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#ComoFoi o Sabbath do SWR

#ComoFoi o Sabbath do SWR

São já 22 anos de rebelião de guerreiros do aço num pequeno povoado no Minho profundo. O Steel Warriors Rebellion - ou SWR - veio colocar Barroselas no mapa duma forma tão visível quanto audível.


Dopelord
Do Doom, ao Death Metal, ao Grind, até ao efervescente SynthWave, há espaço para todos os maus gostos.
Este festival já se pauta por ser um dos mais antigos da Europa, a marcar cada mês de Abril desde 1998 com raiva, música extrema da melhor qualidade possível, e uma organização dentro do recinto absolutamente irrepreensível.

Após enormes nomes como Possessed, Carpathian Forest, Napalm Death e Candlemass (entre centenas de outras) passarem pelos palcos do SWR, este ano foi ano de Saint Vitus, Godflesh, Midnight e Vomitory, e de outras 46 outras bandas que marcaram a vigésima segunda edição do tão querido Barroselas Metal Fest.

Do Doom, ao Death Metal, ao Grind, até ao efervescente SynthWave, há espaço para todos os maus gostos. E este ano, a CVLTO esteve no segundo dia do SWR para vos contar #ComoFoi. Quase não sobrevivemos, mas por vós, fétidos leitores, tudo vale.

O SWR está dividido em três palcos – dois que são vedados a portadores de bilhetes (Abyss e Dungeon), e um gratuito (Arena), para além da zona de bar, de alimentação, e de convívio. A par dos concertos, ponto central deste evento, há actividades paralelas a acontecer, como as Loud! Talks. Tivemos oportunidade de assistir a uma conversa com os principais promotores dos festivais Roadburn (na Holanda) e Covenant (no Canadá).

 

“O Undergound é feito pelos jovens”

em 2019 o caminho da música tem passado por um decrescer no seccionar das audiências e cada vez mais por um assumir da polivalência de gostos individuais.

Ambos sendo festivais de música extrema, tal como o SWR, em muito se assemelham – das vitórias, aos receios, às reservas, ao crescimento. Os dois promotores convidados partilharam experiências pessoais enquanto organizadores de dois dos festivais de destaque dentro destes géneros musicais. Géneros musicais estes que cada vez mais misturam e fundem públicos, sendo seguro dizer que em 2019 o caminho da música tem passado por um decrescer no seccionar das audiências e cada vez mais por um assumir da polivalência de gostos individuais, e isso reflecte-se indiscutivelmente na evolução dos Line-ups mais recentes.

Boris Balkan (Covenant) diz-nos “Sim, pretendemos no futuro continuar a abrir espaço para artistas de outros sub-géneros, estou completamente aberto à hipótese de fazer booking de músicos de sonoridades como por exemplo o dark R&B, ou Rap e Hip-Hop. O SynthWave já tem estado presente no Covenant, e uma das datas da tour do Perturbator pela América do Norte passa por Vancouver e está sob a nossa organização.”.

Perturbator – provavelmente o produtor de SynthWave mais reconhecido internacionalmente na actualidade – transparece uma óbvia ligação à música extrema, não apenas por ser um óbvio amante de bandas como Nails (o que já se tornou uma piada de internet) mas também pela próprio cariz de peso e influências que são óbvias na electrónica que produz.

Sendo qualidade a palavra de ordem, Walter Hoeijmakers (Roadburn) fala-nos também do processo de crescimento de um festival tão admirável quanto o Roadburn.

O SynthWave e o RetroWave estão repletos de produtores que vêm da escola, da nossa escola, do Punk, Heavy Metal, Black Metal, ou Doom, e é extremamente curioso que dois géneros musicais que têm uma tradição (meia idiota, diga-se de passagem) de conflito como o Metal e a Electrónica, tenham finalmente abertura suficiente à diferença e versatilidade com um exclusivo e único critério: a qualidade.

Sendo qualidade a palavra de ordem, Walter Hoeijmakers (Roadburn) fala-nos também do processo de crescimento de um festival tão admirável quanto o Roadburn.

“É muito importante não tentar crescer demasiado, e demasiado rápido. É preferível fazer um festival pequeno, mas em que as coisas correm bem, e não ser demasiado ambicioso. Esse é o problema de muitos festivais que aparecem e desaparecem.”

Walter organizou pela primeira vez um concerto com apenas 17 anos e inevitavelmente é-lhe feita A pergunta; “Seria capaz de entregar o Roadburn a outros?”. E deixem que vos diga que se Walter não tivesse um ar tão empático e por esta altura já não tivesse feito uma série de afirmações de um profissionalismo e simpatia deliciosos, este teria sido o momento em que teríamos começado a gostar a sério do director artístico do Roadburn. 

“Absolutamente. Já pensei em fazê-lo, e talvez isso aconteça dentro de poucos anos. Para todos os efeitos este é um meio Underground. E o Undergound é feito pelos jovens, é intrínseco ao que é novo. E os jovens merecem hipótese de poder mostra-se, merecem a oportunidade. Eu já o fiz.”

 

Da Masmorra ao Abismo não há pescoço que aguente

Assim que chegamos, somos presenteadas com Vacivus, e não poderia haver melhor comité de boas vindas.

aos primeiros acordes já se tornava óbvia a chapada de Death Metal que se seguiria por toda a duração do concerto.

Os Vacivus vêm de Inglaterra, e aos primeiros acordes já se tornava óbvia a chapada de Death Metal que se seguiria por toda a duração do concerto. Vacivus, banda cuja formação conta com membros originais de Dawn of Chaos (outra banda de destaque no cenário do Death Metal inglês) inactivos desde 2013 (que seria também o ano de formação de Vacivus), são a receita perfeita para uma sonoridade que apesar de solidamente se catalogar como Death Metal de influências clássicas, é marcado por passagens em que o som se torna menos compacto e mais melodioso, transportando-nos para um peso mais característico ao Doom Metal.

É de realçar a presença em palco e os vocais impressionantes do frontman cujo vocal range impecavelmente oscilava entre o extremamente agudo e os guturais, e de quem se tornou difícil desviar o olhar. Os temas de “Temple Of Abyss”(2017) foram os mais tocados, tendo sido este álbum alvo de excelentes críticas aquando do lançamento.

Da masmorra, vamos para o abismo.

Eis que surgem Namek, grind português bem pútrido. É rápido, é agudo, com alguns pig squeals e muuuuito grunting. O circle pit está super animado, a par do guitarrista que vai circulando livremente pelo palco, sem cabos que o amarrem – a tecnologia tem destas coisas maravilhosas.

Fazem um escatológico regresso a 2006, e aqui ouve-se mais punk que metal, nunca perdendo o pé em sons (se é que assim se lhes pode chamar) como os de Anal Cunt.

Das mais-valias de Barshasketh é a preocupação que se nota na construção melódica.

E depois de toda a javardeira que foi Namek, passamos para um cenário totalmente distinto, construído pelos escoceses Barshasketh. É black metal – mas finalmente black metal que não parece do que é gravado na retrete. O nome desta banda surge do hebreu Be’er Shachat, traduzível para “Poço de Corrupção”, e não há nome que lhes caiba melhor.

A Metal Horde fez uma entrevista ao leadman da banda, Krigeist, que estava integralmente disponível na revista que se entregava a cada frequentador do festival nas bilheteiras. Nela, o neozelandês Krigeist – fundador do projecto – explica o processo que levou Barshasketh de um projecto a solo para uma banda de quatro elementos que já lançou três álbuns e três splits, para além do que foi gravado a solo pelo guitarrista e vocalista.

Das mais-valias de Barshasketh é a preocupação que se nota na construção melódica. Dentro do cenário apoteótico que constroem, dispensam o show-off muitas vezes associado ao black metal, e conseguem fazer música épica e dramática.

Para decapitar inimigos.
Devagar.

Saímos da masmorra para ir para a Arena, onde já estavam os Son of Cain. Este duo algarvio- lisboeta é a fusão alquímica, a lovechild, de Black Sabbath, Pentagram e Danzig. É pesado, não necessariamente rápido, mas com ênfase num pedal duplo maroto. Son of Cain é daquelas bandas que não precisa de muitos artilúgios para mostrar de que são feitos. Ouve-se Pentagram nos riffs, embebidos de óleo de motor, ouve-se Sabbath na solidez da construção musical em constante crescendo, e ouve-se Danzig na melodia da voz.

Vocais limpos mas ásperos, uma bateria feroz, e uma guitarra sólida e audaz. São o excelente exemplo de que um projecto de “apenas” dois músicos tem a mesma capacidade e potencial ao vivo que qualquer outro, especialmente quando se torna óbvia a qualidade dos músicos que o constituem.

Numa altura em que o imaginário deste público está em grande parte contaminado pela imagem do “power trio”, projectos como Son of Cain e Greengo (de que falaremos adiante) demonstram sem lugar a dúvida que por vezes o talento de dois monstros em palco é suficiente para o encher.

 

No SWR cabe o psicadélico, o clássico e o horror

Da solidez de Son of Cain, vamos para a masmorra de novo, onde estão os Dopelord – a não confundir com Dopethrone. As t-shirts que usam são de Saint Vitus, Ufomammut e Om. O baixista leva um pin de Doom na strap do baixo – do jogo, ou da banda?

As cabeças movem-se num bonito uníssono, numa magnífica coreografia de longas cabeleiras negras.

Deixaremos à vossa imaginação. Mas deixa uma ideia de onde vêm estes rapazes.

A envolvência do público é notória, Dopelord é um concerto de imersão numa outra realidade.
“She’s addicted to black magik”

É assim que arrancam para 45 minutos de stoner doom de bater com a cabeça nos joelhos. Um registo vocal mais próximo do stoner rock, mas que conseguem fazer funcionar como uma sonoridade doom. Os riffs de Dopelord fazem muito lembrar os Electric Wizard na sua era dourada – de tal forma que a segunda música que estes polacos tocam parece, em muito, uma homenagem à Legalize Drugs and Murders.

As cabeças movem-se num bonito uníssono, numa magnífica coreografia de longas cabeleiras negras.


O que pautou como especial o gig de Dopelord foi o controlado crescendo que possibilitaram. Alternando entre registos mais psicadélicos, e sonoridades mais doom, conseguiram construir um espectáculo cuja intensidade foi aumentando mas sem obrigar a um registo monótono. A envolvência do público é notória, Dopelord é um concerto de imersão numa outra realidade.

Prova maior disso, e perdoem-nos a audácia, é quando olhamos para o lado e vemos o nosso grande amigo Bruno Pereira, capitão e timoneiro da Wav., de olhos fechados e cabeça a sacudir, totalmente embrenhado nos cenários que Dopelord constroem.

Afinal, isto não pode ser só trabalho e dores nas costas, certo?

Saint Vitus é daquelas bandas cujo talento não baixa a fasquia nunca, independentemente da idade avançada dos membros.

Vinte minutos antes de um dos concertos mais aguardados desta 22a edição do SWR já se acumulavam em frente ao palco Abyss uma resma considerável de caras conhecidas. E esta é outra das magias deste festival em que facilmente se encontram caras compinchas de anos que se vão acumulando a estar nas plateias destes concertos.

Saint Vitus pertence a uma liga de bandas que quase se podem dizer serem os “anciões” e percursores de tantos outros projectos musicais posteriores que o carinho de que são alvo dentro desta comunidade é magnífico de se assistir. É uma daquelas bandas cujo talento não baixa a fasquia nunca, independentemente da idade avançada dos membros.

A verdade é que, para o bem e para o mal, já não se fazem homens assim.

Scott Reagers, esse vocalista astro e membro fundador de Saint Vitus, que depois de alguns anos fora da banda completa recentemente a quase formação original (infelizmente à excepção de Armando Acosta, baterista original e já falecido), mantém uma presença em palco e um timbre de voz absolutamente impressionante.

É deixada uma nota à não participação neste concerto por parte de Mark Adams – baixista original de Saint Vitus – recentemente diagnosticado com doença de Parkinson (existe uma campanha de recolha de fundos a decorrer e para a qual os músicos pediram contribuição) e que seria substituído por Patrick Bruders. Este outro grande músico “da casa” tem um currículo que compila associações a bandas como Crowbar, Down e por um curto espaço de tempo, Eyehategod.

Tudo neste concerto foi delicioso, pautado por uma atitude de inconformidade que está igual desde os anos 80, principalmente pela parte de Dave Chandler que se pode dizer ser o “punk” da banda. De tal forma, que entre músicas sublinha o facto de terem sido uma das bandas percursoras do caminho para o Doom e o metal nos EUA, e atira:

“Feel free to climb the stage, this place is yours too!”

Os riffs característicos de Saint Vitus estão lá, bem como os solos explosivos recorrentes, que especialmente em relação ao último álbum podem dizer-se serem muito mais envolventes ao vivo.

O público construído por gente de todas as idades, cantou a plenos pulmões clássicos dos primeiros dois álbuns como se ainda estivéssemos nesse momento histórico em que “Saint Vitus”(1984) ou “Born Too Late”(1986), contemporâneos de bandas como Pentagram ou Black Sabbath traçavam um dos mais importantes caminhos para o Doom e Stoner como o conhecemos actualmente.

De sublinhar que, vivendo numa era em que raros são os momentos em que numa multidão não há rostos iluminados pela luz azul de um ecrã de telemóvel, ao olhar em volta durante o apoteótico concerto de Saint Vitus, poucos eram os olhares que procuravam o conforto de um telemóvel. Quiçá por respeito à provecta idade destes senhores. Quiçá porque não há luz que se sobreponha aos astros que tivemos em palco.

Birdflesh era das bandas que mais expectativa teria criado para esta noite, mas um cancelamento à última da hora obrigou a que o seu lugar fosse ocupado por Purulent Spermcanal – banda que estava programada para tocar na Arena no dia seguinte.

O nome poderia fazer supor um pornogrind absolutamente nojento. E verdade é que se o nome da banda mete nojo, a música também. Mas daquele nojo que a gente aprecia. Na Encyclopedia Metallum apresentam-se como goregrind, mas aquilo é do partygrind mais divertido que já estas vossas repórteres já ouviram, sem se tornar tonto.

E depois do grind divertido de Purulent Spermcanal, regressamos à Arena para ouvir Grindead, banda de grind portuense liderada pelo antigo vocalista de Genocide. E o que há para dizer sobre Grindead é que é do grind que gostamos aqui na redacção da CVLTO.

DO INFERNO.

Luís oscila entre o grunting mais do âmago aos gritos mais agudos com uma admirável agilidade. E a restante banda demonstra uma agilidade a par-e-par da de Luís, quando tocam um grind grave, rápido e feroz. Quando tocam uma cover de Brutal Truth, os braços levantam especialmente alto.

os Greengo que subiram ao palco em Barroselas pareciam mais zangados que os Greengo sobre que já escrevemos em reportagens anteriores.

E para encerrar a noite, os já familiares e sempre saudosos Greengo. Depois de ver Greengo no Woodstock e no Barracuda, curioso é vê-los em versão maléfica no SWR. Quiçá pela audição algo toldada pelo whisky e pelo vinho barato (como manda a lei do rock’n’roll), mas os Greengo que subiram ao palco em Barroselas pareciam mais zangados que os Greengo sobre que já escrevemos em reportagens anteriores.

E ainda bem.

O stoner doom meio apunkalhado deste duo portuense parece mais visceral a cada concerto. Com riffs de baixo sólidos e rápidos, e uma bateria animalesca, há espaço para bater com a cabeça nos joelhos e há espaço para parar dois segundos e pedir que alguém faça uma colagem.

Talvez o set que tocaram não tinha sido diferente do que já se ouviu noutras instâncias, mas certo é que parecia mais rápido e mais nojento. Recuperando o que se escreveu na cvlto em janeiro:

ESTE DUO JUNTA O MELHOR DE MUITOS MUNDOS: TEM AGRACINHA DO PSICADÉLICO, COM A MALVADEZ DO SLUDGE E A NOJEIRA DO CRUST.

“Fumem muitos charros, fodam-se todos!”, pede Martelo.

A gente cumpre. 

Só ficou o desgosto (que para o ano, no que depender de nós, não se repetirá) de não nos ser possível estar presentes nos três dias caóticos e maravilhosos que o SWR Barroselas Metal Fest proporciona.

 

Texto e Fotografias:
Ana Garcia de Mascarenhas e Zita Moura