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#QUEMÉ Maria Mendes

#QUEMÉ Maria Mendes

A primeira vez que a CVLTO se cruzou com a Maria Mendes foi aquando do primeiro Pérola is Burning, pelo dedinho do grande amigo André Forte. Entre luzes, cigarros e alguns berros ao ouvido, o André mostrou-nos o trabalho artístico da Maria no Instagram, que viria a ser convidada pela CVLTO em Outubro a concretizar o Teaser da Filha da CVLTO de 28 de Dezembro de 2019, e uma instalação vídeo que esteve presente nesse mesmo dia no Maus Hábitos – Espaço de Intervenção Cultural do Porto.

Aqui vos deixamos em formato de entrevista aquela que foi uma tarde de conversa, de empatia feminina e de sororidade.


CVLTO: Fala-nos um pouco do teu percurso académico e profissional. 

Maria Mendes: Durante a minha vida eu fiz maioritariamente escolhas erradas que me levaram ao sítio certo. Eu estudei cinema, mas sendo que gosto muito de edição, efeitos especiais e 3D, teria feito sentido escolher logo à partida ir estudar edição. Mas não, decidi ir para Som. Som e Realização, que são duas coisas em que eu na verdade sou só a maior naba a fazer (risos).

Quando acabei Som na faculdade em Lisboa não gostei muito do ensino. Isso fez-me querer sair do país, na altura em que a crise económica estava a “bater”. Era super difícil arranjar trabalho… Acabei por ir para Berlim, gostei imenso, e a minha intenção lá era voltar a estudar Comunicação Audiovisual na Escola das Artes de Berlim. Quando lá cheguei queria fazer o melhor portfólio possível porque pensei que fosse extremamente difícil entrar e acabei por passar um ano a fazer só trabalhos meios merdosos. Durante esse processo percebi que estava muito mais interessada em Edição, Fotografia, e comecei a aprender tudo sozinha. Coisa que em Portugal eu era muito mais dependente dos meus amigos.

Se precisava de ajuda com alguma coisa perguntava, em vez de ir investigar. Se de repente estás numa cidade onde não conheces ninguém, vais ter de aprender a ser subsistente a nível técnico. Quando comecei a trabalhar em AfterEffects rapidamente me apercebi que muitas das imagens que eu tinha na cabeça podiam ser criadas em 3D. Quando tiras uma foto à partida é a realidade, mesmo contando com edição digital. Eu queria conseguir ir para além da realidade. Foi aí que percebi que a arte digital é incrível por isso. Se souberes suficientemente a técnica e a tecnologia, consegues criar seja o que for que esteja na tua cabeça.

Depois de conseguir entrar na Faculdade das Artes de Berlim acabei por não gostar nada, e desisti depois de um ano. Comecei a trabalhar full time como editora de vídeo, e de repente o AfterEffects também já não me chegava. Depois de consultar alguns trabalhos de outros artistas e uma série enorme de tutoriais de Youtube, instalei o Cinema4D. E a coisa funcionou.

CVLTO: Actualmente trabalhas nesta área? 

Maria Mendes: Tenho muito mais facilidade agora, do que quando era só editora de vídeo. Comecei a trabalhar em 3D não como um complemento que me facilitasse arranjar trabalho, mas como uma forma pessoal de aplicar a minha criatividade. Eventualmente um amigo convidou-me para fazer o vídeo de um projecto, e o trabalho começou a surgir. Neste momento as coisas têm vindo ter comigo. E fez-me pensar que quando fazes aquilo que gostas de fazer e que estás realmente investida em fazer, é quando as pessoas gostam do teu trabalho e daquilo que estás a produzir.

CVLTO: Porque é que voltaste de Berlim?

Maria Mendes: A fase mais divertida para mim em Berlim foi quando a minha vida estava super instável. Os primeiros dois anos. O portfólio, o trabalhar em bares, o babysitting… Acabava por ser divertido. E estava a colaborar com uma série de artistas, fazíamos projectos juntos. De repente consegui aquilo que eu queria: ter um trabalho estável. E aí deixou de ser divertido. Claro que me sabia bem não ter de andar a contar os tustos para pagar a renda, não é… Mas era um bocado “e agora?”. Essa foi uma das razões. Depois há as razões óbvias; saudades da minha família, saudades do sol… E tive que tomar uma opção. Ou ficava em Berlim, estável, com um trabalho fixo, investia realmente numa vida ali e tornava tudo legal – que na altura a minha situação estava ainda a meio gás com as burocracias alemãs – ou ia tentar outra coisa.

 

CVLTO: E até agora?

Maria Mendes: Bom, sai de Berlim e voltei para o Porto. O que foi um processo meio estranho porque eu já tinha vivido no Porto, dos 14 aos 17 anos mas todos os meus amigos estavam em Lisboa. Acabei por me focar em trabalhar remotamente para o escritório ainda em Berlim, a partir de casa e isso acabou por também potenciar o meu trabalho pessoal. Esses oito meses em que praticamente não saí de casa acabaram por fazer com que o meu trabalho desse um salto gigante que em Berlim não ia dar porque estava demasiado confortável com a minha situação de vida e parei de fazer coisas que realmente gostava de fazer. Também foi bom para mim depois de parar de trabalhar remotamente para Berlim ter ficado desconfortável outra vez. Tive de arranjar novas formas de fazer dinheiro e de trabalhar.

 

 

CVLTO: Porque é que decidiste deixar o meio urbano e ir para o Douro?

Maria Mendes: Depois do Porto, eu voltei a ir viver para Lisboa. Tirei um curso profissional de 3D, para consolidar algumas das coisas que tinha aprendido sozinha. Foi um ano complicado porque estava também a trabalhar na mesma escola para pagar o curso, ainda estava a trabalhar num bar em part-time, e a fazer trabalhos como Freelancer. Não é que estivesse a fazer imenso dinheiro. E o custo de vida era absolutamente ridículo em comparação com o que eu trabalhava e ganhava. Foi nessa altura que comecei a pensar que se aquilo que queria mesmo fazer era só ser Freelancer a tempo inteiro. Para isso é preciso tempo, é preciso aperfeiçoar capacidades e melhorar a parte artística. E para mim não faz sentido continuar a estar numa cidade em que o tempo que eu tenho de passar a trabalhar para ganhar um certo dinheiro, que nem me dá assim tanto conforto, é tempo que eu posso estar a trabalhar nas minha merdas.

Foi esquecer a cidade. Esquecer as distrações também. Porque a verdade é que se estás no centro da cidade, em casa, a trabalhar, e um amigo te liga a perguntar se queres ir beber uma cerveja, claro que vais beber uma cerveja. Essas distracções acabam por prejudicar o trabalho. E percebi que se conseguia subsistir só com o meu trabalho de Freelancer, preferia ir para o campo, baixar o meu próprio custo de vida, e estar sossegada. E desde que o fiz comecei a ter muito mais trabalho. Porque consegui passar muito mais tempo em frente ao meu computador, muito mais tempo a fotografar, muito mais tempo a desenvolver ideias. E a minha semana é algo como: de segunda a quarta-feira se calhar vou trabalhar sem parar, e se calhar quinta até saio e vou para os copos. Mas aqueles três dias foram mesmo passados num modo de concentração máximo. E dá-me muito mais satisfação a nível profissional. E mental, também. 

 

CVLTO: Há muita gente na nossa faixa etária que está a optar por esse estilo de vida. Chega-se a este ponto em que o custo de vida é tão alto nos centros urbanos que passas a subsistir…

Maria Mendes: E não a existir.

 

CVLTO: Portanto, estás contente com a tua decisão.

Maria Mendes: Tens de ter um certo tipo de personalidade para isto, a verdade é essa. Se estás numa fase em que queres desenvolver o teu trabalho e esse é o foco máximo, sim. Sem dúvida. Queres que o teu trabalho absorva a tua vida? Sim. Vai para um sitio remoto. Mas que pelo menos possas apanhar um comboio (risos), para também não ficares maluquinha. Também nada é definitivo… Podes fazer isso durante algum tempo, e isso tranformar-se numa serie de benefícios mais à frente. Ir para o campo de uma forma idílica traz coisas – que eu gosto – como estares em casa aborrecida, situação que se estivesses numa grande cidade se resolvia facilmente, e não teres grande coisa para fazer. E isso também é um desafio. Eu comecei a ler muito mais, por exemplo. Comecei a fazer coisas como sentar-me no terraço a olhar para as estrelas. Antes considerava isso quase como uma perda de tempo. Não é que seja uma bullshit “espiritual”. É só ok tirar esse tempo. Vale a pena.

 

CVLTO: Há muita gente dentro do campo artístico a ir para Berlim nos últimos anos. Porque é que achas que isso está a acontecer?

Maria Mendes: Ir para Berlim é uma decisão que deve ser tomada com muito cuidado. Há estúdios incríveis em Berlim, e eu tive a sorte de colaborar com um deles. Ironicamente quando já estava no campo, e não em Berlim! (risos) São muito bons, estão muito à frente ao nível tecnológico e conceptual. Mas as pessoas têm que perceber que são cem mil cães a um osso. E Berlim não tem assim tanto espaço quanto isso… Há muitas pessoas que vão para lá e estão ok com trabalhar de borla. Querem fazer portfólio. Ou têm dinheiro, e querem simplesmente estar lá.

Portanto, se eu aconselharia alguém a ir para Berlim para trabalhar em Multimédia? Sim. Mas fazer contactos antes de ir para lá. Há demasiada gente. E fala-se muito em Berlim, mas acho que a cidade mais forte nisto ainda é Londres. O custo de vida em Berlim não é barato, mas é atractivo porque é mais barato do que Londres. Acho que há uma idealização em relação a esta cidade que pode ser perigosa. 

 

CVLTO: Será que uma dessas componentes atractivas em Berlim não estará ligada à tão falada vida boémia?

Maria Mendes: Sim. Aconteceu comigo. E acho que acontece a maior parte da malta jovem que se desloca para Berlim, e que pensa que vai atrás de um ideal de: “Vou estar envolvido neste scene enorme das artes plásticas e vou produzir imenso, e vou fazer e acontecer…” E de repente estás num bar, passado cinco ou seis meses, às quatro da manhã a falar sobre o que queres fazer, mas que não estás a fazer, e devias estar a fazer. E consegues estar nesse ciclo durante anos. Por isso é que disse antes que é bom ir com algum tipo de contactos prévios. Há os que fazem. E há os que querem fazer. E tens de perceber em que ciclo e círculo é que queres estar. É fácil falar de fazer coisas. É difícil é fazê-las. E é tudo muito aceite, é uma cidade de aceitação. Mas o nível competitivo também é enorme. 

 

CVLTO: Há quem compare o Porto a Berlim. Achas que essa comparação tem fundamento?

Maria Mendes: O Porto é uma cidade extremamente artística. Quando voltei, a minha ideia era ir directamente para Lisboa porque o Porto transmitia-me uma “vibe” muito mais próxima à de Berlim, do que Lisboa, que era também onde estavam todos os meus amigos… Há qualquer coisa, há. Mas o Porto é uma cidade muito mais escura do que maior parte das cidades da Europa. Também é muito mais pequeno do que Lisboa, por isso a comunidade artística também está muito mais concentrada. Mas acho que o Porto é de longe muito mais acolhedor… Quando vim de Berlim estive sem Internet em casa durante algum tempo, e fui a um café para trabalhar. E o simples facto da senhora ser super prestável e simpática deu-me vontade chorar… Como assim, não estás a ser bruta comigo?! (risos) Esqueci-me de que as pessoas podem ser simpáticas! 

 

CVLTO: Quando nos encontrámos pela primeira vez para conversarmos sobre aquele que viria a ser o teaser da Filha da Cvlto, acabámos por falar de uma situação de assédio pela qual passaste ainda em Berlim. Poderias falar-me um pouco melhor disto?

Maria Mendes: Sim.

 

CVLTO: Se te for confortável falar disto, obviamente. 

Maria Mendes: Não só é confortável, como acho que é relevante. Quando comecei a trabalhar nessa empresa aconteceram várias coisas que na minha inocência – ainda por cima fazendo aquele raciocínio idiota do “estou num país mais civilizado”, portanto estas coisas não acontecem – achei que não eram nada. Após começar a trabalhar no departamento de Media Production em Edição e em filmagens em Green Screen, conheci o meu manager, o Peter (nome fictício), que era incrível. Ao contrário do meu chefe, de quem eu não gostei desde o início. Ele claramente não me achou muita piada porque eu sou péssima em entrevistas de trabalho, mas o Peter fez força para que eu ficasse, e acabei por ficar, mas à responsabilidade dele.

Comecei por reorganizar ficheiros, o estúdio, sempre com o Peter. Tudo bem. Até começar a trabalhar directamente com o meu chefe. E ele começou a ser no mínimo “creepy”. Fazia de tudo para estar sozinho comigo, mandava bocas estranhas, por vezes sobre a roupa que eu vestia. Começou a tornar-se mesmo desconfortável. Eventualmente, eu e o Peter fomos filmar um evento fora da empresa e o meu chefe no final do trabalho decidiu oferecer-nos o jantar. Jantar no qual me tentou embebedar e me assediou de uma maneira horrorosa. Eu estava com um vestido, e ele começou por me dizer coisas como: “Vens para a empresa com essas roupas e depois não queres que eu olhe para ti de certa forma.”, e coisas piores. Durante toda esta situação o Peter deu-me a mão por baixo da mesa, e disse-lhe: “Eu e a Maria vamos embora. Agora.”. Não obstante de estarmos a cinquenta quilómetros do centro de Berlim. Conseguiu arranjar-nos um táxi e eu só agradeci por ele ali estar, porque eu bloqueei. Não estava sequer a conseguir processar o que se estava a passar.

Na segunda-feira seguinte tive de o encarar no trabalho. Sendo ele o chefe da empresa, decidi ir aos Recursos Humanos e fazer uma queixa por assédio sexual. E a resposta que obtive foi que isto é uma situação normal, que isto acontece recorrentemente, que sabem que é desconfortável, mas que se eu tentasse fazer uma queixa a sério a única pessoa que ia perder era eu. Que ia perder o meu trabalho. O que é estupidamente injusto e ridículo. Eu não fiz nada de mal. Porque é que eu é que vou perder o meu trabalho?

O que aconteceu foi que ele doravante não poderia estar sozinho comigo na mesma sala. O que acabou por inevitavelmente recair sobre o Peter, que para além de todas as outras responsabilidades, ainda se via também na responsabilidade de lidar com isto. Passaram sete meses nisto, em que eu, obstinada, não me resignei a perder o meu trabalho. Mas sei que este indivíduo nunca terá consequências pelo comportamento que tem porque tem demasiadas conexões com pessoas importantes. São assim que estas merdas se processam.

 

CVLTO: Qual é a tua opinião sobre a forma como muitos homens lidam com mulheres em contexto de trabalho, nomeadamente dentro de empresas?

Maria Mendes: Péssima. Por exemplo: numa das contratações que tivemos de fazer para um cargo de assistente de estúdio, o Peter pediu-me que mostrasse o estúdio ao novo assistente, homem, que não ouviu nada do que eu disse, embora trabalhasse ali há imenso tempo. Que enquanto eu lhe mostrava as coisas, me estava a tentar ensinar, a mim, a fazer o meu trabalho. Ouve lá… Tu não estás aqui para me ensinar nada… Eu estou aqui para te mostrar o teu novo local de trabalho, e qual é o teu papel. Eu sei muito bem o que estou a fazer.

Honestamente, este tipo de relações condescendentes em local de trabalho foi uma das razões que me fez não querer trabalhar directamente com pessoas. Eu adoro ser Freelancer porque trabalho com pessoas que nunca me vêem. Neste momento estou a fazer dois vídeos para um gajo em São Francisco, outro que nem percebi muito bem de onde é que ele é, um espanhol, um que está em Berlim… Não sabem quem eu sou. Escolheram-me única e exclusivamente pelo trabalho que eu faço. Não há estas relações de poder. Que são muito típicas do mundo corporativo. Se não me vêem, não me objectificam. E isso torna a minha vida muito mais fácil. Em todos os trabalhos que fiz, teve de existir um gajo que me veio tentar dizer que sabe mais do que eu. Nessa empresa em que aconteceu a situação de assédio, depois de muito tempo a trabalhar lá, entrou um rapaz que passou automaticamente a ganhar muito mais do que eu. E a culpa não era dele! Nós chegámos a falar sobre o assunto. Ele também se revoltou imenso. Mas a questão mantém-se: Porque é que eu estou a ganhar menos?! Ok, primeiro: Parem de me tentar ensinar coisas. Se eu precisar de ajuda peço. Segundo: Ganhar menos? 

O trabalhar como Freelancer ajudou-me imenso nisto. Não me põe constantemente em questão. Só o não ter de lidar com estes dramas todos… A minha vida tornou-se muito mais simples. No campo não tenho de lidar com nada disto. 

 

CVLTO: Gostarias de dar algum conselho sobre este tipo de questões a quem nos esteja a ler?

Maria Mendes: Uma coisa muito importante nisto: Nunca culpabilizar os teus colegas homens. Porque acredita que muitas vezes é tão fácil ficar revoltada… Quando este meu colega começou a ganhar mais do que eu a minha reacção instintiva foi: “Opá, vai para o caralho…”. Mas a culpa não é dele. É bom falar com os colegas de trabalho sobre isto. Perceber se estão cientes de que isto é injusto e que podem até ajudar. É muito fácil criar um ódio em relação à masculinidade em geral. E isso não é bom.

Outra coisa: Não ter medo de sentir certas coisas. Quando o meu chefe me começou a assediar o meu primeiro raciocínio foi: “Não, se calhar não é isso…”. MAS eu sabia. Deep down eu sabia que ele estava a fazer aquilo. Mas não queria ver. Achei que estava a exagerar. E quando sentes que algo está errado é porque provavelmente está. E há meios para fazer queixa. Não abandones só a empresa ou o projecto ou o local de trabalho. Porque a culpa não é tua. 

 

Texto: Ana Garcia de Mascarenhas