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#QuemPensa é Jonas: “Fuckboys For Life”

#QuemPensa é Jonas: “Fuckboys For Life”

Os artistas, especialmente músicos, são os fuckboys do mercado de trabalho:

– Toda a gente quer a tua pila porque uma quantidade gigantesca de pessoas gosta, procura e/ou precisa de pila, mas depois nunca aparentas ter maturidade o suficiente para alguém querer saber de ti ou te levar a sério fora isso.


Ok, fora esta piada tenho uma analogia melhor:

– Os músicos são, de certa forma, prostitutas e as empresas discográficas são os chulos. Começas muito jovem e, muito jovem vendes os direitos sobre o teu corpo a uma entidade que te promete protecção e projecção. Esta acaba por retirar uma maior fatia para si do lucro do teu trabalho, deixa-te em condições precárias ao mesmo tempo que espera que faças o melhor trabalho possível enquanto vive a sua vidinha de novo-rico, pois claro, ele tem mais bitches que são muito mais leais e não precisa de ti. Vacórias como tu ele arranja ao estalar os dedos.

Esta situação provoca-te stress? Podes sempre recorrer a usar a sua cocaína como refúgio. Melhor para ele. Aliás, mais motivos tens para voltar a precisar dele. E uma pessoa a precisar de droga ou dinheiro para droga, aceita qualquer coisa para a ter, certo?

Vamos lá ver que nem sempre é assim. Existem diferenças entre uma prostituta e um músico. Uma prostituta, após a sua morte por espancamento, overdose ou doença não é, objectivamente, mais útil para o chulo enquanto que o músico pode render infinitamente para a editora décadas e décadas após a sua morte enquanto a entidade possuir os direitos da obra do artista (que acabam sempre, de uma maneira ou de outra, por ter). Outra diferença é que uma trabalhadora sexual não desconta para a segurança social, dado que o trabalho não é legal. Digamos que ser um trabalhador sexual é quase uma batota na vida. Assim não vale, então? Todos nós temos pipis e pirilaus. Se andarmos todos a trocar sexo por dinheiro onde é que isto vai chegar? Tem que haver pessoas desempregadas e a morrer à fome no meio da rua para as pessoas que trabalham ou que nasceram privilegiadas terem com quem se contrastar para se sentirem bem consigo próprias e para termos quem culpar quando se instala uma crise financeira em vez de culpar quem tem realmente o poder. E, também, não é como se o teu corpo te pertencesse.

É tão batota como ser músico: então não vêm por aí músicos tão famosos e com vidas de luxo? Então os Beatles, o David Bowie e o Kanye West? Se eles chegaram a ícones culturais porque não haverias tu de chegar lá também? Se não o fazes é porque a culpa é tua. Se calhar estás a enganar-te a ti próprio ao achares que isto que tu gostas iria a algum lado. Se calhar não devias ter gasto aquelas 7h diárias sem intervalo para refeições a criar um banco de sons só com sintetizadores (em VST, porque não tens carcanhol para analógicos) e descobrires que arranjos gostarias de usar num possível projecto ou para criares o teu ID sonoro e todo aquele dinheiro em material mais os anos de aprendizagem se nem sequer sabes como te tornar num ícone cultural. Não é assim tão difícil, ora essa!

A vida é suposto ser uma espécie de Hunger Games. Estamos todos desesperados e com o instinto de sobrevivência em alerta e, ao matar-nos uns aos outros, temos perfeita certeza de que o último sobrevivente é o melhor de todos nós. O David Bowie é um exemplo disso. Se ele não tivesse morto o Lou Reed e o Iggy Pop à dentada no pescoço nos anos 70 e ter-se provado como o melhor entre os três, ele nunca nos teria encantado, anos mais tarde, na sua entrevista no programa da Ellen Degeneres e, muito pior: não teríamos uma maioria de pessoas brancas do sexo masculino como os artistas mais bem sucedidos de sempre.

É deste medo da morte, do desconforto, do pânico existencial e da necessidade egoísta de obtenção de lucro que faz um artista evoluir o seu som e não de dedicação a um bem-maior comum, sinergia e da colaboração resultante de empatia com outrem. É da promoção de uma postura semi-Juventude Hitleriana de sangue-frio, competitiva e de materialismo que falam as canções mais famosas da humanidade e não desta balela do “Amor”.

Vê se atinas, porque senão vais ser um infeliz que por cá anda sem saber o que é mais importante na vida.

Não sabes o que é? É o que eu te digo que é porque sou eu que estou a falar neste preciso momento e eu não acredito em nada, excepto em mim próprio. Se eu não acredito em nada excepto em mim próprio, tenho perfeita autoridade em dizer às pessoas o que elas devem fazer com a própria vida.

 

Não é óbvio?

 

Pronto. Mais uma coisa: Quando deres cá um concerto pões-me a mim e aos meus amigos na guest? Queríamos ver se safávamos umas gajas nessa noite. Vai ter gajas no concerto, certo? Já lançavas música nova, não? Ainda não gravaste o disco? Já saía um EP. A tua última cena foi uma merda, não curti nada. Só a ser sincero LOL. Não posso dar a minha opinião? Estás a levar-te muito a sério, tens que saber gozar contigo próprio. Então, não ias tocar a Paredes de Coura este ano? LOL, aposto que por 2.000€ não recusavas a tocar no Alive. Pois, tens muita integridade! Tu tens guito, pára de fingir que és pobre. A tua banda não quereria tocar no evento à borla? És anticapitalista mas dependes do capitalismo. LOL agora cobras milhares de cachet. És mesmo vendido.

 

Posso tirar uma foto contigo?

Texto de Jonas

Bruno Lisboa – The smoke scares away the bees