Menú // Pesquisa
#ComoFoi KolaMoka12 Edição Invicta

#ComoFoi KolaMoka12 Edição Invicta

Depois de duas saraivadas de ABSA, e agora esta padrada de Kola Moka, estamos convencidas, aqui na redacção da CVLTO, que não basta contar-vos #ComoFoi. É preciso estarem lá para verem como é.


Entrar no Barracuda ao som de Tim Maia não é coisa frequente. Tinha que ter mãozinha da malta da Kola Moka, está visto.
MAGMA Wear no KM12.

É a primeira vez que o grupo de intervenção cultural e ecológica Kola Moka leva o seu conceito para o Porto. Já nos tínhamos cruzado – em Slabdragger e em Plastic Woods – com a ABSA, que é fundamentalmente da mesma árvore genealógica, mas o gene Kola Moka é muito particular, de facto.

Depois de onze edições de ajuntamentos em diferentes espaços e cidades – como Estarreja, Ovar e Avanca -, foi vez de se testar as vontades e as mocas dos portuenses.

quando nos surge um RENA até se sobe à tropicália.

A noite começa quente e bem-disposta com os discos de RENA (Renato Espírito Santo) a aquecer a pista devagarinho. É swing, é samba, é funk, é para beber uma cerveja com os pézinhos a mexer e um sorriso na cara. A selecção de discos de RENA era de facto sublime, e invulgar de se ouvir nos bares portuenses.

Entre as foleiradas brasileiras, as foleiradas americanas, e as foleiradas portuguesas, é tão raro encontrar DJs que tenham bons discos – e saibam ler um público que à partida poderia não disfrutar daquele género que quando nos surge um RENA até se sobe à tropicália.

Nuno Sina, da organização, explica que a opção de começar a noite com aquele DJ aveirense é para “não entrar logo a matar”. Vamos ter muito tempo ao largo da noite para matar fígado, tímpano e cervical, de facto.

Depois de RENA, sobe o duo Algumacena, composto por Alex D’Alva Teixeira e Ricardo Martins. Sobre eles, Sina dissera apenas:

“É uma cena nova muita estranha, é espectacular.”

Então, não havendo expectativas criadas, podiam apenas superá-las. E assim foi. Aquele duo tocava qualquer coisa que não se enquadrando bem no garage rock, também não deixava de o ser. De facto, era “alguma cena” bizarra, daquelas “cenas” que não se enquadram bem em “cena” nenhuma. Mas que acabam por ficar bem dentro de “qualquer cena”.

Um baterista igual ao adorável King Buzzo, dos Melvins, e um guitarrista com uma energia em muito semelhante à de John Dwyer, dos Thee oh Sees. Combinação que se pode adivinhar perfeita.
A camisa tropical nunca denunciaria os gritos que saem daquela goela, pejados de raiva.

E de facto The Oh Sees é a referência mais aproximada que esta vossa repórter vos consegue dar do que são os Algumacena. Seguindo uma tendência que já tinha sido conversada com os Vénus Matina na segunda edição das Kola Sessions, os Algumacena cantam em português, o que já é de si só assinalável.

A Telecaster aguda contrasta com a brutalidade da bateria. Leia-se: esta brutalidade não é aquela sobre que costumamos escrever quando falamos de concertos grind. Ricardo Martins é uma fera atrás do pratos, uma velocidade e uma técnica invejável, sem falhar uma batida, e cada uma delas é acertada com sentimento e com força.

Mas sente-se algo a falta de um baixo. Toda a melodia é assegurada pela guitarra, naturalmente, mas falta ataque na sonoridade excêntrica e veloz deste duo.

No final, Alex constrói uma base com a guitarra e um pedal de loop, pousa o seu instrumento, e agarra-se ao microfone com uma energia redobrada. A camisa tropical nunca denunciaria os gritos que saem daquela goela, pejados de raiva, mas que não são dissonantes do restante som de Algumacena.

Foi apenas o terceiro concerto deste magnífico duo, e da nossa parte, estamos ansiosas por vê-los crescer e encher mais e mais palco.

Cada riff cai sólido como rochedos em derrocada.
E depois da descarga de energia eléctrica que foram os Algumacena, sobem os muito mais lentos e pesados Stones of Babylon.

Este trio lisboeta vem da tradição que grandes nomes como Black Sabbath, Om e Windhand construiram. Se bem que “Em português é o que se diz, é padrada”.

É isso o que dá título à sua primeira demo, “In Portuguese We Say Padrada”, e esse é o sentimento que conseguem veicular. Cada riff cai sólido como rochedos em derrocada. Sendo um projecto relativamente recente, é animador ver o espaço que ainda têm para explorar nesse universo de “padrada”, para animarem as suas próprias derrocadas babilónicas.

Os riffs serpenteantes do guitarrista Nowak ondulam em torno das linhas de baixo sólidas e melódicas de Medeiros.

Stones of Babylon fazem jus ao nome: é um doom atmosférico, que não abandona o psicadélico nem se aventura demasiado em aventuras espaciais. Stones, sim, porque é de facto uma sonoridade pesada e lenta, e Babylon, também, porque não deixa de ter uma certa carga mística nas melodias.

Há momentos em que se ouve qualquer coisa de Colour Haze, há momentos em que se ouve qualquer coisa de Mountain High. Os riffs serpenteantes do guitarrista Nowak ondulam em torno das linhas de baixo sólidas e melódicas de Medeiros, e permitem espaço para dois tipos de experiência dentro daquela sonoridade progressiva.

Noawk agradece à organização e a Algumacena, “que já partiram tudo o que havia para partir”, mas o público tem ar de discordar.

Se Stones of Babylon foi o que permitiu alguma viagem e algum descanso entre Algumacena e Orangotango, nem por isso as cabeças deixaram de se sacudir e os olhos torcerem-se em amplos sorrisos.

E depois do build up de Stones of Babylon, há muita electricidade para libertar em Orangotango. Este power trio de Valongo toca um stoner psicadélico bem rápido, e bem feroz, assim ao estilo de Radio Moscow quando eram bons.

 

Arrancam o concerto a tocarem as primeiras três músicas do recém-lançado álbum “Sumatra”, que é todo ele um veloz safari por paisagens surrealistas, e vão aumentando energia ao longo da hora e pico que tocaram. Depois desta passagem por Sumatra, tocam músicas novas com as quais o público já está certamente familiarizado.

O moshpit está animado, de braços enleados e cervejas no ar. Claramente um pit de comparsas, como dá tanto gosto ver no stoner.

É curioso assistir a uma banda em que os papéis tradicionalmente atribuídos ao guitarrista e ao baixista parecem estar invertidos. Carlos Jorge, nas quatro cordas, é uma pilha de energia, sem parar dois segundos. Por sua vez, o guitarrista Rui Loureiro, está pacatamente do lado esquerdo do palco, num safari muito seu. É Rui que olha atentamente para Carlos Jorge para lhe seguir o groove, e há uma cumplicidade evidente entre os três que faz dispensar qualquer comunicação verbal.

O público vai entoando as melodias a pleno pulmão, sem se pouparem aos gritos e assobios. De tal forma que de cada vez que achamos que Orangotango está para rematar o concerto, pimba, toma lá morangos, mais um encore, e a malta vibra de alegria e pura electricidade.

Orangotango é relativamente recente na cena stoner portuguesa, com “Sumatra” a ser lançado em Dezembro, mas é evidente que vieram para ficar – seja pela energia atávica da sua música e da sua presença em palco, seja pela lealdade dos seus fãs e amigos.

Nisto, há que confessar de um valente susto que a vossa repórter apanhou já perto do final do concerto de Orangotango. Olhando para trás, na direcção do bar e da cabine de DJ, está uma sinistra figura encostada atrás dos discos.

É Pr1me Sinister, a quem se encarrega a árdua missão de encerrar a noite.

De capacete branco que emula um coelho (será?) enfiado na cabeça, e sem qualquer expressão que se lhe veja, a sinistra figura do DJ está pacientemente à espera da sua vez de tomar de assalto o Barracuda. E assim é.

As primeiras notas de “Dragonaut” dos lendários Sleep começam a soar, e os que estavam cheios de vontade de sair do bar para respirar um ar um bocadinho menos denso de suor e fumo (como se quer que um concerto de stoner seja), imediatamente se viraram para trás para cantar alto e bom som “Ride the dragon towards the crimson eye”.

Quem visse de fora, diria que aquele era o melhor ensaiado coro de doom que já se viu.

Um miminho da CVLTO para os nossos amigos da Kola Moka.

Pr1me Sinister assegurou a música até de madrugada na primeira aventura da Kola Moka a terras portuenses. E que aventura que foi.

Mas dos detalhes mais assinaláveis e louváveis da Kola Moka é a vontade e a garra de levarem excelente música às periferias tendencialmente esquecidas.

E o próximo evento com carimbo Kola Moka é nada mais nada menos que os irlandeses Electric Octopus a solo no Saramago Caffé Bar, em Estarreja. Lá estaremos. E se vocês já não estiveram no Kola Moka #12, não fiquem a dormir e reservem já o vosso lugar para verem os explosivos Electric Octopus.

Depois de duas saraivadas de ABSA, e agora esta padrada de Kola Moka, estamos convencidas, aqui na redacção da CVLTO, que não basta contar-vos #ComoFoi. É preciso estarem lá para verem como é.

 

Texto e fotografias: Zita Moura