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#QuemPensa é João Ricardo: “Barbeiro de Sevilha Revisited”

#QuemPensa é João Ricardo: “Barbeiro de Sevilha Revisited”

Dançante a tesoura contornando os caracóis do cabelo, espreita tímida sob a orelha e logo a corta. Os olhos dilatados intensificam o crescente encarnado da face e, o freguês, coitado, antes mesmo de sequer conseguir retirar um agoniante e grotesco berro do interior da garganta, já se lhe trespassa nas cordas vocais a tesoura que, de tão pomposa e com mania de pincel, faz nascer entendidos traços e imensas gotas de aguarela vermelha no vidro baço

De imediato, se incumbe o gentil barbeiro de cobrir os olhos inanes do cliente com um pano. Um pano axadrezado na mão esquerda cobre e pressiona a face. A mão direita faz levitar a tesoura e prontamente a entrega opressiva ao estômago. Um gesto que se demonstra meticuloso, deliberadamente estudado. Repete-se o gesto, duas e três vezes com uma distinguível mestria tal de talhante, evitando, assim, que a obra se deturpe por abuso dos traços, dado que, a complicação, sabe-o ele, é para onde tende o Homem. Mal se terminam os derradeiros esgares do recém-defunto, e se cale a pulsação, ouve-se de novo a melopeia cintilante que acompanha o sagrado ritual – o assobio sossegado da morte, apreendido entre os firmes lábios do barbeiro. As mãos de pressão abandonadas reajustam exímias a escuridão que assola os olhos, cerrando-lhe as pálpebras.

De súbito, o vulto de um pensamento assombroso ergue-se-lhe na mente e, de modo a aniquilar essa ideia maldita, eis que, num ato demasiado humano, o barbeiro procede frenético na remoção cirúrgica de um excesso da obra sua: glóbulos oculares ao fresco, acompanhados de uma vertiginosa solução de intenso escarlate, ora não fosse, por meio de um qualquer milagroso impulso do além, um espírito superior aprazer ao pobre desafortunado a sorte terrível de contemplar a imundice e o absurdo da sua própria morte.

Olha e medita agora na obra: o sangue material deduz contornos e reivindica espaços; o reflexo do morto no vidro torna-se numa figura magistral entre os territórios imperturbados da tela. Pensa em nada por um momento. Observa a luz pesada que incide no corpo frio. Torna a pensar e medita, “nada mais é ou será que um meio, um material para oscilar na tela da frenética obra da vida. E assim bem está e é assim que é.” Retoma absorto. Pensa de novo, “é uma dádiva esta morte, aqui tenho uma natureza morta, e que bela é.”

Cup noodles – Bruno Lisboa