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#QuemOuve é Ana Garcia de Mascarenhas

#QuemOuve é Ana Garcia de Mascarenhas

Os meus anos no Conservatório Regional de Setúbal nunca me serviram substancialmente para nada. O meu piano não está no Porto comigo, nunca cheguei a formar uma banda por falta de tempo, e parte das minhas capacidades ao nível da Formação Musical e de Canto foram desaparecendo, por falta de prática e demasiados cigarros. Contudo, desenvolvi um vício pela construção obsessivo-compulsiva de playlists em plataformas como o Youtube e o Spotify.

Em jeito melodramático e apropriadíssimo ao momento actual, deixo-vos a minha playlist de composições em Piano, seguidas da minha recomendação de pianista.

Nocturnes: Nocturnes são composições clássicas contemplativas e inspiradas pela noite e melancolia. Muitas vezes escritas em modo menor.

Adagios: Composição clássica de andamento lento. Entre 66 e 76 BMPs.

Nota: Para um efeito ainda mais dramático devem abrir uma garrafa de tinto e sentar-se numa poltrona de orelhas. A luz deve estar “à Rembrandt”. Ou como numa cena pesada de um filme de máfia. Usem a referência que quiserem.

 

PLAYLIST COMPLETA

 

1 – Frédéric Chopin – Nocturne in C Sharp Minor
(tocado pela Brigitte Engerer)

Não há nada mais adequado para inaugurar uma playlist destas do que o rei do drama; Frédéric Chopin.

(Voltaremos a Chopin uma série de vezes ma is à frente porque qualquer uma das composições deste gajo poderia caber aqui. E para ouvir Chopin, temos a maravilhosa Maria João Pires. Para quase duas horas de Nocturnes de Chopin pelos dedos da MJ cliquem aqui. Há um chato de merda a tossir, mas vale a pena.)

 

2 – Joseph Maurice Ravel – Miroirs iii ou “Une barque sur l’ocean”

(tocado por Vitaly Pisarenko)

Esta é sem dúvida uma das músicas mais bonitas que já ouvi. Este gajo era um punk. Nunca se adaptou bem ao academismo e à instituição. Da mesma escola que o Debussy. 

 

3 – Franz Schubert – Fantasie in F Minor

(tocado por Maria João Pires e Julien Libeer)

 

4 – Pyotr Ilyich Tchaikovsky – Romanze Op. 5 

(tocado por Viktoria Postnikova)

É o Tchaikovsky. 

 

5 – Frédéric Chopin – Nocturne in C sharp minor op. 27 no. 1

(tocado por Arthur Rubinstein)

Chopin outra vez.
Reza a lenda que a música de Chopin é extremamente triste por culpa do romance nunca se ter consumado com o Franz Lizst. Não aguento mais drama em Março de 2020. 

 

6 – Franz Lizst – Consolation No.3, S.172 

(tocado por Valentina Lisitsa)

Eh, eh, eh.

O Lizst escreveu seis nocturnes intituladas The Consolations. A nº3 é a minha preferida. Não há palavras.

 

7 – Franz Liszt – Liebestraum No.3 in A-Flat ou “Love Dream”

(tocado por Van Cliburn)

 

8 – Vasily Kalinnikov – Nocturne in F Minor

(tocado por Vladimir Leyetchkiss)

Não sei muito sobre o Kalinnikov. Mas há uns anos cruzei-me com esta peça e adicionei-o à minha biblioteca de música clássica russa. Chamemos-lhe “Russo Dramático número 2” nesta playlist.

 

9 – Claude Debussy – Claire de Lune 

O clássico dos clássicos. Sou incapaz de tecer comentários sobre esta.

 

10 – Gustav Mahler – Symphony nr. 5 Adagietto

(tocado por Paul Barton Feurich)

 

11 – Erik Satie – Gnossiennes 1, 2 e 3

(tocado por João Paulo Santos)

O Erik Satie vem da mesma escola que o Chopin e o Debussy. Nas palavras de 

Lorena Carrasco: “(…) Satie ha sido comprendido como un compositor diferente, genial y único, principalmente por la manera innovadora que tuvo para enfrentar su creación musical, pero al mismo tiempo se ha intentando comprenderlo desde un enfoque tradicional, tomando como referencia los principios y valores musicales vinculados con la estética clásico-romántica germánica. El hecho es que Erik Satie no suscribe a esas categorías tradicionales, debido a que su propuesta artístico-musical se escapa a todo molde, canon o pensamiento musical que se funde en esa estética tradicional.(…)” (CARRASCO, p.99, 2019)

 

12 – Sergei Rachmaninov – The Isle of the Dead Op. 29 

(tocado por Zdeňka Kolářová e Martin Hršel)

Russo Dramático número 3.

 

13 – Alexander Scriabin – Poème-Nocturne Op. 61

(tocado por Sviatoslav Richter)

Russo Dramático número 4. Extremamente influenciado por Chopin.

 

14 – Claude Debussy – Rêverie, L.68
(tocado por Francois Joel Thiollier)

 

15 – Muzio Clementi – Piano Sonata op.50 no.3 “Didone abbandonata” 2º andamento

(tocado por Igor Cognolato)

Clementi terá sido um dos pianistas que mais estudei no conservatório. Está longe de ser um dos meus preferidos, mas é-me próximo por esta razão.

 

16 – Igor Stravinsky – The Firebird

(tocado por Francesco Piemontesi)

Como é óbvio nesta lista, o meu gosto pessoal naquilo que a música clássica diz respeito tende para peças mais lentas. No entanto, “The Firebird”(1910) de Stravinsky é das composições mais arrebatadoras que conheço. Foi composta originalmente para o Ballets Russes “The Firebird”, popularizando a lenda da criatura pagã “Firebird”, oriunda do folclore eslavo. Tem três movimentos: “Danse Infernale” – pensem nesta como o Speed Metal da época; “Berceuse” – geralmente o 2º movimento de uma composição clássica tende a ser também o mais lento, é o caso; e “Finale” – na minha opinião esta última parte é o mais espectacular exemplo da complexidade e brilhantismo de Stravinsky. 

Esta composição é originalmente feita para orquestra, e nesse sentido esta que é uma análise excelente pelo maestro Gerard Schwarz.

 

17 – John Field – Nocturne No. 10 in E minor, H 46

(por Elizabeth Joy Roe)

John Field é tido como o precursor do conceito de “Nocturne”.

 

18 – Frédéric Chopin – Nocturne op.9 No.2 

(há milhares de interpretações fantásticas desta Nocturne, mas destaco a de Sergei Rachmaninoff e Dinu Lipatti)

Chopin outra vez.

 

19 – Cécile Chaminade – Op.127 ou “Dans la lande”

(por Mark Viner)

Primeira compositora mulher reconhecida em França. Extremamente amarfanhada por ser mulher. O costume.

 

20 – Carl Czerny – Nocturne, Op.647
(por Isabelle Oehmichen)

Aluno de Beethoven. Um dos compositores mais relevantes no ensino de piano actualmente. Tal como Clementi, foi um dos compositores que mais estudei. 

 

21 – Lili Boulanger – Prélude en Ré
(por Moisès Fernández Via)

Compositora francesa, irmã da famosa Nadia Boulanger.

22 – Pyotr Ilyich Tchaikovsky – Nutcracker “Pas de deux” 

(por Luke Faulkner)

Arranjo de M. Pletnev para piano solo de “Pas de deus” da peça “Quebra-Nozes”.

 

23 – Ludwig Van Beethoven – Piano Sonata No.14 ou “Moonlight Sonata”

(por Andrea Romano)

Deixo-vos o querido Beethoven para terminar. A secção de comentários desta faixa no Youtube por alguma razão está imune ao algoritmo. O que significa que os comentários estão ordenados pela ordem em que são postados. Vão dar uma olhada. Não há nada que espelhe melhor o que o acesso à expressão pode ajudar em tempos de crise. 

 

Respeitem normas de segurança para o bem de todos. Fiquem em casa. Sejam responsáveis.

William Turner – Fishermen at Sea, 1796

Texto de Ana Garcia de Mascarenhas