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#QuemOuve é RIVA thewizard

#QuemOuve é RIVA thewizard

Fazer uma playlist exige sempre que conheçamos bem os nossos gostos e influências a um nível que nos permita sintetizá-los em poucas músicas, o que não é tão fácil quanto parece. A convite da CVLTO, tentei fazer uma selecção de canções que ilustrasse não só as principais influências do meu crescimento enquanto músico, mas também algumas referências atuais que tenho recolhido para os meus trabalhos mais recentes enquanto RIVAthewizard.

A tentação de popular esta lista apenas com as principais bandas de poprock que marcaram a minha minha adolescência (Radiohead, RHCP, Queen, entre as outras que incluí) foi grande, mas achei mais importante preencher um pouco mais o espetro temporal com música mais contemporânea e relevante para a nossa entrada musical em 2020.

Pink Floyd – Echoes

Não é segredo nenhum que Pink Floyd é uma das bandas que mais influenciou a minha adolescência (tendo a capa do “The Dark Side of the Moon” tatuada no braço, torna-se até difícil esconder), mas, sem querer cair nos clichês do dad-rock, a verdade é que a maior parte do seu trabalho é uma ode ao quanto pode ser alcançado quando o mote é a simplicidade, eficácia, e, acima de tudo, o bom-gosto.

“Echoes” é uma música que, com mais de 20min de duração, me mostrou que é possível fazer a música progredir organicamente durante muito mais tempo do que os 3/4min de uma canção “normal”, e que não devemos ter medo de o fazer. A organização e construção das diferentes secções ensinou-me muito mais sobre composição do que muitas aulas de música, algo que se estende à maior parte do trabalho da banda.

Ainda hoje é impossível ficar indiferente àquela primeira nota no piano, é daquelas notas que fazem cócegas na espinha. Num muito bom sentido.

MUSE – Butterflies and Hurricanes

Outra das bandas que me mais me marcou foi MUSE, que, na altura, estava a ter sucesso com o “Black Holes and Revelations”. “Plug in Baby”, “Newborn”, e “Hysteria” eram as músicas que eu e os meus amigos nos juntávamos para tocar na guitarra, mas a “Butterflies and Hurricanes” é a que se destaca, de longe, por ter sido a que melhor me mostrou o quão bem se pode integrar Piano no universo Rock. Lembro-me de ter sido das primeiras músicas que realmente me fizeram gostar de as estudar e tocar no piano, e de me sentir estranhamente adulto ao ir buscar a partitura à net e realmente me sentar ao piano e dedicar tempo a estudá-la.

Fun fact: uma das minhas primeiras bandas foi uma banda de covers dos MUSE (e Ornatos Violeta também).

Panic! At the Disco – Nearly Witches

Achava que já tinha acabado esta playlist, mas ainda sentia que havia alguma parte de mim que ainda não tinha abordado. Entretanto apercebi-me de que não tinha incluido a banda que provavelmente mais me fez aprender que o objetivo principal de fazer música é a libertação de uma energia interna e contar uma história.

Panic! At the Disco é, para mim, uma junção perfeita de vários universos: é punk mas sem a execução arcaica e amadora, é post-punk mas sem ser demasiado depressivo, e é poprock mas sem ser oco e sem conteúdo, e tudo isto com um toque burlesco de teatro. Cada canção é um exemplo perfeito da importância do “contar uma história” na música, mas escolhi esta por ter uma produção e construção um pouco mais experimentais e diferentes (tanto que não foi incluída originalmente no álbum de que faz parte).

Daft Punk – Verdis Quo, Touch

Dispensam apresentações, e não há muito que eu possa dizer que não tenha sido já dito sobre o trabalho dos Daft Punk, mas escolhi incluir duas músicas deles por achar que cada uma delas me influenciou de forma diferente e especial.

Era impossível não conhecer a “One More Time”, ou a “Harder Better Faster Stronger”, mas quando comprei o CD do “Discovery” numa loja de discos em segunda mão, fiquei fascinado com a “Verdis Quo”, que mostra, mais uma vez, a eficácia da simplicidade e do bom-gosto na composição. A base da estrutura é apenas a repetição do motivo principal: uma melodia e harmonia super simples e eficazes, como só os franceses conseguem destilar (penso em Joe Dassin, Jean-Michel Jarre), que progride por uma orquestração deliciosa com um dos beats mais crus e belos da história da música. Divinal.

Em 2013, quando lançaram o “Random Access Memories”, voltaram a virar a indústria musical do avesso, desta vez usando instrumentos e seres humanos reais, e em nenhuma música o fizeram de forma tão irreverente como na “Touch”. A introdução é absolutamente alienígena, o “corpo” da canção é a junção de Disco, Soul, e Eletrónica, em algo que é realmente maior do que a soma das partes, e a subida final da orquestra com a quebra para a coda (outro) deixa-me arrepiado sempre que oiço.

M7 – Rainha

“Meninas, vocês ouçam bem o que a M7 diz: não é na cama, é no rap que se fode MCs.” Esta verdadeira obra-prima de 2008 é “prova viva de que o hip-hop não é para rapaz”. Lembro-me de há uns tempos estar a falar com uns amigos sobre o D’Bandada, e lembrei-me que um dos melhores concertos que lá vi foi o da Capicua, com participação da M7, e que uma amiga minha me tinha mostrado o “Martataca” quando foi lançado (mas eu ignorei). Pesquisei um bocado e fiquei surpreendido por ainda estar disponível na integra no youtube.

“Rainha” não só é uma das melhores músicas de hip hop tuga, é também um indicador de que existem, espalhadas pela história da música portuguesa, muitas outras pérolas que temos de manter vivas.

 

Linn da Quebrada – Submissa do 7º Dia

“Pajubá” foi um dos álbuns mais importantes de 2017: foi a porta internacional a abrir-se para o Brasil da mulher negra, favelada, trans não-conformista, e, para mim, foi prova do quão importante é incluirmos a nossa identidade pessoal e política no nosso trabalho. Fico triste por ainda não ter conseguido vê-la em Portugal, mas o concerto no Primavera Sound Barcelona foi uma das melhores experiências artísticas a que já tive o prazer de assistir.

A eficácia com que Linn nos transporta para a sua realidade, não só através da música, mas também da teatralidade, fez-me repensar bastante quais partes de mim transportar para RIVAthewizard, e posso garantir que, se eu não tivesse conhecido seu trabalho, RIVAthewizard seria um projeto muito mais aborrecido. Escolhi a primeira música do álbum, “Submissa do 7º Dia”, por ter sido, no concerto, o momento mais forte e imponente.

Tami T – Single Right Now 

Esta canção é uma masterclass sobre composição minimalista. Tal como a Verdis Quo, é construída sobre um motivo cíclico (neste caso, a voz) ao qual apenas são acrescentados progressivamente outros elementos, também cíclicos. Fascinou-me a progressão da voz, o quão bem construída é a progressão instrumental, e o contraste entre o universo extra-humano que nos envolve e a crudez e humanidade da poesia. Tami T é uma produtora sueca não-conformista cujo álbum “High Pitched and Moist” eu recomendo vivamente ouvir na íntegra.

Zarya – Один 800

O algoritmo funciona. Esta foi uma daquelas recomendações do Spotify impossíveis de ignorar. Ouvi pela primeira vez e senti-me logo obrigado a ir ouvir outros trabalhos da artista.

A produção é fenomenal, desconcertante, mas sempre simplista, e a junção entre os vários elementos de vários universos eletrónicos (dreampop, glitch, bubblegum bass, entre outros que dá para destilar) faz da Zarya uma das artistas que acho valer a pena acompanhar nos próximos anos. Não falo russo, mas acredito que a poesia seja tão boa quanto a sonoridade.

Texto de RIVAthewizard

Fotografias de Diana Matias e Mariana Bastos