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#ComoFoi a Metal Fiesta

#ComoFoi a Metal Fiesta

O primeiro evento by drunks for drunks foi de um caos absoluto. Eis um recontar em primeira pessoa um tanto ou quanto toldado por álcool e metal.


Nota da Editora: Em consonância com o que a Drunk on Drugs costuma fazer, esta reportagem (ou coisa parecida) será escrita na primeira pessoa e sem pretensões jornalísticas. De antemão, um pedido de desculpas, porque isto vai aparvalhar muito e muito rápido.

 

Digamos as coisas como elas são: cheguei atrasada porque não achei que a coisa fosse começar a horas. Diz que me enganei. E foi por bafo de Baco e de sorte que ainda cheguei a tempo de ver Ruína no Metalpoint, a convite dos cromos da Drunk on Drugs.

Sidenote: vocalista de metal descalço? Esta foi nova até p’ra mim.

Em minha defesa, foi por culpa daquele frustradinho do Hugh Dick. Os colegas dele já me disseram múltiplas vezes que não posso levar a sério o que ele diz. Então não levei. Mas no fundo no fundo acho que ele não queria que eu e a Ana chegássemos a horas porque ele se intimida e não queria ficar com o nervoso miudinho.

Mas bardamerda, porque aquela última música de Ruína que ouvi e fotografei foi mesmo boa. Já conheço o vocalista Daniel Dantas de vidas anteriores, e já lhe conhecia alguns talentos, nomeadamente nas artes digitais, mas nunca imaginei que o gajo tivesse aquela goela.

O Metalpoint estava à pinha para a Metal Fiesta.

Foi o primeiro evento organizado pela Drunk on Drugs (by drunks for drunks, diziam eles), e verdade seja dita: não foi nada medíocre. Antes pelo contrário. Foram quatro bandas as que compunham o cartaz – Ruína, Jarda, Burney Relief e Dallian -, e todas elas extremamente diferentes entre si. Funcionou, e não de forma demasiadamente desengonçada.

Logo a seguir à bilheteira, estavam os nossos amigos da Magma Wear, com o seu merchandise lindo e os seus sorrisões simpáticos, sempre acompanhados pelo ursinho Angry and Hateful, da DoD. E subindo as escadas, cheira a amaciador de cabelo e suor.

Logo à esquerda estão o Partyboy e o Flamazinger, encarregues dos shots de edição limitada, com duas mesas de plástico da Super Bock a servirem-lhes de balcão e uma caixa de plástico de qualquer merda dos leprosos a servir-lhes de caixa.

“Isto tem bué álcool.”
“Não estou a perceber.”
“Isto tem bué álcool!”
“Não estou a perceber.”
“ISTO TEM BU-… ok, já percebi.”

Para a Metal Fiesta eles conceberam shots adequados a cada uma das quatro bandas que ia tocar. Bebi o Jarda e o Burney Relief. O Jarda fez-me querer morrer, mas já lá vamos.

E havia uma taça de vidro cheia até cima de coisas viscosas e profundamente alcoólicas.

Noutra nota, tenho que gabar a capacidade da malta do metal de estar num espaço como o Metalpoint a moshar e fazer headbang e windmill, e mesmo assim manterem os cabelos soltos e bonitos e lustrosos. Quinze minutos depois de entrar já me estava a coçar toda por um elástico para apanhar este ninho de ratos numa coisa parecida com um rabo-de-cavalo, que já estava a suar do cangote que nem é bom.

Interlúdio para cigarros e cerveja nas escadas do Stop, e voltamos para dentro do Metalpoint para ver Jarda. Está o parvo do Hugh Dick em cima do palco. Não é para ver este cromo que me deram entrada, mas pronto.

Não sei quem eram estes sorridentes indivíduos, mas pediram uma foto e perguntaram onde ia ser publicado. Aqui está. Disfrutem.
Ele pergunta à malta se estamos prontos para ouvir thrash, e para dar de dentes no chão. E assegura que se não houver crânios na tijoleira, então os Jarda perdem o direito ao nome.

Parece-me a mim que Jarda é o equivalente de partygrind no thrash metal. A Ana disse que são punk death metal. Acho que ambas as tentativas de definição são razoavelmente verosímeis. Tocam rápido, têm momentos jingões e riffs divertidos, mas também têm muito do mau feitio do thrash.

Jardanation, dizem eles.

Sobem quatro shots de Jarda ao palco, pelas hábeis mãos dos rapazes da DoD. Gritam “E O PREÇO DESTA MONTRA FINAL ÉÉÉÉ…” e zasca, goela abaixo. O público entoa esse cântico tribal com eles.

Podemos aproveitar a deixa para falar desses diabólicos shots de Jarda. O que eram, então?
Bagaço. Bagaço com uma rodela de limão em cima.
Só. Assim. Tal e qual.
E eu que detesto bagaço.
E bebi ao engano. Quis morrer.
Sexy boys de Jarda, digam lá a verdade.

 

De regresso aos Jarda e após os meus breves desejos de morte. Normalmente a ideia de ver uma banda de metal não me anima particularmente. Há um vírus de “bora-lá-caralho-metal” nas fileiras do metal português. Mas os Jarda, por serem jovens e javardos e cheios de pica, mas sem renunciarem a tocar metal de qualidade, conseguem de facto mobilizar um público sem se tornarem entediantes e “epah-outra-vez-arroz?”.

É thrash, sim, fiel ao género, sim, mas não é mais do mesmo. E prova disso foi a cover de Toxic Holocaust que fizeram.

Este power trio vem duma cena que funde o mais pantanoso do doom ao mais melódico do sludge.

Depois da thrashalhada de Jarda, que foi certamente o ponto alto da noite, sobem os barcelenses Burney Relief.

O Hugh Dick apresentou-os, como fez com Jarda e provavelmente com Ruína, mas o que aquele gajo diz é tão pouco memorável que optei por reservar esse espaço na minha memória alcoolizada para me lembrar do concerto e não da sua mais-ou-menos-medíocre apresentação.

Este power trio vem duma cena que funde o mais pantanoso do doom ao mais melódico do sludge. Assim, tal e qual. As passagens mais espaciais que pontualmente se ouvem não reduzem ao peso da coisa. Não é slow, low and evil, como normalmente gosto no sludge, mas é gostoso mesmo assim.

O cabrão do Hugh Dick sempre com este ar “unimpressed”.

Acho que o que o mais aprecio neles é que seja perceptível a escola punk de onde vêm, mas terem sido capazes de incorporar essas influências num género que tradicionalmente não adopta a velocidade e as sonoridades punk. E ainda assim as músicas são longas, e complexas, e abrangem um espectro bem largo de sonoridades.

Estes rapazes já andam a fazer estrada há uns anos, e já tive oportunidade de os fotografar nalgumas instâncias, mas este concerto no Metalpoint, talvez por toda a envolvência foi talvez o mais maléfico – sem ser malvado.

Até a moshpit e crowdsurf deu direito.

Nisto, é hora dos shots de Burney Relief. Perguntei aos gajos da DoD o que é que levavam, não obstante um painelzinho descritivo mesmo ao lado das bebidas.

A noite já ia longa, e a cerveja desce rápido, deslarguem-me.

Já não me lembro. Lembro-me que era doce. A sensação do shot de Burney Relief foi em muito parecida ao concerto deles.

“Cum caralho, isto é bom!”

Já a noite ia longa e a carroça pesada, há que confessar, quando sobem os Dallian ao palco do Metalpoint para encerrarem esta Metal Fiesta. Um final em épico. Foram muitos géneros muito diferentes a coexistirem naquele palco, e funcionaram bem entre si. O público que ficou até às últimas foi prova disso.

Assim à primeira vez há um par de coisas que saltam logo: três guitarristas (todos eles com guitarras de sete cordas), todos muito bem vestidos (upa upa para os coletes e as camisas vitorianas) e todos umas carinhas larocas.

Que querem que vos diga, nunca deixei de ter um fraquinho por cabelos compridos. DESLARGUEM-ME, JÁ DISSE.

Dallian é, então, uma experiência sonora curiosa.

Ao primeiro impacto parece ser black metal, mas limpando a cabeça do torpor do álcool, ouvem-se as samples de orquestras de cordas por trás, e uma organização sonora que não é pauta do black metal. É um death metal bem rápido, bem visceral, mas que vai buscar elementos sinfónicos sem se apoiar exclusivamente neles.

Outra vez o gajo a invadir-me as imagens, pá, da próxima apanhas um estalo.
Dallian tem uma estética – visual e sonora – muito própria.

Cada um dos três guitarristas tem uma loop station diante – de seis canais, disseram-me, só posso depositar fé e acreditar – o que lhes permitia uma imensa flexibilidade nas construções em camada que iam fazendo. Sem se tornar demasiado overwhelming, ou caótico.

Ainda assim… Um baixo, malta, era só isso, só um baixo. Até podia ser um baixo freak de cinco cordas para manter a tendência. Mas o ataque de uma, ou duas, ou três guitarras, não consegue completar a lacuna de um baixo sonante, tipo trovão.

Não obstante, Dallian tem uma estética – visual e sonora – muito própria. As camisas vitorianas, e os coletes, e as botas, e as vozes sonantes, encaixam perfeitamente entre si e com a brutalidade do metal que tocam. Escrevem na sua página de Facebook que tinham por objectivo conseguir fazer funcionar death metal com melodias mais sinfónicas e a estética steampunk, que é ainda um nicho muito reduzido neste nosso Portugal.

Estes cavalheiros – cavalheiros, estes sim – criaram Dallian em 2017 e já contam com um álbum lançado, que é todo ele de proporções épicas.

Tinha qualquer coisa de pirata, qualquer coisa de vitoriano, qualquer coisa do inferno. E é bom.

 

Foi difícil que a malta debandasse do Stop.

Pela nossa parte, só arredamos pé já perto das cinco da manhã, e só depois de termos arrumado com as restantes criaturas viscosas que estavam na mesa da Drunk on Drugs  e ainda demos a alcunha de “Toxic Waste” à gosma verde no fundo dessa taça. Que adequado.

 

Texto e fotografias: Zita Moura