Menú // Pesquisa
#QuemPensa é Sérgio Morais: “O Quarto e a Insónia”

#QuemPensa é Sérgio Morais: “O Quarto e a Insónia”

Já acabei o livro do Kundera. Já sequei os olhos ao computador. Vi a trilogia do Padrinho, outra vez. Aprendi a tocar a Sibylle Bayer na guitarra – tem músicas giras, porque são fáceis e  tristes, o que as torna muito difíceis. Já vi as cento e cinquenta e três maneiras de fazer panquecas. Ouvi discografias inteiras – parei no Billy Joel, na altura do 52nd Street durante um bocado. Já bebi um total de quinze garrafas e meia de água. Fumei mais do que devia. Reparei que tenho um papo estranho em cima da amígdala direita. Contei os dedos dos pés para ter a certeza que não faltava  nenhum e aproveitei para contar os das mãos, não fosse estar cego ou a sonhar. Contei 3 nuvens em 6 dias que têm formas fálicas. Vi o nascer do sol enquanto ouvia a Aragatz do Tigran Hamasyan e chorei. Depois ri e não percebi porquê. Reaprendi a imitar o som dos patos mas não tenho a certeza se o consigo fazer bem. Escrevi coisas tão parvas que nem sequer as vou mostrar algum dia.

 

E agora? Se calhar depilo-me todo e passo a ser um nadador profissional de lençóis. Se calhar aprendo a fazer lampreia à bordalesa como deve de ser e faço uma jantarada para os livros e para as canetas; não vou convidar as garrafas que eles não se dão bem. Vou construir uma casa de unhas roídas. A casa vai ter três andares, cinco casas de banho e piscina interior. Não vou querer morar lá.

Vou cantar as janeiras em abril, vou encher a boca de moedas e ser um dispensador como há no sítio do bowling, vou fingir que sou uma rosa, vou ser uma rosa de verdade, vou encher os pneus da bicicleta estragada que tenho na varanda, vou barrar o meu corpo com manteiga de amendoim e dormir na banheira, vou tomar banho no bidé, vou berrar o FMI do José Mário da janela do quarto! “’Come on you son of a bi’ch!’ ‘Come on baby’ a ver se me comes! ‘Come on’ Luís Vaz, amanda-lhe  com os decassílabos que eles já vão saber o que é meterem-se com uma nação de poetas!”. Vou-me masturbar e vou dormir, pronto, foda-se, não quero mais esta merda, quero ficar sozinho noutro sítio qualquer que eu já não aguento o discurso estratocrático do meu armário. Se não lhe posso afagar o cabelo enquanto ela dorme então quero ficar sozinho num campo de milho ou coisa que o valha! Senhor Capitão: eu não quero matar ninguém que não tenha o nome igual ao meu! E mesmo esse estúpido merece viver de vez em quando! Senhor Capitão: dê-me as minhas calças que eu já estou farto de estar nu e estou com frio! Senhor Capitão: pare com isto! Por favor! Por favor. Por favor? Pode-me fazer esse favor, Capitão?

 

Temos de parar. Eu sei. Temos de nos esconder um pouco. Mas eu só queria dormir um bocadinho. Deixa-me dormir um bocadinho, pá. Pára de pensar e reaprende a morrer devagarinho.

Passar o tempo – Cristiana Figueiredo