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#ComoVaiSer Wume

#ComoVaiSer Wume

Os Wume estreiam-se em Portugal com “Towards the Shadow”, terceiro LP da dupla de Baltimore que navega descomprometidamente pelos pergaminhos do kraut-rock. Uma das prendas a desembrulhar no Serralves em Festa, e também na Associação Cultural Mercado Negro, em Aveiro.


um “bom” livro de ficção e/ou fantasia precisa apenas de uma única premissa inicial para desenhar uma realidade paralela.
A literatura é, das sete ou treze artes que reconhecemos, a mais considerada por aqueles e aquelas que a acompanham.

É um valor de nicho que, de dentro para fora, o público realça a negrito em contraste com a indiferença das massas ou d’outros nichos: parcelas de homo sapiens que podem ter nos Wume uma banda de referência mas que, dificilmente, acompanham a vida e obra de um(a) gaj@ que escreve.

Dentro desses gaj@s, a ficção e/ou fantasia coloca-nos numa fácil posição de julgamento e este projecto, com ‘double-date’ em Portugal neste fim de semana, pode pôr-te a ler umas merdas.

Porque um “bom” livro de ficção e/ou fantasia precisa apenas de uma única premissa inicial para desenhar uma realidade paralela.

 

Supor que a Alemanha ganhou a Guerra, mas tudo o resto é “possível” e realista, como na 1ª temporada de “The Man On The High Castle”, onde o triunfo das forças do Eixo é a única falácia do enredo.

Os humanos cagam e mijam pelos mesmos ‘spots’ que fazem neste mundo – nada de dragões nem conices.

É fantasia.

É ficção.

Partes de uma premissa – tal como a dupla de Baltimore parte de um loop – e viajas com realismo em direcção à tua vontade.

 

Onde o marchar dos soldados deu espaço ao cavalgar de um ritmo.

Ora, a Alemanha não ganhou coisa alguma que não uma geração artística que catapultou uma juventude pós-guerra que escreveu um dos melhores capítulos da música experimental e experimentada:

o “kraut-rock”.

Onde o marchar dos soldados deu espaço ao cavalgar de um ritmo – orgânico, apesar de frio – os Wume bebem cocktails cujo componente base encomendam na mesma loja que Can, Neu! e/ou Kraftwerk, apesar de roubarem o nome à cidade de origem dos Faust.

Formados em 2010, daquelas formas que @s bacan@s dos ‘media’ sabem, mas insistem em perguntar – “pá, tocamos umas merdas e a coisa aconteceu”…

Wait…

Okay, neste caso foram os “almighty” Future Islands que os chamaram para tocar com eles, mas @ caralho d@ jornalista não percebe nada disto na mesma.

 

DR
Uma das prendas a desembrulhar no Serralves em Festa

 

Falamos d’um início de projecto onde a identidade dos Wume era mais do que perceptível, com “Maintain” – LP de estreia – a causar impacto pela instrumentalização complexa que nasce da simples junção d’uma bateria e um par de teclados.

O loop é rei e a plebe jamais aborrece: um disco experimental traduzido para tamanha convencionalidade que não lhe permite rótulos como “música de elevador”, mas composições que nos prendem e não largam.

Este som é deles.

E com o passar dos anos amadureceram a identidade que sacou, no final de 2018, este “Towards the Shadow”, onde a voz de April Camlin nos diz que “Maintain” foi um óptimo disco mas que a baterista escondia umas cartas na manga e nas cordas vocais. 

Num tom quase monocórdico, de lembrar cânticos em detrimento de canções, April conduz-nos  odisseia reflexiva e humana que (mais uma vez) nos lembra a subversão das lendas do kraut que tinham na criação a melhor (e única) arma contra o Capitalismo e a Opressão.

«I’m losing my shadow, shaking my shadow/ I’m wearing my shadow»

O loop mantém o reinado, e é no loop que nasce o mundo de fantasia que, em vez de nos prefigurar como utopia, nos mostra que tudo o que transmitem – tal como @ gaj@ de caneta na mão – facilmente despoja a nossa realidade.

A própria “Functionary” – 5ª malha do disco – cita o filósofo Herbert Marcuse e a obra “Eros and Civilization” – um ensaio que tod@s @s gaj@s que põem um “@” em detrimento da vogal de género devem ler (estou ilibado, como sempre) e que relaciona as teorias Marxistas e Freudianas numa sociedade verdadeiramente livre e que usa a memória colectiva como artilharia pesada rumo à conquista e à desobediência civil.

Lê um livro, por amor a ti.

Também ele um exercício de ficção, a obra de Herbert e o disco dos Wume partilham de valores que resistem ao Tempo e Progresso, oferecendo simultaneamente o escape e a solução (ou a ilusão de) para o sistema político, moral e economicamente vigente.

“Towards the Shadow” é um disco exímio que, com poucos meses de vida, começa a marcar posição.

Depois de fazerem companhia aos Beach House numa tournée pela Europa, os Wume tornam ao Velho Continente com dupla presença em Portugal, no Serralves em Festa e na Associação Cultural Mercado Negro, em Aveiro.

 

Bebam, leiam e tenham alto weekend.

Na Segunda-Feira contamos como foi.

 

Texto: Luís Dixe Masquete