardes de inverno do início da adolescência, sentada na cadeira de plástico branca, de coração partido como só to partem quando estás a aprender a ser pessoa; lembro-me de, em miúdinha, não poder ir para a praia porque não tinha quem fosse comigo, então pegava numa toalha de praia, deitava-me na espreguiçadeira, fechava os olhos e imaginava o som do mar; foi ali que comecei a desenhar, a pintar.

depois vieram os novos miúdos, a geração seguinte. aí, já não era eu que pintava, que desenhava, que apanhava sol, que caía… era eu que abria o guarda-sol, que estava sentada a dizer coisas de adulto, como “não corras aí que podes cair! se te magoares ainda levas por cima!, enquanto fumava cigarros e conversava com os outros adultos.

aquele jardim viu cinco gerações crescer e tomar o lugar da anterior, mas a aprender.
aquele jardim viu cinco gerações crescer e tomar o lugar da anterior, mas a aprender.

foi ali que chorei muito, foi ali que absorvi maior parte das grandes lições da minha vida. a minha tia sempre a olhar para os aviões que passavam emoldurados pelas árvores. um dia a minha tia contou-me, sentadas no jardim, que ela gosta muito de aviões porque quando a minha avó estava a dar à luz a minha mãe, o meu avô pegou na minha tia pela mão, levou-a a passear pelo corredor da ilha, e para a minha tia não ouvir os gritos da minha avó, fê-la olhar para cima e disse

“estás a ver aquele avião? quando ele aterrar, vai trazer um irmão ou uma irmã para ti”.

aquele era o porto da minha infância, da minha adolescência, do meu crescimento, da minha evolução. o porto de boas notícias, o porto de conforto, o sítio onde tantas más notícias recebemos. o sítio onde nos ríamos, devagarinho e depois com tanta força.

a minha percepção de sons, cores, luzes, tudo começou ali. acho que a primeira fotografia que fiz foi de uma flor, lá. o primeiro poema que escrevi, lá. o primeiro azulejo que pintei, lá.

epifanias sem fim, lá.

eu gosto de sítios. sítios mudam, como nós, mas continuam a ser aquele sítio. às vezes evoluem, às vezes degradam – como nós. às vezes desaparecem as paredes, os chãos, os objectos, mas o sítio continua ali – as memórias, as lágrimas, as músicas e as luzes.

lembro-me de sentir a cidade a mudar naquele jardim. primeiro ouvi a vci, depois o metro, depois as pessoas, depois os turistas.
depois veio o despejo.

depois veio o despejo.

e já não senti mais nada.

agora, quem por lá passa não sente as cinco gerações que por lá passaram, não sente as memórias que eu sinto, não sente a minha árvore a crescer, os aviões, as histórias, a uva do meu avô por cima da minha cabeça, as tardes de verão a ler livros aos sol, os planos, as notícias de casamentos, funerais, gravidezes. jantares ao fim do dia, no verão. discussões políticas. muitas discussões. conversas com vizinhos por cima de muros. pássaros estranhos, apanhar fruta, cair. cinco gerações.

não sei se a minha árvore lá continua ou se a mataram.

 

RÉU