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#ComoFoi Mr. Mojo e Plastic Woods

#ComoFoi Mr. Mojo e Plastic Woods

Os nossos amigos da ABSA (As Below So Above) têm vindo a habituar-nos a concertos com duos estrondosos. Da última feita, tivemos os portuenses Greengo e os ingleses Slabdragger. Neste princípio de Primavera, trouxeram-nos os bracarenses Mr. Mojo e os andaluzes Plastic Woods. Que bons casórios que a ABSA faz.

A noite no Barracuda arranca com o stoner rock de Mr. Mojo.

Curioso é pensar que no Verão de 2015 pode esta vossa repórter ver o alvor desta banda num bar bracarense, e logo na altura pensou

“esta malta vai crescer e dar que falar”.

O som de Mr Mojo amadureceu e muito ao longo destes quase quatro anos. Se na altura o que apresentaram ao público do Rockstar era um doom nojento, assim com cheirinho a Dopethrone, o que trouxeram ao Barracuda na passada segunda-feira era mais técnico e muito mais jingão, sem perder a visceralidade.

A voz de Brito faz lembrar a de Kirk Windstein, dos familiares Crowbar.

Ainda que o feeling geral de Mr. Mojo esteja longe do de Crowbar, estes jovens bracarenses não têm medo de meter um pézinho em vários géneros, conseguindo fazê-los funcionar sem perderem a identidade.

O público observa-se entre ombros que meneiam, em músicas mais psicadélicas e espaciais, ou cabeças que se sacodem violentamente, quando vão ao doom e ao punk rock. Perto do final do concerto, quando tocam “Dope” e “Undercover Cops”, vê-se bem o sítio de onde vêm.

É mais sujo e menos funky, mais rápido. “Undercover Cops” é bem punk, assim divertido à moda antiga, tipo punk de 77 com mais distorção.

Por um momento, saímos do Barracuda e fomos parar ao CBGB.

 

Mas saímos do CBGB e fomos parar aos 600 acres de Max Yasgur na cidade de Bethel, no estado de Nova Iorque. Ou melhor, fomos parar aos três dias de 1969 que ficaram eternizados na memória popular como o Festival de Woodstock.

Os andaluzes Plastic Woods denunciavam o psy-rock bem à anos 70 pela calça de boca-de-sino.

O vocalista, de cabelo comprido e sorriso simpático, dominava a guitarra com a mesma mestria com que controlava a voz. A oscilar entre um registo limpo e efeminado, que faz lembrar a adorada Elin Larsson de Blues Pills, e uma sonoridade mais gritty e mais visceral, fez-se ouvir uma troca de comentários:

“E a goela do jovem?”

“Foda-se!”

Deu direito a uma pausa técnica enquanto o vocalista procurava alguma coisa “importante” no backstage. As opiniões dividiam-se: será uma harmónica? Serão lantejoulas para as calças?

Mentira. Era uma flauta transversal.

Vão das baladas atmosféricas, e para se dançar assim bem amarradinho, ao universo de Led Zeppelin aos riffs mais pesados e lentos à la Black Sabbath, com uma química em cima de palco que é difícil encontrar.

Que bom ver uma banda em que os membros realmente interagem entre si, onde se vê autêntica cumplicidade.

Jesús, o vocalista, explica que o álbum que estão a apresentar é algo conceptual, dedicado aos refugiados e “aos que perderam as suas casas”. Por isso tocam “Song for the Pariah”, com uma abordagem bastante mais rock e menos psicadélica. E os cabelos sacodem-se alegremente na plateia.

É claro que os Plastic Woods sabem bem quem têm diante, e dedicam uma música à quase totalidade do público: “this one is for those of you who are stoned”. E há aplausos e assobios.

Lentos, claro.

Após esta dedicatória, o som que apresentam é mais experimental, mais de viagem, com uma linha de baixo bastante rígida a segurar toda a viagem. Ainda que a dada altura até a pogo tenha dado direito, ou não estivesse o público cheio de galegos.

Uma noite de segunda-feira inusitada, bem ao estilo do que a ABSA nos tem oferecido. Dizia Mansour Anne, da organização, “quando as bandas sabem tocar os instrumentos, até corre bem”.

Fomos lá ver #ComoFoi, e temos de concordar com Mansour.

 

Texto: Zita Moura
Fotografias: Ana Garcia de Mascarenhas