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#ComoFoi Frágil & The Alcoholic Friends e Veneno Califórnia

#ComoFoi Frágil & The Alcoholic Friends e Veneno Califórnia

Foi verdadeiramente uma noite de punk rock, das que o Porto precisa. Houvesse deus naquele sítio, também haveria muita cerveja por que o trocar.


Depois de um compasso de espera de duas horas bem regadas de cerveja, eis que entra a horda de sedentos alcoolatras pela gruta mais acarinhada do Porto.

Não há cá cerimónias nem apresentações.

Assim que Frágil e os seus amigos alcoólicos sobem ao palco do Barracuda, sabe-se que o que se segue não vai ser menos que caótico. Sala composta resulta em chão escorregadio, braços suados e abraços apertados – foram muitos os tombos, mas com tanto quem levantasse os caídos, nem tempo havia para aquecer o chão.

Todos os rostos em cima de palco são familiares – Frágil, de Renegados de Boliqueime e Motörnoise; Miguel, de Dokuga e Vürmo; Ruca, de Misantropia e Erro Crasso; Esfómea, de Bicho do Mato e Wysoccan. São gentes familiares a quem familiar é do punk portuense. E sabemos, sabemos nos ossos, que a ossada vai sofrer.

“Estou na rua com uma ressaca do caralho e a pensar na puta da minha vida e penso ‘vou tirar férias’, mas foda-se, não tenho dinheiro para tirar férias!”

“Os teus olhos só vêem o ódio”, canta Frágil, uma e outra vez. As colunas começam a vibrar de antecipação. E logo de seguida, uma cover dos lendários Renegados de Boliqueime. “Sofrer até morrer”, e grita-se a uma só voz no Barracuda.

A Flying V de Miguel deve ser a guitarra mais acarinhada do punk portuense, e cabe nela desde o speed-punk estilo Inepsy até ao punk-rock mais jingão e divertido, para levantar a cerveja e sacudir os pés no pogo. O que é certo é que é carcaçada da velha, da que nós gostamos.

Por um momento, esta vossa repórter sentiu que estava de novo em casa, na sua, na nossa CasaViva, num momento em que o Porto vivia e suava punk por todos os poros.

E depois de tanta pancadaria, um momento de interlúdio que um qualquer intelectual chamaria de “spoken word”.

“Estou na rua com uma ressaca do caralho e a pensar na puta da minha vida e penso ‘vou tirar férias’, mas foda-se, não tenho dinheiro para tirar férias!”

Frágil grita esta longa e familiar frase quatro ou cinco vezes ao microfone, depois de uma mais longa intervenção sobre o trabalho, e a apatia, e a apatia, e o trabalho, e o tom vai subindo, a par e a par com a intensidade do som que lhe faz fundo.

E eis que culmina numa cover de Motörnoise, e a sala explode de novo.

E como um buraco negro que se expande até ao infinito e recolhe para si mesmo, Frágil anuncia: “vou cantar a Santa Bárbara porque gosto de cantar isto quando estou bêbedo”. E o coro de gente que canta o hino dos mineiros abafa o som do subwoofer do Gare, a paredes meias com o Barracuda.

Mas religiões à parte, certo é que ali toda a gente trocaria Deus por uma cerveja. E isso se fez. Com um enorme e divertido moshpit, que cantava num uníssono cacofónico essa música lendária de Renegados. Por um momento, esta vossa repórter sentiu que estava de novo em casa, na sua, na nossa CasaViva, num momento em que o Porto vivia e suava punk por todos os poros.

Frágil and The Alcoholic Friends é o punk que precisamos. Mas não o punk que merecemos.

E depois do “subidón” que FTAF nos deu, juntam-se “o tédio conimbricense e a letargia lisboeta” num quarteto que destila veneno quente.

Os Veneno Califórnia surgem de uma sonoridade familiar, indo beber muito ao rock que marcou os anos 80 em Portugal, e recolhendo influências de projectos basilares no punk rock como Misfits e Ramones.

Uma voz limpa e articulada, mas que destilava fúria, a par de um instrumental organizado mas nem por isso menos punk, são a receita de Veneno Califórnia, que não se inibem de cantar sobre temas frequentemente tabu na sociedade e mesmo dentro da cena punk.

A energia dos quatro em palco era contagiante, mas depois da explosão de energia que houve em FATF era difícil voltar a engatar o motor na mesma engrenagem em que os Veneno estavam. E nem por isso se inibiram. E dançaram e saltaram em palco, e engajaram com o público.

Nem sequer a pausa técnica que obrigou a que a Flying V de Miguel fosse fazer as vezes da guitarra de Pedro Pita foi assustadora para estes quatro punk rockers.

 

Foi verdadeiramente uma noite de punk rock, das que o Porto precisa. E boas são as noites que nem com o sol terminam. Houvesse deus naquele sítio, também haveria muita cerveja por que o trocar. E certamente a troca foi feita.

 

Texto: Zita Moura
Fotos: Mar