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#QuemOuve é Peter Castro

#QuemOuve é Peter Castro

Que se chegue à frente o primeiro a nunca ter ouvido falar do Beyoncé Fest, a festa bimestral que invade o Maus Hábitos – Espaço de Intervenção Cultural e faz suar paredes, rabos, e bigodes de todo e qualquer um que não goste de espaços seguros e abertos a diferentes tipos de público e gostos musicais díspares. Por isso mesmo, convidámos o capitão da Pyrats – o colectivo e promotora colega da CVLTO na programação do querido Maus – a trazer-nos uma selecção musical para esta que é a nossa rubrica do #QuemOuve. Desta vez, chega-nos nas palavras de Peter Castro.

 

A relação da pessoa com a musica passa pelo reflexo de quem ela socialmente é.

A minha relação com a música passou por vários momentos extremamente diferentes entre eles e esse foi um caminho amplo de desconstrução de preconceitos musicais que deram lugar a uma experiência e uma compreensão puramente eclética da música. 

Hoje vejo a música como um espelho de sentimentos e emoções que variam consoante varia a vida, tenho dias musicalmente muito distintos uns dos outros e portanto a minha seleção será um reflexo disso, passando por estilos de música muito variados e o que mais me toca em cada um deles. 

PLAYLIST COMPLETA

You don’t know me – Ray Charles

Esta foi talvez a primeira música que me lembro de ouvir e decorar e até hoje tem uma importância muito especial sempre que a ouço.  Acho que o jazz e o soul têm um efeito intemporal; há uma relação especial entre a voz e a melodia que é algo inexplicável, mas real. Claro que haveria centenas de músicas que poderia aqui pôr para o exemplificar, mas escolho esta não por ser a melhor – de longe – mas simplesmente por ser a que pessoalmente mais me diz. 

Get right – Jennifer Lopez

Esta musica é uma versão da Ride do Usher que a J-Lo reeinventou tão bem. Para mim é das músicas mais marcantes de uma altura em que a MTV passava Happy Tree Friends depois das 23. Aí nasceu, mas para mim será sempre atual e vai sempre ser uma música pop de encaixe universal, este beat é histórico seja na versão original ou nesta e todas as vezes que a ouço nunca perde a frescura inicial – uma das coisas mais difíceis de uma música manter. 

Painkiller – Judas Priest 

Quando descobri o Rock e o Metal houve um breakthrough na minha vida. Quando nos dispomos a olhar para o rock e para o metal com uma compreensão sem tabus conseguimos desbloquear muitas experiências musicais para as quais ninguém nos preparou e sem dúvida que a parte da minha adolescência que passei no STOP e de sala de ensaio em sala de ensaio a ouvir metal; amador, experimental e outros, foram um contributo extremamente importante para a minha vida. Esta é uma das minhas musicas favoritas do género, a par de Slayer, Iron Maiden, ou Machine Head, Judas Priest foi uma das bandas que mais me marcou e é das poucas que ainda ouço regularmente. Painkiller é libertadora mas tem uma vibe melódica, suja mas certa, impossível de descrever sem ouvir, alargou os meus horizontes e sou apaixonado por esta música. Sempre que a ouço sou mais. 

Barracuda – Heart 

Acho que se tivesse contado quantos dias esta música me salvou chegaria aos milhares. Heart é uma das minhas bandas favoritas. Não sei se é da minha veia cowboy ou da minha veia white trash, mas sem dúvida que Barracuda é uma faixa que acompanha a minha vida inteira, a estrutura desta musica é absolutamente genial bem como a relação dos instrumentos entre si, os vocais. Sou muito vidrado neste som, é sem dúvida um dos que ponho em repeat.

Breathe – Prodigy 

Fun fact: The Prodigy é a minha banda favorita de sempre e para sempre, sou completamente obcecado por eles. Conheci-os a parti da banda sonora dos anjos de Charlie quando era apenas uma criança, e desde aí vivi muito com a vibe que me deram; foi a partir de Prodigy que explorei e ouvi mais metal, mais rock e mais música eletrónica. Honestamente, não consigo escolher uma música favorita deles, mas consigo eleger a “Breathe” como provavelmente a mais icónica de todas e a primeira que  ouvi. Prodigy são um desrespeito a todas as convenções musicais. Nunca quiseram ser rock, nem ser eletrónica, nem ser punk, nem quiseram nunca ser nada. São Prodigy. Não houve um género que os definisse, então tonaram-se eles próprios um género. Toda a gente jura que são Big Beat, mas para mim Big Beat foi apenas e só uma maneira parola de agrupar artistas e sonoridades inagrupáveis. São e provavelmente serão a banda por quem mais apaixonado sou. 

Bucky done gun – M.I.A 

Novamente, não sou capaz de escolher uma musica da M.I.A – para mim, uma das maiores artistas contemporâneas do século. E não só ao nível musical; a M.I.A é um génio artístico que só terá o devido reconhecimento no futuro como uma das maiores criadores e impulsionadoras de movimentos culturais e musicais que vemos hoje em dia. 

Escolhi esta musica em especial porque foi produzida pelo Diplo e tem uma sample da Injeção da Deize tigrona que por sua vez tem uma sample do tema do filme Rocky. É uma matrioska de influências muito interessante e produzida pelo Diplo – alguém que mudou incontestavelmente o panorama musical mundial. Por isso, talvez esta musica seja para mim o apanhado de 3 coisas muito importantes para a música, a M.I.A, o Diplo e a compreensão do funk carioca como uma batida internacional e extremamente viciante e dançante. 

Como nossos pais – Elis Regina

Nada me traz a paz que a voz da Elis me traz. A minha mãe ouvia muito MPB então cresci a ouvi-lo e ele cresceu também dentro de mim. A Elis era uma alma que veio ao mundo para fazer isto. Tinha uma voz que estarreceu um país inteiro. Não existe uma profundidade tão grande numa voz para mim como existe nesta. Aquele clichê do “cantar com sentimento” é literalmente a Elis Regina. 

Esta música, escolhi-a pela mensagem extremamente intemporal e actual. É uma música que fala de como a juventude é sonegada da construção da juventude e da mágoa muito profunda de vermos que as forças conservadoras conseguem sempre reprimir novas consciências e maneiras de vêr o mundo e que:  “apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais”.

Simon says – Pharoahe Monch 

Indiscutivelmente a minha musica de Hip Hop favorita de sempre. É a beat mais histórica numa das músicas mais icónicas de sempre. Simon Says é o hino do Hip Hop, representa uma era específica do hip hop, mas tem estrutura para ser intemporal e sobreviver intacta aos tempos. 

É extremamente difícil uma música ser “boa” sozinha e não porque está dentro da trend musical do seu tempo. Ou porque bate em e brilha só num certo ângulo. Esta é um exemplo brilhante disso, uma música que existe sem tempo ou prazo de validade apesar de ter sido feita na estrutura de um tempo musical específico. 

Apeshit – The Carters 

Obviamente não poderia deixar a Beyoncé fora desta lista, por razões óbvias para quem lhe presta um tributo com o Beyoncé Fest. A Beyoncé é uma artista que é, pura e simplesmente. E não é só aquele Soul de “cantar em pé e ouvir sentado”. E também não é só Pop de ouvir e substituir no mês seguinte. Escolhi esta musica porque também gosto muito de trap, acho uma sonoridade inacreditável e contemporânea. Quando esta música foi lançada achei muito refrescante que um dos pioneiros do Hip Hop que eu adoro – Jay-Z – (também um dos meus rappers favoritos) tenha produzido com a Beyoncé aquilo que é literalmente um tesouro internacional adorado e respeitado por quase todos. Especialmente sendo um single que poderia perfeitamente ser dos Migos – cujo um dos elementos participa também na faixa. 

Isto é um statement sobre uma série de coisas. Sobre o Jay-Z, sobre a Beyoncé e sobre o trap. O quão adaptáveis são e como isso os manteve sempre na proa do cenário do hip hop e do pop musical sem grande esforço. Eles não o fazem por força da editora porque são bem maiores que qualquer editora, eles fazem-no sem esforço. A Beyoncé tem também uma rima inacreditável neste single. 

Don’t think – Chemical Brothers

Chemical Brothers são – a par de Justice – aquilo que mais gosto na música eletrónica. Para mim, a música eletrónica vive da organização das beats. Eles fazem isso com uma mestria quase obcessivo-compulsiva e nessa organização sumária eles conseguem ter o ruído e a dirt que para mim a musica eletrónica precisa. Esta música tem uma construção épica e escolho-a sem qualquer dúvida como a música dentro do estilo que pessoalmente mais gosto.

Divino maravilhoso – Gal Costa 

Esta playlist foi pensada para 10 temas, mas aqui fica a música “bonus. Tem sido a música da minha quarentena e a que mais força me dá perante esta tragédia e pensando também em tantas outras dificuldades profundas que a civilização ultrapassou e em tantas provações. Esta música tem algo de pré e pós apocalíptico ao mesmo tempo. A letra e a energia de toda esta brilhante composição musical é uma espécie de energia extra para ecoar nas paredes de casa num pôr do sol, aconselho-a especialmente a quem mais esteja a desesperar nos tempos que correm. 

Texto por Peter Castro