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#QuemPensa é Luís Masquete: “Venga a Nós o Reino deles”

#QuemPensa é Luís Masquete: “Venga a Nós o Reino deles”

“A Morte de Danton” é uma peça de Teatro cuja epifania deslumbra os líricos, iluminados e cénicos entre nós.  É tida como o filho primogénito do Teatro Moderno, concebida por Buchner em 1835, do mesmo modo que referimos a paternidade do heavy-metal remontando-nos a Birmingham, década de 70 e ao covil de uns tais Black Sabbath.
Pois “Quem será o pai da criança?” é já uma interrogação antiga de origem beata, diga-se, tamanha curiosidade para tal impertinência de definir os reais precursores de quaisquer movimentos, sejam artísticos ou o que parta um raio.

No caso das crianças, okay. Acuse-se o pai e salve-se o filho.

Mas no restante é necessidade vazia, não? Esta busca incessante pelos fundadores das coisas, das belas coisas, do profano, sei lá…

Do próprio Humor.

Quando toda a gente sabe que quem ri por último ofusca o primeiro.

Desfrutemos antes da piada em si e dos gracejos que soltamos em conjunto, seja em família, naquela promoção de supermercado, num beijo enamorado ou no Universo dos Venga Venga!

Quem nunca emergiu na realidade hedonista da dupla brasileira e não encontrou a felicidade? Ela é linda.

É o beijo do Teatro na boca da Revolução.

Denny é de São Paulo.

Ricardo, de Minas Gerais.

Mas ambos têm aquele passaporte global que, hoje em dia, muitos querem caducar.

Têm amor pelo outro e pelo seu vasto mundo – o chamado “Reino Gringo” onde reúnem os demais habitats musicais que preservam com uma astúcia independente de quaisquer coordenadas, importando timbres e sonoridades para uma caixinha a que chamam desde “electro-bass”, “ethno” com sufixo até a cauda de uma fila terminológica que acaba com….

 

“Whatever”. 

 

Preferimos chamar-lhe “mundo” pela relação orgânica entre vários elementos que não findam na música nem na sua globalidade, mas na construção d’um “outro”.

No fundo, Venga Venga! é um convite.

De cada vez que se juntam estão a atrair-te para uma pequena simulação onde a estética de autor lhes confere o papel de figurinos, mesmo enquanto protagonistas deste grito de liber-musicalidade.

É o prazer de sermos como cada se sente através d’uma assumida celebração do “EU” independentemente de quem “TU” sejas, desde que bailes com os vários hemisférios à tua disposição.

E numa cidade que destila os quatro cantos do mundo no suor musical da sua “movida”, Lisboa demarca-se da restante nação através d’um cocktail que resgata a herança histórica que tantas nacionalidades respira, canta, dança e toca.

A verdade é que a simbiose entre os Venga Venga! e a nossa capital parece perfeita, quase profética atrevemo-nos, no transbordar d’um caldeirão onde manjas especiarias como o Conan ou o Mafama, acompanhadas pelo revivalismo do Funaná que aquece a cidade desde os 80’s. Mas desengane-se quem os julgue apenas como embaixadores dos Trópicos.

 

A escala é planetária.

 

Daí que debitar rótulos, cronologias ou manuais de instruções nos soe sofrível neste caso, talvez mais próximo d’um movimento do que d’um projecto musical, d’uma “parada” – em bom Português c/ sotaque – do que d’um mero concerto. Uma celebração, pronto.

Nómadas assumidos e com pressa de chegar, os Venga Venga! embutem à diversidade o significado da palavra mais declamada do que realmente proferida, expondo-a aqui a nu a cada performance onde erguem a liberdade sexual e performativa a uma dimensão bastante fresca.

Até poderíamos chamar de “pioneira”, caso a cronologia nos fosse assunto de relevo, mas não nos podemos esquecer dos ventos que nos sopra o Atlântico e a electrónica de transformação social que aqui nos tem chegado.

Referindo nomes como Maria Beraldo ou Teto Preto, cedo nos apercebemos da agitação artística que cresce em sentido inverso às liberdades cada vez mais ameaçadas no Brasil.

Daí acharmos que entendemos o universo dos Venga Venga!. Sabemos d’onde vêm, com quem marcham e que tipo de “Reino Gringo”  pretendem construir.

Um condado “tutti-frutti” com embaixada em Portugal que nos enriquece a paisagem sonora e visual com fatos “custom-made” que lembram a estética “flower-power” em versão esteróides e nos oferece uma overdose de cores à fachada das nossas almas.

Este é o espelho da revolução em curso no mundo.

Venga a nós o reino deles e que eu não acabe como Danton.

Texto de Luís Masquete

Fotografias de Ana Viotti