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#OndeEstá a Magma Wear

#OndeEstá a Magma Wear

A Magma Wear é uma marca de street wear portuense nascida no início de 2019, com especial foco e atenção à cena underground em que se move. A CVLTO foi descobrir a magma que se faz lava.


A Magma nasce no início de 2019 pela mão de Teresa Madalena, Hugo Mateus e João
Bastos. Estiveram presentes na última Filha da CVLTO e para além de uma banca de roupa repleta de ilustrações tão fantásticas quanto pouco convencionais, ainda houve espaço para uma pequena photoshoot feita pelo querido Miguel da Evoke Collective.

Entretanto a CVLTO encontrou-se com parte da equipa da Magma, agora sem copos no bucho, sem malta aos berros no microfone e máquinas de tatuar à mistura, para uma conversa mais profunda sobre o surgimento desta marca.

Miguel Martins, Evoke Collective.
“Blasfémia é agora dogma, heresia e poesia.”

CVLTO: Fomos procurar a definição de “magma”, e parece que magma é uma massa mineral vulcânica. Li o vosso manifesto e achei imensa piada a isto: “Blasfémia é agora dogma, heresia e poesia.”. Quem é que escreveu isto?

Hugo: Ora quem escreveu isto foi o Diogo Bastos, irmão de um dos nossos membros, o João Bastos. Nós tínhamos algumas ideias daquilo que queríamos para o nosso manifesto, mas não somos versados no que toca a literatura… E ele é um gajo que tem imensas capacidades nesse campo e percebia perfeitamente o nosso conceito.

Teresa: É magma quando está dentro da terra, é lava quando está cá fora. Nós sentíamos um desejo enorme de fazer arte, mas arte como nós queríamos, da maneira que nós queríamos. E têm vindo a surgir, alguns ao mesmo tempo que nós, malta como o Daniel Dantas – que rapidamente se está a tornar um supra-sumo artístico – o Luís Pinto, ou o Diogo Soares… Imensos artistas com tanto potencial, e nós queríamos fazer parte disto mas à nossa maneira. Eu sempre quis t-shirts que eu gostasse de usar mas que não fossem o típico merch de banda, e estas t-shirts funcionam como mais do que isso, são também um statement artístico. És capaz ou não és de usar uma t-shirt com uma orgia em público? Nós fizemos a prova. E claramente as pessoas são capazes. E querem, e em geral está toda a gente bem com isso. Já tivemos algumas queixas (risos), a respeito de promovermos satanismo. Mal lançámos a marca…

Hugo: O comentário foi meio em tom de piada, mas ainda assim. Não deve haver medo de “usar imagens erradas”, é nisto que assenta a Magma.

CVLTO: Ambos vocês têm um background académico na área artística, a Teresa em cinema, o Hugo em design de comunicação. Já tinham trabalhado juntos antes?

Hugo: Sim, estivemos juntos numa fanzine intitulada Ponta do Corno, que foi um projecto que infelizmente tinha asas curtas e não durou muito tempo. Era um projecto ligado a cartoon político e de crítica social.

Miguel Martins, Evoke Collective.
“A ilustração da orgia, para mim quando olho para aquilo eu penso só e apenas num bando de miúdas a curtir.”

CVLTO: Esta componente política e de crítica social também é uma coisa que vos interessa explorar enquanto Magma?

Hugo: Sim. Já houve até uma conversa em que se falou de uma Magma Mag, em que se poderia pensar em reestruturar a Ponta do Corno, mas isso será uma coisa a ser pensada muito mais para a frente. Neste momento é melhor não inventar muito…

Teresa: Tudo o que nós fazemos acaba sempre por ter uma componente política adjacente… Por exemplo; a ilustração da orgia, para mim quando olho para aquilo eu penso só e apenas num bando de miúdas a curtir. Pura liberdade sexual, e o prazer que a mulher pode ter.

CVLTO: Como se articula a vossa parte artística? És sempre tu que fazes os desenhos?

Teresa: No que toca ao desenho, sim. A parte de tipografia e de enquadramentos é tudo feito pelo Hugo, bem como os cartoons e os stickers.

Hugo: Nós no fundo dividimos igualmente o trabalho relativo às t-shirts. Há uma primeira fase de produção que parte pela mão da Teresa, em que ela faz a ilustração e eu adapto por sua vez essa ilustração no que toca à tipografia e enquadramento para que possa ser impressa.

Teresa: Trabalhamos com a Antiprysm, que é a marca que executa as nossas serigrafias. Eximiamente. Não acho que exista ninguém no Porto que execute este trabalho com esta qualidade. Até porque muitas das nossas t-shirts dependem de dois quadros serigráficos e é muito complicado alinhá-los na perfeição.

CVLTO: De onde surgiu esta ideia de uma marca de roupa?

Hugo: Olha, isto surgiu depois de uma noite de copos… E de facto é assim que começam todas as boas ideias, não é? (risos) Foi no Woodstock 69 a assistir a um concerto. Um amigo nosso tinha uma t-shirt com uma frase estilo “You can only trust yourself and the first 6 albums of Black Sabbath”, e estava toda a gente a bater mal com aquilo, nós inclusive. E eu comentei algo como “A t-shirt de facto está incrível, mas isto em termos de design não tem nada de especial”. Uma tipografia simples, uma t-shirt amarela lisa… “E se juntássemos os meus conhecimentos em tipografia e as tuas ilustrações?” “Podíamos fazer qualquer coisa interessante…”. Acabámos por desenvolver isto até chegarmos a uma coisa completamente diferente e ainda foram 8 meses a projectar a marca.

Teresa: Primeiro que tivéssemos uma ideia do que é que queríamos chamar à marca…

Hugo: E que conceito? E que objectivo?

Teresa: Olha, foram precisas mais umas noites de copos! E “Magma” faz todo o sentido. Principalmente com o meu trabalho, que acaba por surgir sempre no seguimento de uma erupção vulcânica artística em que me apetece desenhar de repente.

Miguel Martins, Evoke Collective.
“É engraçado que parece que quanto menos espaços existem propícios ao movimento underground, mais este cresce. Há mais investimento em bandas novas.”

CVLTO: E entretanto foi lançada no início de Fevereiro de 2019?

Hugo: Sim. Não era bem o que queríamos, era suposto ter saído no primeiro dia do ano, mas atrasou…

CVLTO: Sendo tu de cinema, como raio foste parar ao desenho clássico, Teresa?

Teresa: Eu sempre estudei desenho clássico porque os meus pais são pintores, a minha mãe veio de Belas Artes e o meu pai de Arquitectura e sempre estive muito exposta a arte clássica. Eles sempre foram os meus maiores críticos e sempre me impulsionaram a desenhar. Eu entrei em cinema porque gostava de animação, no entanto a meu ver é impossível cá em Portugal seguir essa área. Não saberia por onde começar, e também fui chegando à conclusão que se calhar não era isso que eu queria fazer mesmo, interessa-me muito mais o desenho e a ilustração relacionada com música e com o underground. Também não me dou propriamente bem com o mundo das Belas Artes e das galerias, passei a minha infância nesse ambiente e não é aí que me sinto bem.

CVLTO: Então a ideia de seguir um caminho académico em Belas Artes ficou logo por terra à partida?

Teresa: Não de todo, ainda gostaria de estudar nas Belas Artes mas quero lidar com o curso de uma forma em que eu o possa utilizar um dia utilmente, e não que Belas Artes me utilize a mim.

CVLTO: Há pouco vocês falaram do surgimento recente de projectos no âmbito artístico, e a CVLTO também tem vindo a reparar nesse crescendo de iniciativas não só ligadas às artes plásticas mas também na música extrema e alternativa. Há algum lado negativo nisso, para vocês?

Teresa: A saturação do mercado. Porque tens artistas a receberem 50€ para fazerem uma capa de um álbum e é óbvio que o trabalho está completamente desvalorizado. É um bocado absurdo. No entanto, acho que isto está a começar a mudar, as bandas apostam cada vez mais na imagem e no artwork. Aproveito para agradecer ao Luís Pinto porque foi uma pessoa que me ajudou imenso, mesmo ao nível de conseguir estipular orçamentos, saber apresentar ideias… E lá está, é um gajo que aprendeu sozinho, começou a fazer o que faz sem estar à espera não sei de quê.

Hugo: E há coisas novas musicalmente. É engraçado que parece que quanto menos espaços existem propícios ao movimento underground, mais este cresce. Há mais investimento em bandas novas.

“nós queremos fazer parte desta onda de criação artística, queremos trabalhar para estes músicos”

CVLTO: É a velha história da acção que gera reacção.

Teresa: Sim! Quando o pessoal começa a perder as coisas e os espaços começam a ir à
vida… Agora a malta vai mais a concertos. Consequentemente as poucas venues que existem conseguem ter condições financeiras para trazer bandas maiores, consequentemente outros espaços abrem, e consequentemente as bandas vão-se inspirando umas nas outras a produzir música nova. E nós queremos fazer parte desta onda de criação artística, queremos trabalhar para estes músicos.

Hugo: E há um sem número de excelentes bandas por aí que se calhar nunca tiveram
oportunidade de investir na parte da imagem, se calhar nem nunca pensaram nisso. E isso acaba por tirar seriedade à banda… E apesar de tudo às vezes não basta só ser, também se tem de “parecer” um bocadinho. E a banda pode ter a mesma qualidade que tem na imagem que tem na música. E apesar daquilo que temos estado a dizer, acho que o nosso trabalho não se prende a um género, acho que somos bastante versáteis. Adaptamo-nos a cada encomenda.

CVLTO: Ultimamente observa-se cada vez mais este fenómeno de apropriação na Pop e “derivados” de uma imagética intrínseca ao Metal, Rock, Punk e ao underground/música extrema em geral. Qual é a vossa opinião sobre essa apropriação?

Teresa: Como a Miley Cyrus a usar uma t-shirt de Iron Maiden?

CVLTO: Sim, mas não só nesse sentido tão literal. Falo de artistas como o Ghostemane por exemplo. Até que ponto é que isto é falso? Ou até que ponto é que isto é demonstrativo de uma geração que consegue reflectir no que produz artisticamente uma série de influências diferentes e misturar tudo?

Teresa: É um pouco de ambos… Esta geração ainda terá sido das últimas a crescer com aquela coisa das tribos no secundário, em que tens os metaleiros, tens os emos, os betos… E sim, esta estética agora está muito na moda, como o grunge já teve na moda há dois ou três anos, era a camisolinha de flanela e tal…

Mas é como tudo, é uma evolução natural do estilo.

Não se pode dizer que Metallica seja underground, portanto quase que faz sentido que qualquer pessoa possa usar uma t-shirt de Metallica. E as pessoas também não se devem sentir inseguras em comprar este tipo de roupa na Pull and Bear ou na H&M. Quanto única e exclusivamente ao sentido estético acho que é natural que eventualmente se fosse pegar em algo que é mais “outsider” ou mais “edgy”. E eu percebo totalmente, porque estamos numa era em que toda a gente quer ser diferente.

Mas as pessoas devem poder usar o que querem, mesmo que seja só pelo sentido estético.

Hugo: Até é mais vantajoso para nós, não é?

Teresa: E isto não é novo, isto sempre aconteceu… A malta com t-shirts de Ramones ou de Pantera ou de Sex Pistols e que não fazem ideia do que carago são ou representam essas bandas. Mas as pessoas devem poder usar o que querem, mesmo que seja só pelo sentido estético. Não me parece que deva ser obrigatório gostares imenso. Se calhar é super poser da minha parte dizer isto. Que se lixe. Eu faço as t-shirts que gostava de ver à venda e de usar, é essa a minha perspectiva. Os nossos amigos e quem as compra acho que pensam da mesma maneira.

Hugo: Acho que o nosso público alvo está de acordo com aquilo que nós estamos a fazer. Estamos a tentar procurar uma forma de recriar esta cultura e esta imagem de uma forma inovadora. Sem a repetir, sem apropriações e sem utilizar designs anteriores… Há muitas marcas por aí que pegam em designs anterior e refazem-nos, e isso é uma coisa da qual nos queremos afastar ao máximo. Claro que somos capazes de fazer uma referência, aliás um dos nossos trabalhos foi uma referência a uma música de uma banda chamada Midnight. Mas visualmente não tem nada a ver com a imagem deles.

E isto para nós e muito importante porque vivemos actualmente no paraíso dos designers e ilustradores do “piggyback” em trabalhos de gajos muito melhores e muito maiores e se calhar com anos de experiência e cujo trabalho é constantemente apropriado.

E depois tens um gajo qualquer a vender t-shirts a 15 euros de uma ilustração de um designer que a desenvolveu há 30 anos e às tantas pouco ou nada recebeu por aquilo. Isto para mim não faz sentido.

Teresa: Quanto à popularização deste estilo ligado aos “metaleiros” ou aos “punks”, acho que é perfeitamente natural. As pessoas querem sentir que não pertencem, que não fazem parte das massas, apesar de no fundo sermos todos parte das massas porque é impossível fugir completamente a isso. Não acho que isto seja uma coisa má. Eu própria quando passo na rua vestida “full on metal” já não me sinto uma otária. Lembro-me de ser miúda e vestir-me de uma maneira muito diferente e o pessoal olhava, gozava, achava que eu era uma drogada, e isso já não acontece hoje. O que é óptimo. Acho que muitos de nós usamos este estilo como uma armadura e o Metal para muita gente é uma armadura e um refúgio. E começar a destruir um bocadinho essa armadura não é de todo uma coisa má, só cria mais espaço para criar e para conversar.

uma parte que nós estamos a tentar garantir é que as bandas percebam que os nossos preços são acessíveis e que nós queremos potenciar o crescimento das bandas

CVLTO: Ambições para o futuro?

Hugo: Até tenho pena que não esteja cá o nosso terceiro membro, o João, porque já criámos um plano juntos para o futuro. Podemos dizer que o nosso objectivo actualmente é criar uma plataforma online para que mais pessoas possam adquirir os nossos produtos.

Teresa: Gostávamos de conseguir expandir a Magma para Espanha. Há muito Metal scene em Espanha, quem sabe depois Inglaterra… Já chegámos à Madeira! Mas mais importante do que vender, é dar a conhecer o nosso trabalho. É divertido fazer isto, e já temos vindo a conhecer gente incrível à pala deste trabalho.

Hugo: E se há uma parte que nós estamos a tentar garantir é que as bandas percebam que os nossos preços são acessíveis e que nós queremos potenciar o crescimento das bandas, e se pudermos ajudar com a imagem, tanto melhor.

Teresa: Já não dá para ignorar isso. A competição é enorme. Basta abrir o Instagram.

CVLTO: Como é que vocês lidam com este “ou matas ou morres” das redes sociais?

Hugo: Em relação a likes e a partilhas, nós nunca fomos muito preocupados com isso. Até devíamos ser muito mais. Nós queremos ser mais (risos). E queremos ser mais activos. Mas a verdade é que somos todos meios nabos nesta área… Até já considerámos um novo membro para a Magma só para isso porque somos todos muito pouco competentes no que toca a redes sociais. Mas tentamos. Trabalhamos muito com o Instagram, principalmente porque é onde está a nossa base de vendas, mas não temos tanta atenção como deveríamos nos dias que correm.

Teresa: Temos sempre cuidado com a estética do feed, com a forma como apresentamos as coisas, com que esteja tudo organizado. Não está uma salganhada. Isso para nós é importante, até porque de momento é o nosso catálogo e convém que seja uma coisa clean. Acho que neste momento o Instagram é a rede social mais activa, principalmente para a nossa geração. E para artistas é a melhor plataforma que há de momento, por uma questão de personalização do perfil, valoriza a imagem, não há uma “poluição” de informação adicional como no Facebook por exemplo… E porque toda a gente está no Instagram. Toda a gente. E até termos um website é com o que vamos trabalhar. Confesso que não tenho é paciência para estar a fazer instaDirects nas festas e coisas desse género, até porque sou baixinha (risos).

CVLTO: Será que ao mesmo tempo que o Instagram permite espaço para a exposição artística e privilegia a imagem, acaba por excluir determinados tipos de estética que não encaixam nos módulos do Instagram?

Hugo: “Não há boa nem má publicidade, há publicidade”.

Teresa: No nosso caso, por exemplo, nós não fazemos questão nenhuma de nos “elevarmos” ao ponto de termos modelos nas shoots. Não quero nada disso, quero pessoas reais e regulares porque são essas as pessoas que vão usar as nossas t-shirts, não são os modelos profissionais.

Hugo: Nem temos orçamento para isso e está fora de questão ir pedir seja a quem for para estar a trabalhar de borla…

Teresa: Sim, isso também. E queremos evitar problemas que até a nós nos acontecem com marcas até dentro do nosso universo mais “dark” como a Killstar por exemplo… As modelos são efectivamente modelos e aquilo está feito para te agradar visualmente. Mas na verdade existem pessoas altas, existem pessoas magras, existem pessoas baixas, existem pessoas mais largas… E na Magma espera-se que as pessoas vejam realmente o produto que estão a comprar e não sejam enganadas com a forma como aquilo vai vestir no corpo. Não há edição de formas, há apenas edição de luz e de cor. Isso para mim é muito importante.

 

Texto e entrevista: Ana Garcia de Mascarenhas
Imagens: Miguel Martins, Evoke Collective