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#QuemOuve é Luísa Cativo

#QuemOuve é Luísa Cativo

Comecei esta saga sem intenção de me tornar DJ, numa em que nem sequer sabia que isso era uma ocupação e que pessoas eram pagas para escolher música em espaços.  Certo dia, uma colega do curso de Design de Moda – que não o queria fazer sozinha – convidou-me a escolher umas músicas com ela num bar na sua cidade natal. Em 2006 ou 2007. Inicialmente, éramos mais viradas para o rock, indie, electroclash, e toda essa nuvem de música que deve ter visto o seu pico de popularidade por volta dessa altura. Uns anos mais tarde começamos a tocar em vários sítios do Porto até que surgiu a GRRRL RIOT no Plano B e pudemos estrear-nos nesse espaço.

Entretanto comecei a passar outros tipos de música com outra amiga em 2011, em que explorávamos mais sonoridades de Hip-Hop e R’n’B que povoavam a MTV no início dos 2000’s e que marcaram a nossa adolescência, assim como outro tipo de sonoridades mais recentes dentro do mesmo registo. Podiam ir desde Hudson Mohawke a N*E*R*D, Missy Elliot, M.I.A. entre outros artistas igualmente marcantes da cultura pop dessa altura. A reação que obtivemos do público a estes sets – principalmente na GRRRL RIOT – acabou por inspirar também o que viria a ser a festa fenómeno Thug Unicorn

A ideia partiu de uma das fundadoras da festa, a Jackie, que reuniu o coletivo ao qual eu dei o nome Thug Unicorn. Eu, ela, a Ana Dias (Supa) e a Tânia Pena – com quem tocava em parelha na altura – começámos as festas da Thug Unicorn no Plano B em Agosto de 2012. Com isto, veio um crescimento massivo e totalmente imprevisto das festas. Percorremos espaços entre Porto e Lisboa durante 6 anos, construímos uma comunidade linda à volta das festas do Porto e começámos a colaborar com a Rádio Quântica em 2015. Decidimos parar em 2018. Seguimos percursos diferentes mas a amizade manteve-se. É engraçado – há sempre aquele preconceito de que equipas só de mulheres dão azo a dramas e rivalidades, mas nesses 6 anos, mesmo quando discordávamos em algum assunto sempre houve respeito e sempre encontramos uma solução conjunta para os conflitos internos e externos da organização da festa.

Enquanto a Thug Unicorn dava voltas e reviravoltas, eu mudei-me para Lisboa e comecei a tocar sozinha como Catxibi, onde explorava alguns dos tipos de sonoridades que apesar de estarem dentro do universo da Thug Unicorn, já não tinha a mesma liberdade para as tocar nas festas.

A partir de 2019 comecei um novo programa na Rádio Quântica mais orientado para a electrónica com o João (Assafrão), com o objetivo de explorar ambientes e cenários sonoros diferentes, desenvolver e quebrar diferentes moods – Fuinki, que quer dizer mood em japonês.  Começámos também a tocar juntos, e fiquei a conhecer os amigos do João que organizam a festa mais chaotic good de Coimbra, a Instrumental Violence.

Este ano, comecei a tocar sob o nome Cativo onde exploro vertentes mais enérgicas e pesadas da música eletrónica para o dancefloor, para poder traçar uma distinção entre isso e o som que passo enquanto Catxibi. Estava também a desenvolver uma nova festa e experiência com pessoas que me inspiram bastante, e que teria a sua primeira edição agora em Maio. 2020 tinha tudo para ser um grande ano, mas depois o mundo ficou de patas para o ar e au revoir todos esses planos entusiasmantes que tinha, por tempo indeterminado. Agora, resta-me ouvir o pimba da vizinha abafado pelo ruído do meu exaustor até os meus tímpanos desistirem desta batalha.

Esta playlist é a linha temporal da minha experiência como DJ, faixas que de alguma forma marcaram as diferentes fases do meu percurso nos últimos 13 anos.

PLAYLIST COMPLETA

The Horrors – Count in Fives  

Em 2007, a estética e temática goth e o garage rock dos The Horrors eram sem dúvida uma inspiração e uma referência para nós. Até o nosso nome de dupla na altura era inspirado neles, em toda a sua glória embaraçosa e datada – tínhamos um pin que eu desenhei e tudo.

 

Echo And The Bunnymen – The Killing Moon

Esta faixa irá para sempre fazer-me lembrar de uma noite em que estávamos a tocar em Penafiel, eu tive uma paragem de digestão e o Miguel Ângelo dos Delfins apareceu no bar onde estávamos. Ele veio-nos dizer que gostava muito da nossa música e perguntou/confirmou que era a Killing Moon de Echo and the Bunnymen. Eu estava com uma paragem de digestão, bem notória na minha cara na fotografia que os donos do bar quiseram que tirássemos com o senhor dos Delfins. Na altura ainda bebia álcool, e como gótica bebé que era estava com um corpete que não me permitia virar o barco.

Quando cheguei ao Porto – à casa que dividia com duas colegas que assim como eu estavam fora há umas quantas semanas porque era Agosto – deparei-me com um cenário muito “pragas do Egipto”. Vesti o pijama, passei uns tempos na casa de banho a livrar-me dos conteúdos estagnados do meu estômago e quando entrei na cozinha tinha uma imensa nuvem de moscas da fruta lá dentro. Cabiam facilmente 5 Luísas naquela nuvem negra de moscas, à vontadinha. Não é o cenário que uma pessoa espera quando vai à cozinha fazer um chá às 4 da manhã para acalmar o estômago. Acamparam num saco de batatas podres que estava abandonado há semanas por baixo do fogão, e que agora não era nada mais que uma rede cheia de uma pasta negra viscosa cheia de larvas.

 

Hudson Mohawke – Joy Fantastic (feat. Olivier Daysoul)

Esta faixa do Hudson Mohawke transporta-me para 2011, quando tocava como parte da parelha Wanderlust com a Tânia. Levou-nos a sítios como Guimarães, Santo Tirso e à GRRRL RIOT no Plano B, e a pintar a cara com face paint neon antes de sequer fazermos qualquer ideia do que era “apropriação cultural”.

Quando estávamos em Santo Tirso, pouco depois de começarmos a tocar apareceu a polícia e fechou o bar. Foi um pouco surreal porque não estava a perceber o que estava a acontecer e só a seguir as indicações que nos davam enquanto toda a gente à nossa volta ou estava meio em pânico ou perfeitamente indiferente. Como os músicos do Titanic, a tocar com uma compostura heróica enquanto o navio ia ao charco. Só que no nosso caso era mais a compostura confusa de um cão a quem fazem de conta que atiram a bola para depois a esconderem atrás das costas.

Acabámos a noite a ver TV em casa da pessoa que nos convidou para ir lá tocar até termos comboio para voltar para o Porto.

 

Lumidee – Never Leave You

Esta é uma das primeiras faixas que me vem à cabeça quando penso nas primeiras festas da Thug Unicorn no Plano B e do quão intensas se tornaram tão rapidamente. A fila de pessoas a dar a volta ao quarteirão, a saudação estrondosa das pessoas à espera que entrássemos no cubo e abríssemos as cortinas. Nós quatro e tantas caras conhecidas que ficavam connosco até às 6 da manhã, que lentamente foram desaparecendo e dando lugar a novas caras ao longo dos anos.

 

Azealia Banks – 212 ft. Lazy Jay

Acho que não deve ter havido uma festa da Thug Unicorn em que esta música não tenha passado. E sempre, sem falhar, o público ficava para lá de aceso sempre que a ouvia. Há-de ser para sempre um dos maiores hinos da Thug Unicorn. Sempre que a ouço tenho flashbacks das mais variadas histórias ao longo da evolução das festas. Quando encontraram quatro pessoas a fazer uma sextape caseira com os telemóveis na casa de banho durante uma das festas, ou quando esvaziaram um extintor na pista, ou quando surtei e soquei um moço que estava a esticar a corda numa situação bastante “stressante” – eu não me lembro de o ter feito mas há testemunhas, os reflexos têm destas coisas – as inúmeras invasões de palco, paredes de rabos e discos pedidos…

 

Ms Nina – Tu Sicaria

A Ms Nina foi a primeira e última experiência com concertos que tivemos na Thug Unicorn. Adorámos o concerto mesmo que em termos de bilheteira tenha sido um pouco ingrato. A Lola Herself, que costumava fazer performances explosivas na nossa festa também se juntou à Ms Nina em palco e tornaram aquela noite memorável. Acho que esta incursão da Thug Unicorn pelo reggaeton e perreo precedeu a explosão que estes géneros musicais tiveram na noite portuguesa, e enquanto Catxibi comecei também a ser associada aos mesmos. 

Isso proporcionou-me experiências como abrir para C. Tangana e para a BadGyal no Musicbox, assim como programar as festas Snatched neste espaço durante o ano passado, e tocar antes da Albal na minha estreia no Pérola Negra com as Turbo Sessions.

 

Beatrice Dillon & Call Super – Fluo

Esta faixa lembra-me do nosso primeiro gig como Fuinki, no Anjos 70 em Lisboa quando estávamos encarregues da banda sonora para o Drink&Draw – as noites de desenho e ilustração organizadas pelo Afonso Martins e o Frederico Pompeu. O tema da noite em que tocamos era orientado para as flores, e foi com essas amigas verdinhas e coloridas em mente que fizemos a nossa selecção. Recomendo fortemente esta experiência a quem gostar de fazer uns rabiscos temáticos divertidos em grupo.

 

Assafrão – Rave Come Down

Para fechar, este vídeo fresquinho de uma faixa do Assafrão, feito pela Inês Pinto de Faria que saiu dia 13 de Abril com vídeos de várias noites e festas que aconteceram ao longo do ano passado.

Acho que a maioria das pessoas que aqui aparecem ficou com uma lágrima no olhinho quando viu este vídeo, e relembrámos estas noites num momento em que nos vemos privados de nos reunir e festejar desta forma sabe-se lá quanto tempo. 

Esperamos poder voltar a estar todos juntos a dançar no mesmo espaço em breve.

 

Texto de Luísa Cativo

Fotografias cedidas pela autora na qualidade de organizadora dos eventos representados.