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#QuemPensa é Rita Cadete: “À Escuta” de Jean-Luc Nancy

#QuemPensa é Rita Cadete: “À Escuta” de Jean-Luc Nancy

No livro À Escuta, o filósofo francês Jean-Luc Nancy propõe estabelecer uma relação entre o som e o corpo, questionando o papel de primazia do olho e do visível na filosofia em detrimento do ouvido e do sonoro. Nancy tenta ainda abordar a questão da impossibilidade da cessação da audição, já que o ouvido é “um olho sem pálpebra”.
Escutar é prestar ouvidos – dentro do termo cabem tanto uma inclinação atenta para um sentido (de uma mensagem, de um dito); a abertura da percepção pelo sentir do ouvido (também para um além-sentido e um dizer); quanto uma tomada de consciência da penetração feita por parte do sonoro, do próprio som, e do que traz consigo.

“Escutar é prestar ouvidos”

Para questionar o privilégio da teorização do regime do sentido visual, da parte da filosofia nas suas várias disciplinas (estética, e o surgimento da fenomenologia) — e poderíamos também dizer, da parte da teoria da arte propriamente dita, em que é dada primazia à relação entre espectador e imagem—, em detrimento dos demais sentidos sensíveis, temos o exemplo de Jean-Luc Nancy e do texto que dedica à escuta, ao som e ao sentido, e ao sujeito ressoante. Enquanto que entre a visada e a contemplação do filósofo não parece existir uma fissura ou fenda, sendo estreita a relação entre espectáculo e especulação; entre o visual e o conceptual ela parece contrariamente existir entre este último e o sonoro, entre a escuta e o entendimento. A primeira dupla mantém uma relação isomórfica entre si, enquanto que o som não depende da forma, mas ultrapassa-a, na sua expansão e espessura.

“O visual persiste mesmo no seu desvanecimento, o sonoro aparece e desvanece-se mesmo na sua permanência”, também na presença os dois regimes se distinguem, a visada é já presente enquanto que o sonoro é “em presença de si mesmo”.

Nancy descreve então uma estrutura, “o espaço de um reenvio” que partilham o som e o sentido, e que define de seguida como um si: “Um si não é senão uma forma ou uma função de reenvio: um si é feito de uma relação a si, de uma presença a si (…)”. Este espaço é o espaço de um sujeito, no seu “sentir-se-sentir”, e necessariamente de um sujeito ressoante, pois é este que reenvia a si e em si mesmo, pela escuta que é um acesso a si, enquanto que o sujeito “já-sempre dado” do olhar/visada se reenvia a si como objecto, por se manter posicionado no seu ponto de vista, perdendo as restantes perspectivas, tornando-se cego a elas. O  sujeito ressoante é “espaçamento intensivo de um ressalto que não se consuma em nenhum retorno a si sem imediatamente relançar em eco um apelo a este mesmo si”.

Assim como o sentido [sens sensé] reenvia pela sua diferença, “a diferença do sentido é a sua condição, quer dizer, a condição da sua ressonância”, como o “sentir-se” é a condição e propriedade do sujeito. O reenvio do som é o seu próprio ressoar, abrindo o seu próprio espaço, “o próprio espaçamento da sua ressonância, a sua dilatação e a sua reverberação”, o “presente do sonoro é de imediato o facto” desse espaço “omni-dimensional e transversal a todos os espaços”, pela sua propriedade omnipresente e penetrante. O som penetra os obstáculos ao mesmo tempo que se ricocheta neles, penetra ao mesmo tempo que retorna a si.

“Ouvidos não têm pálpebras”

A escuta é a abertura para esta ordem do sonoro, a realidade de um “acesso de si” do sujeito ressoante, não haverá escuta sem esse sujeito, que escuta e se escuta, e ao escutar entra para esse espaço de tensão da relação a si, dessa própria relação em si; escuta num ir-e-partir, num passar, dilatando-se penetrando e deixando-se penetrar. Os seus “ouvidos não têm pálpebras”, mas ele escuta também com todo o seu corpo, feito agora caixa de ressonância. O sujeito ressoante é também a possibilidade da sua emissão sonora, pelo seu próprio apelo ao lançar para fora a sua voz, porém sendo penetrado também por ela no seu dentro, e ao lançá-la, lança-a em todas as direcções, lança-a de todo o seu corpo, como se ela se fizesse a pele que cobre o tímpano que se toca, e que vibra em si, para o seu interior e para o seu exterior, ao mesmo tempo e de uma só vez.

 

(Janeiro 2018)
Texto por Rita Cadete

Ensaio sobre o céu – Maria Cunha