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#QuemOuve é Duarte Fortuna

#QuemOuve é Duarte Fortuna

Acho que desde que me lembro de ser, de estar nas plenas capacidades ouvir, ver e sentir, estive sempre com a música presente. Parece um pouco egocêntrico ou até mesmo pretensioso dizê-lo. Mas recordo-me sempre de ser pequeno e ouvir os discos do meu pai na potente aparelhagem Technics cá de casa. Jazz, música clássica até à música do mundo e bandas que todos os pais ouviam como Supertramp, Pink Floyd, Kraftwerk.

Cresci em Setúbal, uma cidade industrial. Na adolescência, comecei a vasculhar feiras e a aproveitar certas oportunidades em casa de familiares e amigos para lhes comprar discos que para eles não tinham valor e para mim tinham bastante. Comecei também a querer “passar som”, a querer mostrar o que ouvia, já se saía à noite, e em Setúbal tenho de fazer referência ao falecido Liquid que me mostrou grandes faixas de musica electronica, desde o jungle ao acid, de Detroit à Escócia, que surgem sempre em festas de amigos (e ao Taifa onde continuamos a parar).

Comecei então a passar músicas em festas, jantar com amigos, de forma sorrateira, muitos diziam “tira lá isso e mete aquela que isso é só barulho!” (hoje perguntam-me qual era a música que eu passei em x noite). 

Só mais recentemente cheguei à rádio (uma rádio estudantil académica mas uma rádio). A Rádio Zero, no Instituto Superior Técnico permite-me mostrar as minhas experiências e descobertas. Tento e tenho em mente a projeção de músicos e compositores portugueses, não tirando também os nomes fortes lá de fora. Porque cá dentro também se faz muito com pouco e merece divulgação. A rádio Zero e o Fusões, o programa onde eu comando o barco, são isso: crate diggin de jazz e musica electronica nacional e internacional. Do menos ao mais conhecido. Uma hora de pura imersão.

PLAYLIST COMPLETA


Shabaka Hutchings – No Gangster

Ser o primeiro é sempre difícil. Menos quando és Shabaka Hutchings. Um dos melhores saxofonistas contemporâneos, pertence a projectos como Comet is Coming ou Shabaka and The Ancestor, não esquecendo Sons of Kemet, um concerto que me marcou em 2017 em Barcelos. No Gangster mostra o melhor do saxofonista dos Barbados acompanhado na voz por Kojey Radical. Um pouco de jazz diferente do conceito que ouvimos normalmente.

 

Moodymann – Come 2 Me

Para quem gosta de música electrónica de Detroit, Moodymann é obrigatório e é pecado não falar deste pai do Detroit techno e house que revolucionou a maneira de produzir música. Para mim essencial conhecer Moodymann assim como será impreterivelmente necessário conhecer outros nomes de Detroit que mudaram a cena “techno” como o Larry Heard, o Theo Parrish, ou Hieroglyphic Being nome adotado por Jamal Moss, também um patrão a mexer na massa. Fica o rastilho solto para mais audições.

 

DJ NIGGAFOX – Hwwambo

Decidi escolher DJ NIGGAFOX de entre os muitos DJs da Príncipe Discos. Já ouço desde os anos de secundário por causa de um amigo meu que me abriu os ouvidos para esta música feita fora da chamada Grande Lisboa. Música do subúrbio para o mundo com uma qualidade tremenda que traz o afrohouse e a comunidade africana em Lisboa. A qualidade e o que muito se ouve na noite de Lisboa passa por aqui e chega até lá fora até porque o Rogério editou pela Warp e tem tido imenso sucesso na caminhada dele carregando a sua origem para batidas elevadas. Ouçam o mais recente “Cartas na Manga”.

 

Manu Dibango – Big Blow 

Esta é uma escolha que se poderá dizer mais uma homenagem. Manu Dibango, camaronês de 86 morreu vítima da pandemia que nos assola. A sua música trazia as suas raízes e inspirou várias gerações de músicos jazz. World music no seu melhor. É um até já a um gentil gigante do jazz.

 

Samo DJ – Leggo

Eu conheci Samo DJ através de um amigo que passa música e que agora se encontra fora. Big respect para o DJ Khabal que me mostrou e mostra grandes faixas. Esta tem uma característica que foi preponderante quando escolhi, o facto de ter voice over a falar de Antonio Carlos Jobim e da vida nas praias de Copacabana a juntar a um trabalho de sampling perfeito.  Sueco que edita pela LIES RECORDS que tem na sua squadra o grande Ron Morelli.

 

Pedro Sousa & Gabriel Ferrandini – Side A

Costumo sempre falar destes dois virtuosos do free jazz de Lisboa sempre que tenho oportunidade em conversas. Aqui em casa ouve-se muito. Escolhi o Side A do Má Arte, gravado pelo Sarnadas e masterizado pelo Rafael Silver, por ser um exemplo perfeito do que se ouve num concerto em que Ferrandini ou Pedro Sousa actuam. Free Jazz puro, sem muita merda, penetrante até ao ultimo sopro e ultimo toque da baqueta na bateria.

 

Not Waving – 24 

Deixo sempre as músicas de “digestão mais difícil” para o fim. Talvez por capricho. Not Waving é o projecto do italiano Alessio Nataliza, descobri por curiosidade algures entre 2015 e 2016 e desde então costumo sempre voltar a ouvi-lo. Tem como bases a música avant-garde mais electrónica, new wave mais underground e post-punk. Assinou pela editora do Powell, que em 2017 vinha actuar em Barcelos mas não se chegou a ver por lá. 

 

Powell – Club Music (Ancient Methods)

Apesar da relação amor-ódio que nutro pelo Oscar Powell acabo sempre por recomendar esta faixa a todos os que querem ouvir música electrónica forte e com características também por si só fortes. Um misto de Berlim com UK rave.

 

Lake Haze – Dog Walking In The Park

Gosto sempre de fazer referência a Lake Haze por ser uma das minhas referências na música electrónica e por ser dos primeiros DJs, produtor que tive oportunidade de ouvir. Esta música que escolhi faz parte do último disco Glitching Dreams, onde desmonta sonoridades como as de Aphex Twin, Autechre ou até Boards of Canada mas com características próprias do produtor e DJ Gonçalo Salgado que já trabalhos vários a merecer para mim destaque o Intergalactic Communicationz EP.

 

Rahsaan Roland Kirk – Volunteered Slavery

Parece inglório ser o último a ser escolhido mas neste caso não tanto. Escolhi Rahsaan Roland Kirk por ser dos meus saxofonistas preferidos de sempre, fora dos grandes monstro do mundo do jazz. Cego conseguiu desde cedo a proeza de tocar mais do que um saxofone e se virem o concerto que deu em Montreux em 1968, um animal de palco como muitos outros do meio em que estava envolvido.

homem sentado a olhar a câmara

Texto de Duarte Fortuna