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#QuemÉ Gator, the Alligator

#QuemÉ Gator, the Alligator

Aqui há umas semanas viralizou na internet um vídeo de um jacaré a curtir a corrente de um rio. Um bicho jurássico não muito grande, de ventre na pedra macia e a ser levado numa pequenina cascata de água doce. Profundamente relaxado, por sinal.

Esta imagem em muito faz lembrar a postura dos Gator, the Aligator. A de um animal desenhado para ser uma das mais mortíferas armas da natureza, mas que nem por isso deixa de curtir aquele sunny side up.

Tiago, Filipe, Eduardo e Ricardo são os humanos que dão rosto e voz ao Gator. E quem é o Gator?

O Gator é a personagem que entre os quatro construíram para contarem as histórias que precisam contar.

“O principal motivo pelo qual criámos o Gator é porque queríamos ter uma personagem principal que també fosse narrador”, explica Tiago. E porquê um jacaré?

“Gostamos bastante de jacarés. É um animal que pode ser quase de estimação, mas que não deixa de ser perigoso, e gostamos de explorar essa dualidade.”

“Não deixa de ser um predador à beira-rio”, acrescenta Eduardo.

O Gator é personagem principal na música e no artwork. O recém-lançado álbum “Life is Boring” tem-no como protagonista, profundamente entediado num cenário de silly season. E os quatro barcelenses brincam e dizem que o Gator, nesta fase, ainda é adolescente.

“Se calhar num próximo álbum o Gator está mais crescido”, brinca Eduardo.

E o que o Gator adolescente conta está entre o garage-rock da escola de Ty Segall e o pop punk com que a maioria de nós cresceu. Tem uma postura jovial, animada e ao mesmo tempo ansiosa e eléctrica.

O caminho dos Gator, the Alligator (como o caminho do jacaré que contávamos no início) tem-se feito com a maior naturalidade do mundo. O que começa por ser uma jam entre amigos que já tinham outros projectos prévios, acaba por se converter num convite para um concerto, e a oficialização duma banda. O primeiro concerto deles dá-se em 2017, e logo de seguida surge um convite para o Indie, que foi o quarto concerto que deram.

“o pessoal acredita que nós podemos ser o princípio de uma nova fase, e temos orgulho em carregar a bandeira de Barcelos para onde vamos”

E foi assustador, subirem aos palcos com tão pouco tempo de ensaios, e tão pouco tempo para se descobrirem uns aos outros?

“Ao mesmo tempo que íamos tocando íamo-nos descobrindo”, explica Filipe.

Então todo o trajecto dos Gator tem-se-lhes afigurado com a maior das naturalidades, tal como se lhes afigura a evolução da banda.

“Vai evoluir sempre, não por necessidade, mas por naturalidade, e vai-se sempre notar uma maturidade diferente”, acredita Tiago.

E Filipe acrescenta: “não queremos forçar a barra, e queremos continuar a fazer o que gostamos.”

Fazem isto porque gostam, sublinham uma e outra vez, e para satisfazerem as suas necessidades criativas, que nunca se viram particularmente entrevadas pelo sítio de onde vêm. Sendo de Barcelos, puderam crescer e amadurecer num sítio que lhes deu oportunidade de acreditarem na sua cena, asseguram. E isso também é proporcionado pelo ambiente informal que surge entre os músicos.

“Podermos ir a um festival e ver em cima do palco o mesmo gajo que se senta connosco no balcão do tasco é inspirador, sabemos que também podemos chegar ali”, diz Eduardo. E sobre a nova geração de músicos em Barcelos, acrescenta: “o pessoal acredita que nós podemos ser o princípio de uma nova fase, e temos orgulho em carregar a bandeira de Barcelos para onde vamos.”

Então o Gator é profundamente minhoto, e um jovem ainda em fase de afirmação, parece ser. E o que é que o Gator afirma?

Gator, the Alligator tem tentado desprender-se de algumas conotações que lhes têm sido atribuídas, como a todos os adolescentes atribuem. “É uma fase, isso passa!”, diziam os cotas, ou “Tu vais ser engenheiro!”, asseguravam os velhotes. Gator assume uma enorme vontade de crescimento e amadurecimento, e rejeita os rótulos que têm tentado atribuir-lhes. Não há caixinha em que queiram caber, diz Filipe.

“Vamos continuar a descobrir a vida, e isso continua a ser um processo natural”, assegura Ricardo.

E para lá da conversa amena por cima de pizzas que vão arrefecendo, como é Gator, the Alligator em palco?

quanto mais palco se lhes dê, mais palco eles ocupam.

Alucinante, é como é Gator, the Alligator em palco.

Seguram as guitarras bem alto no peito, assim à Beatles, e com uma postura absolutamente energizante, assim à Thee Oh Sees. Sorriem largamente entre si, e agitam-se em palco.

Naquela noite no Maus Hábitos, os Gator encheram o palco e a sala, com a distorção na voz e o fuzz nas guitarras a vibração foi de tal ordem que uma garrafa de Super Bock que para lá repousava foi sacudida para o chão.

Tal sacrilégio.

Certo é que os quatro músicos se esforçam por sacudir a atribuição de rótulos, ou o encaixotamento em géneros e caixinhas, mas vê-se muito dos Thee oh Sees neste quatro jovens. E isso não é mau, longe disso. Vão do psicadélico, ao punk, ao som garageiro dos anos 60 e 90, simultaneamente.

E depois de os termos visto no palco do Maus Hábitos e no palco do Rodellus (história que vos contaremos muito em breve), percebe-se que quanto mais palco se lhes dê, mais palco eles ocupam.

Cada duas por três, Tiago dobra as costas e afasta as pernas, meneia a coluna e circula pelo palco, tal como um jacaré faz, predador à beira-rio. Os quatro, cada um à sua forma, assumem uma postura algo predatória no encarnar do Gator.

Mas que simpático que é o Gator, ainda assim.

Gator, the Alligator faz parte da lufada de ar fresco que a indústria do rock em Portugal tem recebido. E se quanto mais palco lhes derem, mais palco eles ocupam, esperamos vê-los em mais e mais palcos, para que os ocupem cada vez mais.

 

Texto: Zita Moura
Fotos: downclose