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#QuemPensa é Jonas: “Vi o Joker… pronto…”

#QuemPensa é Jonas: “Vi o Joker… pronto…”

Olá, gente CVLTA. Por alguma razão as pessoas encarregues disto acharam que era uma boa ideia eu voltar a escrever aqui e eu “ok, pronto” e agora, olhem… Este texto foi escrito sobre o Joker como um post no Facebook numa altura da minha vida (há umas semanas atrás) em que eu não conseguia dormir.


Acabei de ver o Joker.

Sobre a minha relação com o Joker: foi das minhas personagens favoritas durante 10 anos e uma figura a qual me moldei para me defender de bullying. Quando és um chavalo da terrinha, pesas menos de 50 kg e usas eyeliner e, à partida, não estás apto para andar à porrada (ainda que andei e 80% das vezes safei-me, sabe-se lá como), a melhor maneira de evitar que abusem de ti física e verbalmente (de forma homofóbica) é transmitires a ideia que, se o fizerem, a tua reacção pode ser desproporcionalmente má.

Se o gajo pensar que está a lidar com um doente mental perigoso, não se vai meter contigo a não ser que tenha altos tomates (geralmente não têm) ou seja, ele próprio, doente mental. Ainda por cima seres meio parecido de cara com o gajo ajuda imenso.

Tudo começou quando o meu amigo, Pedro, soube que o pessoal de uma escola profissional que ele conhecia gozava comigo (eu não deixava de fazer o mesmo caminho por causa disso). Ele foi dizer aos gajos que eu era esquizofrénico, andava sempre de faca e que tentei matar a minha própria mãe. A partir daí os cânticos de “paneleiro” ou “Tokio Hotel” (o melhor deles todos, certamente) foram substituídos por olhares reprovadores e um silêncio de cortar à faca.

Sendo, tendencialmente, uma pessoa aditiva, gostei demasiado deste “empowerment” e isto criou em mim uma forma distorcida de ver as coisas e gerou alguma masculinidade tóxica (isto e outras coisas que incluem álcool e drogas) que só nos últimos anos consegui desconstruir e fazer um reboot à forma como penso ou ajo.  Ainda este ano ou no ano passado disse a um gajo que era pro-terrorismo para não ter que debater com ele porque não tenho paciência.

Não gosto que exijam ou exerçam autoridade sobre mim. Não gosto de ter que debater apenas porque o exigem de mim. Já o fiz imenso tempo e só me drenou psicologicamente e passei sempre mais tempo na internet que o que devia. Podia ter dito “desculpa lá, não tenho paciência” mas preferi fazer com que ele tivesse medo de mim. Porquê? É um mecanismo. É um hábito. Um hábito que foi validado por uma cultura que glamoriza este tipo de personalidades. Que romantiza sociopatas e pessoas problemáticas com a desculpa de as demonizar (o que piora). Mas claro: obviamente o problema parte de mim e de uma sociedade doente.

Daí, seguro de quem já sou e do que construí, consegui ver este filme. Não o ia fazer, porque sendo altamente influenciável por tudo o que consumo, não queria ter isto no meu sistema operativo, mas resolvi arriscar para desmistificar a personagem com a segurança de não me deixar aliciar por este tipo de personalidades.

Poster oficial do filme "The Joker"

Aqui vão umas quantas observações (umas mais pertinentes que outras) sobre o Joker:

1)o é assim tão bom, taciturno, violentamente chocante ou maléfico (pelo menos para mim), o que o faz parecer é o method acting do Phoenix e como ele explora os maneirismos da personagem dentro da cena (porque é dos poucos actores de Hollywood que sabe o que está a fazer). O que arrepia, à partida, é o quão dócil é a sua voz e a maneira como fala e sorri em contraste com as suas acções. No período mais violento da personagem, esta parece estar mais em paz com o mundo porque este está a começar a ser moldado à sua imagem, o que é realmente assustador e “sedutor”. Mas não muito.

Já alguma vez leram Pedro Chagas Freitas? Isso sim é assustador. Eu nunca li e já tenho medo, agora imaginem!

2) É uma fantasia molhada anticapitalista explicada de forma muito básica para entendimento geral e não uma cena incel ou associada à alt-right como o establishment neoliberal andou a espalhar em tudo quanto é lado para os “sjw” não se sentirem representados no filme enquanto que, de facto, estão.

O Joker é um “sjw” à moda antiga: tem um ponto de vista masculino, branco e hetero, o que não teria mal nenhum se já não estivéssemos fartos de ver as coisas desse ângulo o que torna, para uma geração interessada em identity politics, uma tarefa mais difícil se identificarem com a personagem principal. O problema é o contexto actual e o quão a personagem está associada, através de memes, à comunidade incel e como a paranóia masculina branca cis com serem “injustiçados” porque alguém, pela primeira vez, pôs em causa o seu privilégio e lugar na sociedade poderia ou não despertar casos de violência ou terrorismo na estreia da serie. Tal não aconteceu: obrigado FBI ou vai-te foder FBI.

3)o está assim tão bem filmado/apresentado, podia estar um cadito melhor. Podia haver mais espaço para certas cenas respirarem. (Este é problema geral em Hollywood. Quando querem fazer isso usam o slow motion para tornar essa intenção AINDA MAIS ÓBVIA).

4) Nada me deu maior satisfação que ver 3 cocaínados de Wall Street a serem mortos a tiro num filme de Hollywood e um deles a fugir como um bebé cheio de cocó na fralda e a ser abatido como um animal selvagem ao sofrer consequências do seu abuso de poder e estatuto na sociedade e quem não ficou satisfeito é porque, se calhar, nunca sentiu o que é ser vítima deste tipo de humilhação ou porque é privilegiado o suficiente para não sentir este tipo de revolta.

Vamos ser sinceros: se eu visse alguém rico a levar um tiro, provavelmente ficaria em estado de choque, vomitava-me todo; se calhar fazia um bocadinho de xixi ou armava-me e ia à pessoa a segurar a pistola e diria “desculpe, podia parar de dar tiros nessa pessoa?Daí a necessidade de fantasia. A fantasia da justiça (que falarei mais à frente, para aí no último ponto).

5) O pessoal de Hollywood gosta tanto de chupar a própria piça que acha que este Joker não se pode cruzar com o Batman do Robert Pattinson porque este filme é “tão uma obra de arte ai jesus que ia tirar a seriedade toda”. Não. Eh pá, não. Sim. Sou daquelas pessoas que não consideram filmes de super-heróis arte a sério e não, o Joker não é “arte”. E atenção: Eu considero o BASEketball (filme de 1998, com os actores Trey Parker e Matt Stone, criadores da serie South Park) arte.

Isto não é Sergei Parajanov ou o caralho a quatro (nem Harmony Korine chega a ser). É um filme que se pode encaixar num universo de super-heróis de forma tranquila e pô-lo a contracenar com o Batman do Pattinson pode ser extraordinário. (E JÁ QUE AQUI ESTAMOS : O Pattinson, já agora, é um actor do caralho e todos os gajos que disseram mal dele na altura do Twilight só mandaram vir porque o gajo é extremamente bonito e não gostavam como ele vos fazia sentir… se calhar ele fazia-vos sentir… não sei… se calhar ele propagava um standard de beleza inatingível para a maioria dos homens? Hmmm…se houvesse todo um tipo de pessoas que conseguisse compreender essa dor…agora quem?)

O único entrave seria o Joker já ter 40 anos nos anos 80 e se, o Bruce Wayne é pirralho ainda, o Joker teria 60 anos quando andasse ao estouro com o Batman, o que é um bocado improvável…ou…Ok, Boomer?

6) Fora o acting do Phoenix, acho que a doença mental do Arthur Fleck parece uma colagem fotográfica de várias e não uma identificável e isso não ajuda ninguém a compreender melhor o que é ter doença mental, apenas romantizando-a ao tornar a coisa vaga, como uma peça de teatro de adolescentes. Quem escreveu isto estava tão ocupado a chupar a própria piça com ilusões de grandeza que justificou falta de talento com a ideia de “múltipla escolha” ou “múltiplas perspectivas” em como ver a doença do gajo. Vão pró caralho.

A maior parte das pessoas que vêem filmes tentam-se relacionar e pode ser muito perigoso propagar má informação sobre doença mental. Imaginem o que é 5 médicos atirarem 5 diagnósticos diferentes para o mesmo doente e tratá-lo consoante. Não é muito boa ideia. De certa forma é uma forma preconceituosa de tratar uma condição a que o sujeito é vítima de preconceito.

O que se sabe aqui (fora aquela doença do riso muito esquisita) é que o gajo é, activamente, uma vítima de abuso físico e emocional com uma patologia psicopata e que foi criado com uma pessoa com NPD (Narcissistic Personality Disorder). Quem tem NPD tende a ter fantasias em que é uma figura pública a ser entrevistada, mas não quer dizer que seja necessariamente um psicopata. simplesmente ele acha-se especial e acha que tem direito a certas coisas, nomeadamente ser uma figura pública. Isto está acima de um grau de exigência de uma pessoa normal (as pessoas que estão nos motins) que é: condições mínimas de vida e aqui pode entrar a discussão… vá… vamos lá, amigos…do… PRI-VI-LÉ-GI-O — BRAN-CO.

Houve um artigo qualquer do The New York Times, que eu não vou citar porque não sou um jornalista a serio nem quero parecer mas: Google + The New York Times + Joker + Whiteness e está lá. Aconselho a ler: vão revirar os olhos? Sim. Mas faz algum sentido. O que é determinativo para o despoletar da espiral da personagem é a POBREZA, ausência de um Serviço Nacional de Saúde, a desigualdade social, a crueldade inerente a essa divisão clara e o próprio preconceito e incompreensão face a doença mental.

7) O que mais me irrita é que este tipo de filmes são vendidos como “obras-primas” e, no fundo, são filmes de domingo à tarde. Isto depois vai alimentar egos dos vossos amigos do sexo masculino, brancos e heteros porque, como acham agora que têm um gosto extraordinário, podem comentar em certos assuntos ou ter mais confiança a darem opiniões de merda na puta da internet, porque se sentem especiais, porque compreenderam algo que lhes foi vendido como mais inacessível que a maioria dos outros filmes ou “outsider art” ou o caralho.

Eh pá, eu estou cansado de ouvir gajos a darem opiniões. Eu dou opiniões, sim. Mas fiquem sabendo que estou exausto de as dar. Não tenho prazer nenhum e, especialmente, já não gosto de as ouvir. Isto porque muito poucos de nós, usuários masculinos, cis, hetero, brancos, no Facebook, não acrescentamos alguma coisa à discussão. Sabem porquê? Porque somos uma seca.

O que mais me irrita é obsessão doentia de, nós homens, sermos levados a sério. Desculpem: somos demasiado aborrecidos para sermos levados a sério porque não temos nenhum experiência realmente externa ou marginal à sociedade. É como chupar a minha própria pila murcha.

Eu já vejo gajos com barba e óculos a usarem fotos de perfil em que cruzam os braços e metem a mão debaixo do queixo e olham com cara de Ricardo Araújo Pereira em modo condescendente para a câmara a fazerem raciocínios ultra-simplistas tipo “se existe extrema-esquerda, porque é que não pode existir extrema-direita?” com O TOM MAIS ARROGANTE DO MUNDO.

Sinto também que estas criaturas repetem constantemente o mesmo argumento até obterem uma resposta emocional da minha parte. Do momento que conseguem isso eu “perdi” o “debate”. Drenagem. Nada mais, nada menos.

Eu considero isto uma violação. Só que não é, literalmente, uma violação. É uma “vilação”. As In “VILAR” (c). E a esse tipo de pessoas têm que se dar o real corte. Um Corte Real (c).

8) Enquanto um gajo branco, hetero, meio gótico, de esquerda, eu gostei do Joker porque, apesar de trapalhão, acho que está do lado certo no que toca a justiça social ainda que, muitas vezes (atenção, porque isto não é muito frequente acontecer no cinema) a fantasia de justiça pode impedir a concretização da real justiça. Ou, pelo menos, a justiça com que sonhamos, na verdade, ser um pesadelo. E o que não é um pesadelo, senão um sonho tornado realidade? (Disse o Zizek uma vez com um monte de cuspe à volta).

Aquilo que têm de reter aqui: é uma revolta dos pobres e dos negligenciados. É algo um bocado punk dentro do que Hollywood permite a uma narrativa ser. Fun fact: temos imensos filmes com o mundo a ser destruído, mas não temos tantos filmes americanos sobre o fim do capitalismo ou com revoltas de classe.

Concluindo…

Para todos os efeitos, fiquei contente por mim ao deixar de glorificar este tipo de personagens e o culto em torno delas, mas a causa em si que gira em torno da classe social e acho que é o espírito com que o espectador deve ir para este filme para não se deixar seduzir pela inescapável glamorização de serial killers ao mesmo tempo que os demoniza (uma cena um bocado católica).

Depois há aquela cena do Zizek que é a cena da máscara ser aquilo que realmente somos. Então, se o Joker é um produto da sociedade, a máscara é a sociedade e o Joker é a sociedade e tipo está tudo fodido estão a ver? Que cena mindfuck, bro.

E agora podem ir masturbar macacos com leite condensado para o caralho que vos foda, seus filhos da puta.

Texto de Jonas