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#QuemPensa é Lucamaluka: “Aprender a nadar: a viagem”

#QuemPensa é Lucamaluka: “Aprender a nadar: a viagem”

Aquela viagem 

Lembras-te?

um punhal de dias 

dentro 

de uma panela a refogar devagarinho.

 

Lembras-te? 

Ainda bem que escrevi aquilo

sobre os filmes se parecerem com a vida e não o contrário…

Isto há de passar num festival de cinema em atenas,

“A nova nouvelle vague”: 

a nova nova fornada de gente que vê tudo distorcido 

e tudo nítido e tudo estranho 

porque tudo não é afinal tão estranho 

como os estranhos que somos quando se faz a pergunta certa.

Mas no meio dessa merda triste agridoce orgásmica 

sem o esperma no chão mas com o arrepio por de trás da barriga 

nós andámos por aí de tasco em tasco,

copo em copo a viver com pouco

muito pouco

mas juro que não estávamos a tentar ser nada.

 

Em roma sê romano.

no resto do mundo sê de onde vieste. 

No resto do mundo sê honesto

Sê honesto e serás de montemor e de todas as outras terras bonitas

Sê honesto e cumprimenta a maria do café 

só porque a maria do café é simplesmente terra da terra.

Sê honesto.

 

Mas tem cuidado com a cinematografia e a gula…

a cinematografia e a gula

a cinematografia e a gula

talvez não sejam o que faz andar isto,

mas são o que nos faz andar nisto.

São mesmo,

Fome de escuro

fome de não saber onde se chega quando se chega

fome de estar sujo

de decrescer, de ser ineficiente, de ser preguiçoso 

de pegar, agarrar, esticar espremer

sentir.

 

Deixem nos achar que somos especiais

Deixem nos fazer o que queremos 

que nem sequer é o que queremos

porque o que queremos não existe porra

O querer é o branco num fundo preto que nunca vai deixar de ser preto,

Nunca. 

Fecha os olhos.

É preto pa

A luz tenta entrar mas é preto pa

É preto pa

e eu só quero um pouco mais de branco

só quero desprender esta corda mais um bocado.

Nunca farei revoluções,

esperarei por elas 

e lutarei para que a espera pela próxima

seja melhor que a anterior.

Chama-me o que quiseres

Estarás errado e estarás

Não vês que sou só a terra que calquei Homem?!

 

Somos todos terra 

Aguenta que somos todos terra 

E que vamos todos cair sabe-se lá onde e como

Pensas o quê?

que vale a pena adivinhar a face do dado que cai voltada para cima?

que vale a pena achar que tudo ou nada é suficiente?

que vale a pena ficar acordado se é dormir que o corpo pede? 

Pensas o quê? que os braços e as pernas não falam connosco?

 

O gregory do Kafka tinha asas nas costas.

Podia ter voado dali para fora mas não sabia que as tinha 

E nós pa? 

Não andaremos para aqui a fugir ao voo? 

Não andaremos?

Não andaremos?

Porra.

Não andaremos?

 

Porque isto não é sobre mim 

isto não é sobre uma viagem à hippielândia

isto não é para meia dúzia de putos como nós.

Isto não é uma crítica pa. 

Que crítica? 

A nossa vida é o que é. 

é feita de pessoas…

de pessoas boas e más que fazem escolhas boas e más. 

Fizeram-se estas escolhas 

poderiam ter sido outras.

 

Isto é sobre nadar porra 

isto é sobre usar as asas, 

isto é sobre aceitar a contingência de tudo 

a estranheza de tudo

Isto é sobre não saber porquê este mar

isto é sobre não saber onde fica este mar

isto é sobre não saber para onde vai este mar

 

Isto é simplesmente sobre aprender a nadar.

Homem que chora – Ana Garcia de Mascarenhas