Menú // Pesquisa
#QuemVê é Solange Bonifácio

#QuemVê é Solange Bonifácio

Convidámos a Solange para este #QuemVê, que será ligeiramente diferente dos anteriores. Contrariamente às restantes edições desta rubrica, esta iniciar-se-á com um pequeno conjunto de perguntas que colocámos à Solange em tom informal, e que estão directamente ligadas a temáticas que temos vindo a querer e a prometer abranger mais vezes aqui pela CVLTO.

A Solange trabalha na documentação de concertos para várias plataformas e em vários scenes diferentes dentro da música alternativa. É cara familiar ao nosso meio, e mais do que isso; não tem medo de ir para o meio da porrada de máquina em punho.

E é isso que nós queremos. Mulheres de armas.


 

CVLTO: Como se iniciou a tua carreira como fotógrafa de concertos?

Eu comecei a fotografar concertos bastante cedo, e também parei demasiado tempo de os fotografar. Eu sou uma entre tantos outros exemplos do cliché clássico de ter interesse em máquinas fotográficas desde bastante pequena, em que literalmente roubava as câmeras fotográficas da minha mãe e do meu avô materno e que acabavam sempre por me dar na cabeça devido aos rolos e revelações dos mesmos serem caros naquela época. Aos 13 anos finalmente tive a minha primeira “suposta” máquina fotográfica “a sério” – que só pelo facto de não ser descartável já me deixava bastante contente. Além de ter uma objectiva já bastante razoável e flash, facilmente comecei a usá-la na escola e concertos que lá eram organizados. Como fiz parte de associações de estudantes acabava por ir a festas de outras escolas da minha vila com regularidade e a concertos de duas sociedades que aqui havia.  Vivia-se na “linha” um espírito muito DIY e um ritual “daqui” de se ir a concertos com os mais velhos, fotografia de concerto, de os mais velhos tomarem conta dos mais novos. Ter alguns primos integrados ajudou a essa continuidade em ir a concertos cedo, mas quando ia para LX raramente levava “a máquina”. Tinha receio que a mesma pudesse ser roubada no comboio. Assim sendo, esporadicamente levava uma descartável em espaços pequenos.

2002 considero ter sido o ano em que comecei a ver as coisas de outra forma e a começar a ganhar interesse também na leitura e jornalismo musical. Tinha um conhecido destas andanças que tinha credencial como jornalista para o Festival da Ilha do Ermal desse ano, do qual fez-me o brilhante favor de entrar com uma das minhas máquinas que tinha na altura. Tirei uma data de fotografias à socapa ainda, e ainda as tenho.

O Lotus Bar em Cascais foi um espaço que num curto espaço de tempo fez muito pela música underground ao vivo aqui na zona. A malta de Lisboa vinha toda para cá. Embora tivesse noites temáticas como a noite do Hip-Hop, as jam sessions, Rockabilly, ou do Drum and Bass, o habitual era mesmo concertos de música pesada (ou como lhe queiram chamar). E passavam por lá todo o tipo de nomes, desde os Twentyinchburial, Tara Perdida, aos Orange Goblin. Por esta altura já tinha também a minha primeira câmera fotográfica digital. O verão de 2004 foi crucial para mim e foi o ano em que comecei mesmo a fotografar muito. Vivi literalmente esse verão a ir a concertos no Lotus Bar, sempre de máquina fotográfica na mala. E essencialmente, estes anos da minha adolescência foram absolutamente onde a fotografia começou a ser uma presença constante. 

 

CVLTO: Sentes algum tipo de diferenciação na lidação dos agentes culturais para contigo, por seres mulher?

Francamente, e até felizmente, considero as experiências que tive não necessariamente da parte dos agentes, mas aqui falando de modo mais geral, foram sempre de ser tratada com o dito profissionalismo ou educação necessária. Por assim dizer. Já senti, sim, por diversas vezes, da parte de “colegas” esse tipo de abordagem ou postura de diferenciação. E de algum público e músicos até, entre outros. Infelizmente e mesmo dentro deste contexto, cá em Portugal as mulheres levam muito mais facilmente com esse apontar de dedo e ficam mais facilmente na mira, seja a postura que tiveres. E num meio como este, é um comportamento completamente contraditório. Mas que penso que também difere um pouco por fases e entre géneros musicais e os espaços frequentados.

CVLTO: Ao nível da publicação das tuas imagens nas várias plataformas com que já vieste a trabalhar, quais serão as maiores fragilidades que encontras no mundo editorial ligado à música alternativa?

No meu entender uma das maiores fragilidades é mesmo a saturação em massa que temos. Vivemos numa época em que com tanta evolução e progresso temos diversas ferramentas interessantes a serem utilizadas, mas grande parte das plataformas são idênticas. Tal como a forma como os conteúdos são explorados. Isto tudo se tornou demasiado banal também, parece que o cérebro deixou de servir para criar. Hoje em dia vê-se um número abismal de credenciais a serem dadas em concertos ou festivais em que muitos dos casos não o justificam.

A meu ver, isso só vai prejudicar o trabalho de quem vai para um pit fotografar em que nem consegue praticamente ter mobilidade para se mexer de modo a não perturbar os outros colegas, entre outras valências. Penso que o processo de exigência e selecção deveria de ser outro na maioria dos locais e eventos. Não digo de modo algum que os “grandes” são quem deve ir, porque para mim nem há “grandes”. Para mim faz até todo o sentido primarem tanto uma revista de qualidade, a um blog, como uma plataforma de vídeo, como uma fanzine / DIY. Se o trabalho, empenho, conteúdo e apoio para com o agente e trabalho gradual, assim o justificar. Quem está a começar deveria de pagar bilhete, embora a credencial fosse dada. Funciona assim em muitos países. E só faria com que sim, fossem dadas oportunidades, mas com alguma exigência também. Para que algumas pessoas não lá estejam apenas para cumprir papel social e que quem já o faz também não o dar como um bem adquirido também. Quem decide estas coisas deveria de entender e seguir muito mais estes meios de comunicação.

E começar-se também a aceitar e compreender que um freelancer indo em seu nome pode ter tanto ou mais peso que uma publicação ou órgão de comunicação social. Até ao nível do alcance de publicidade de eventos nas plataformas digitais e sociais, etc. Muita coisa mudou, mas a abertura não necessariamente. Enquanto muitos envolvidos não baterem mais vezes o pé e se valorizarem mais, pouco ou nada vai mudar. Felizmente, actualmente e pessoalmente, até acho que nem me posso queixar mas acaba por ser a minha opinião perante como parte do sistema funciona.

 

CVLTO: Tendo em conta a situação que vivemos actualmente com a pandemia do Corona Vírus, qual é a tua opinião sobre o futuro da indústria da música e do entretenimento cultural?

Poderia ficar aqui demasiado tempo a desenvolver esta temática da nossa atualidade, em que vivemos uma instabilidade e incerteza enorme, mas da qual não será novidade nenhuma o que estou a dizer. Sinceramente, choca-me um pouco ler coisas como: “daqui a pouco tempo já nos vemos em algum concerto de novo”. Por mais que gostasse que isso acontecesse, e viva em PMA, não me soa real e pragmaticamente falando não vejo isso a acontecer tão cedo. E se tal acontecer, todo este estado mundial de emergência causado pelo COVID-19 só iria ser uma contradição de diversos actos e factos.

Preocupa-me bastante. Penso muito nos músicos, nos técnicos, nos agentes e promotores, nos donos ou arrendatários de salas de espetáculos, entre outros. Basta pensarmos também no tempo em que cada país poderá demorar a voltar a um suposto quotidiano normal. Cada país terá o seu ritmo para que isso aconteça. Sucedendo, algumas fronteiras poderão continuar fechadas. Em como isso irá ou poderá afectar marcações de tours, entre outras coisas? O facto de as pessoas não poderem viajar, como é que os museus ou galerias de arte poderão reagir a longo prazo?

Penso que se o estado de emergência continuar por muito tempo, uma grande possibilidade a longo termo seria as pessoas voltarem a olhar mais para o que cá se faz, pelos músicos que cá temos, e cultivar-se isso de outras formas. Quais? Ainda não sei bem. Mas no que diz respeito à música já seria um bom começo em vez de só se publicitarem os ditos comerciais e populares, puxarem pelos independentes que consideravelmente serão quem mais necessita até de apoios e visibilidade numa altura destas.

Eu pessoalmente, estou por enquanto a terminar de reunir material e a produzir com algumas colaborações. Totalmente em modo DIY, é uma fanzine onde resumo o que aconteceu este ano dentro do hardcore cá, e o que fica e ainda está por acontecer – com ideia de sair em formato digital e no futuro em formato físico – como forma de dinamizar e levitar o trabalho feito e por realizar este ano dentro desta comunidade. 

 

Texto de Ana Garcia Mascarenhas

Fotografias de Solange Bonifácio