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#ComoFoi o MUPA

#ComoFoi o MUPA

O calor de Beja e a hospitalidade das suas gentes receberam a CVLTO de braços abertos para a primeira edição do MUPA - Música na Planície.


Um cartaz eclético que juntava desde a lenda da pop Lena d’Água, até ao grande Allen Halloween, passando por Bloom (JP Simões e Miguel Nicolau) e Systemik Violence, foi o pretexto para que por aqueles dias de Maio se juntasse gente de mais ou menos todo o país entre os vários espaços que a Associação Jovem Cultur+ dinamizou para o MUPA.

Um dos espaços centrais da cidade e do evento foi o café A Pracinha, bem no coração de Beja. Foi lá que se instalou a exposição do projecto “We Ain’t Gonna Stop Fuck You” de Pedro Agra, já antes exibido na primeira FILHA DA CVLTO, em Dezembro passado. Este projecto reúne uma série de imagens que documentam o movimento Punk e Hardcore em Portugal e no estrangeiro nos últimos dois anos e meio, pela lente de Agra.

Haverá melhor forma de inaugurar um festival do que com a abertura de uma exposição sobre Punk e com as 5h de música que os Simply Rockers Soundsystem instalaram no Jardim do Bacalhau?

“homemade speakers to mash down Babylon”

Este grupo lisboeta trouxe consigo um colossal soundsystem, inteiramente construído pelos próprios, e o melhor do reggae e do dub. O Jardim do Bacalhau durante cinco horas vibrou com os baixos intensos e as boas vibrações dos Simply Rockers, que munidos de vinis absolutamente singulares trouxeram a verdadeira cultura SoundSystem para a planície alentejana.

Importando para o aqui e agora o trabalho e conceito dos mestres do reggae de Kingston, Jamaica, dos anos 50, nunca pareceu tão pertinente a missão da cultura soundsystem como é hoje. Com colunas, pré-amplificação e amplificadores artesanalmente construídos, apresentam “homemade speakers to mash down Babylon”. Ernesto, dos Simply Rockers, viria a dizer-nos horas depois que “não há outro soundsystem como este no mundo”. E de facto, não há grande margem para dúvida.

Este grupo já faz vibrar paredes e menear pés há já quase dez anos, sendo um dos três soundsystems lisboetas que andam a fazer estrada, e foi um excelente pontapé de saída para um festival tão agradavelmente surpreendente como foi o MUPA.

Abraça-se à guitarra como se da própria alma se tratasse.

Numa vibração bem distante da dos Simply Rockers está Norberto Lobo no Museu Regional de Beja. Debruçado sobre uma guitarra, na frente de um altar de Igreja, e com uma plateia cheia diante, o compositor ia-se desdobrando em camadas de som, em histórias e cantares de corda.

Lobo parece estar em transe.

Abraça-se à guitarra como se da própria alma se tratasse, e o que se faz ouvir pelo eco e reverberação da igreja parece em muito uma abordagem distópica à música sacra. Pelo menos naquele contexto. Na audiência, um ambiente solene e sereno. Todos fitam Norberto com concentração e serenidade.

E se é de ecleticismo que falamos, passamos das cinco horas de reggae e dub dos Simply Rockers e do virtuosismo abstrato de Norberto Lobo para o punk anarco-violento dos Systemik Violence.

As camadas de guitarra de Lobo criam uma atmosfera muito própria. Desde 2007, com “Mudar a Bina” que é de sonoridade própria e atmosfera própria que é preciso falar quando se fala deste compositor e guitarrista. Há muito de post-rock em Norberto Lobo, mas não deixem um rótulo (que por amplo que ‘post-rock’ seja) reduzir o que é o virtuosismo dele.

E se é de ecleticismo que falamos, passamos das cinco horas de reggae e dub dos Simply Rockers e do virtuosismo abstrato de Norberto Lobo para o punk anarco-violento dos Systemik Violence. No andar de cima de um restaurante de nome “Pé de Gesso”, monta-se um palco que foi pequeno para segurar a raiva de Iggy Musäshi. Os concertos de Systemik já são conhecidos pela energia que sempre acartam, e pelo perigo que representa estar perto da frontline.

Systemik Violence respeita muito pouco, de facto.

Aqui entre amigos, contamos um segredo: há uns anos atrás, este mesmo Iggy Musäshi, bicho assustador de balaclava na cabeça e colete aberto, alertou-me gentilmente para não me colocar demasiado perto dele enquanto fotografava o concerto.

“Mas porquê?”, perguntei na minha inocência. “Já vais ver”, foi a resposta.

Lição aprendida há uns anos, mas nem por isso respeitada. Systemik Violence respeita muito pouco, de facto. Respeita pouco os cânones, respeita pouco as regras, respeita pouco os limites. Quiçá por isso o mais recente álbum se chame “Anarquia Violência”, e o anterior “Satanarkist Attack”.

Dizem eles, esses monstros com face paint e uma postura que junta o melhor do punk e o melhor do black metal, que querem voltar a fazer o punk uma ameaça.

E assim o fazem.

Cada concerto destila uma aura ameaçadora, de tensão na beira do precipício, de corda prestes a estalar. O que apresentaram no MUPA não foi diferente.

Um público inicialmente tímido, ou quiçá intimidado, vai-se lentamente aproximando. Quanto mais não seja pelo enredar do cabo de Iggy nos troncos e pernas de quem o via, quando o palco ficava demasiado pequeno para o conter. É punk, é metal, é nojento, é rápido, é cheio de fúria. É o punk que precisamos, e é o punk que queremos.

Mas porque não se pode manter sempre as rotações tão altas assim porque ainda se gripa o motor, quem assume controlo da máquina logo de seguida são os lisboetas Putas Bêbedas.

para quem vem do punk a la Black Flag, Putas Bêbadas é uma curtição.

O quarteto de Olaias que se auto descreve como “Hoe Rock” e “Whore Punk” foi uma agradável surpresa; para quem gosta de “esbardalhanço” e uma mixórdia sonora nada melódica este é o tipo de banda a que convém estar atento.

Não me interpretem mal; para quem vem do punk a la Black Flag, Putas Bêbadas é uma curtição, e o espírito punk – seja lá o que isso for – é evidente quando os membros da banda são os primeiros a tentivar uma espécie de mosh ainda no concerto de Systemic Violence, perante o olhar meio perplexo do público presente na sala.

Com passagem por festivais como o Milhões de Festa e o querido SWR Barroselas de 2018, já demonstraram que apesar de teoricamente estarem inseridos num nicho musical underground, são bem capazes de criar frenesim na plateia; seja este traduzido em olhares atónitos ou abanares de cabeça frenéticos.

Sendo o MUPA um festival que não está nem aí para se prender a géneros musicais, Putas Bêbadas caiu que nem uma luva na programação do primeiro dia.

As mulheres levantam os punhos sob o comando de Mynda, os homens seguem-nas.

À maluqueira de Putas Bêbadas seguiu-se Mynda Guevara, e deixem que vos diga que há sempre uma magia qualquer em poder assistir a concertos de mulheres como ela: o palco não precisa de mais nada, só precisa de Mynda, das letras de Mynda, dos statements importantíssimos de Mynda, e de um microfone.

A esta altura da noite já a sala está a rebentar pelas costuras, e talvez tenha sido a primeira vez que tivemos de nos sujeitar a ver um concerto inteiro coladas a uma coluna e que isso não foi um problema. Mynda já aqui anda desde 2014 a desbastar mato sempre no caminho da emancipação feminina, num scene como o rap crioulo que continua a ser dominado maioritariamente por homens.

E fala-nos destas questões não só através das letras, mas também nos interlúdios entre as faixas escolhidas para tocar em palco.

As mulheres levantam os punhos sob o comando de Mynda, os homens seguem-nas. A a voz de Mynda prossegue, macia e doce, mas sem nem por um segundo abandonar a assertividade necessária para levantar estas questões.

Temas como “Ken Ki Fla” e “Hey Mana” foram acompanhados pelo público que foi trauteando as letras e dançando os instrumentais de um EP que estará cá fora até ao fim de 2019. Encantadora, Mynda vem da Cova da Moura, sem medos e sem show off, e se é verdade que nunca se produziu tanta e tão boa música como actualmente, também é verdade que é uma lufada de ar fresco ver rap e hip hop de cariz político a ser puxado para palcos de festivais.

Para além do maravilhoso concerto a que tivemos o prazer de assistir no Pé de Gesso, pudemos coordenar uma Talk com Mynda e Caroline Lethô – que fecharia o MUPA com um set electrónico absolutamente fantástico – da qual vos falaremos mais à frente.

uma criatura com um número variável de cabeças, atualmente refugiada em Lisboa”

Tutti Morti foi uma contratação de última hora do mercado de Verão. Depois de Necro Deathmort ter de abandonar o cartaz do MUPA, quem entrou para assegurar que se mantinham laivos de horror na primeira noite do festival foi um DJ que se apresenta como “uma criatura com um número variável de cabeças, atualmente refugiada em Lisboa”.

Constou à equipa redactorial da CVLTO que Tutti Morti importou os seus saberes infernais da rave scene italiana, e fez boa prova disso no aquecimento para o fim da noite alentejana. Foi durante uma hora que o Pé de Gesso tremeu – e de que forma – com o tekno bem do mato de Tutti Morti. Pesado, rápido, com mau génio. O tipo de tekno que se quer ouvir numa rave no lusco-fusco da legalidade.

Obrigada, MUPA, por não colocarem ninguém em risco para se poder ouvir disto em Beja.

Nota da Redacção: do set de João Melgueira não se conseguiu salvar nem uma foto. Vissem vocês a parede de fumo impenetrável que permeava o Pé de Gesso perceberiam o porquê.

E para concluir o primeiro dia deste festival de pequeno-médio formato mas de grande programação, organização e potencial (acreditem em nós; não foi nem a primeira nem a segunda cobertura da equipa da CVLTO, é de realçar e parabenizar a equipa de produção do MUPA) foi com grande contentamento que João Melgueira foi recebido na última slot desta primeira edição.

Nome familiar à música electrónica portuguesa e co-fundador da label Alienação, ninguém esperava menos do que um culminar tão selvagem quanto groovy da parte deste ainda novo mas extremamente prometedor DJ oriundo de Beja. Com passagens por casas como Maus Hábitos e Passos Manuel no Porto, o Titanic Sur Mer em Lisboa e programas na rádio Oxigénio e  Rádio Quântica, João vai a todas; desde o disco às músicas do mundo e ao techno, a sala de cima do Pé de Gesso transformou-se num caos de fumo, dança, e ovações regulares a Melgueira.

O primeiro dia do MUPA terminou com uma fornalha composta de gente de todas os tamanhos, feitios e tribos culturais possíveis e imaginárias, e nem a abertura regular das janelas escoou de forma eficiente a quantidade de fumo e calor que emanava de quem dava os últimos pezinhos de dança na pista. Gostámos tanto que viríamos a trazer João Melgueira ao incrível Pérola Negra Club pela primeira vez a 7 de Junho à infâme KRVKEN.

entre o hip hop de periferia de Mynda Guevara e o techno cosmopolita de Caroline Lethô, conseguimos discutir e descobrir muito acerca do papel que elas ocupam na indústria.

O dia começa quente, ou não estivéssemos bem na planície alentejana. E vamos para A Pracinha, na Praça da República, para conversar com Mynda Guevara e Caroline Lethô sobre o papel da mulher numa indústria musical em constante evolução. Originalmente estava programado que Lena d’Água se juntasse à conversa também, mas porque a cantora lançara o seu novo álbum na noite anterior estava demasiado cansada para se juntar a nós.

Ainda que fosse interessante ter a perspectiva de uma mulher que está na indústria há quase 40 anos, a verdade é que entre o hip hop de periferia de Mynda Guevara e o techno cosmopolita de Caroline Lethô, conseguimos discutir e descobrir muito acerca do papel que elas ocupam na indústria.

Mynda tem 22 anos e é da Cova da Moura. Começou a cantar rap muito jovem, com 12 ou 13 anos, e pouco depois arrancou para uma carreira a solo.

Diz que o que faz é assegurar território e identidade dentro do hip-hop.

Quando questionada sobre o porquê de falar de empoderamento feminino na sua música, e o porquê de cada concerto terminar com o punho erguido e a incitar o público a gritar “female power” consigo, Mynda assegura: “sou uma das poucas que fala destas questões”, e leva essa bandeira consigo, ainda que reconheça e admita que a sua identidade é muito maior e mais complexa que essa bandeira.

Já Carolina, de 26 anos, algarvia, não levanta nenhuma bandeira na sua música. Exprime-se identitariamente, claro, mas não faz disso cavalo de batalha na indústria. Sente que, por ser mulher, produz e compõe de uma forma diferente da dos seus pares, mas que essa diferença é cada vez mais celebrada em vez de obstacularizada.

De facto, ambas as artistas reconhecem que tiveram muito apoio e solidariedade dos seus pares masculinos no avançar das suas carreiras e nos seus processos criativos. Foi importante, mas não decisivo, para elas verem outras mulheres nas indústrias que hoje ocupam. Carolina fala de quatro DJs que foram importantes no seu percurso, e Mynda diz que cresceu a ouvir hip hop também cantado no feminino: “não sentia estranheza a ouvir uma mulher a cantar rap”.

Mas acima de tudo, ambas sublinham que é preciso fazer trabalho, mostrá-lo e “fazer-se à pista”.

Ainda que reconheçam que os mundos que ocupam são em muito dominados por homens, e reconheçam que algumas das suas pares podem encontrar determinados obstáculos, nem uma nem outra deixam que esses obstáculos sejam determinantes naquele que é o seu processo criativo e de crescimento.

Foi uma conversa que durou quarenta e cinco minutos, resguardadas da torreira do sol alentejano, com uma plateia curiosa e atenta. Foi a primeira conversa moderada pela CVLTO, e o MUPA não poderia ter escolhido melhor tema para discutir.

há uma dimensão qualquer bem portuguesa que se sente na forma como JP trata a guitarra.

De volta à programação musical – desta vez na Oficina Os Infantes – ouviam-se os primeiros acordes de Bloom, projecto do reconhecido JP Simões e Miguel Nicolau. Temas como “Alice” e “Hey Georgie!”, integrantes do disco “Tremble Like a Flower” (primeiro disco enquanto Bloom) foram recebidos pelo público de sorriso na cara.

As capacidades técnicas de ambos os guitarristas são evidentes, e o conimbricense JP Simões há muito que é aclamado como um dos artistas de renome e currículo impressionante no scene do Blues e Folk português. São perceptíveis influências que vão do registo de Bob Dylan, Tim Buckley ou Townes Van Zandt, à música ligeira brasileira, e apesar das letras serem em inglês há uma dimensão qualquer bem portuguesa que se sente na forma como JP trata a guitarra.

Miguel, integrante de outro projecto de grande qualidade, Memória de Peixe, deixa-se estar no lado esquerdo do palco com uma presença mais recuada. Um concerto maravilhoso, que terminaria com uma sensação bucólica de que poderíamos continuar aquela tarde de Maio em Beja, quente e de cheiro adocicado a ouvi-los sem nenhuma pressa de que acabasse.

E continuámos a tarde numa nota ligeira, com um dos nomes mais sonantes desta primeira edição do MUPA.
A voz de Lena mantém-se igual à dos anos 80. Foi quase arrepiante.

Lena d’Água, esse nome e voz tão familiar no imaginário português, sobe ao palco da Oficina Os Infantes acompanhada do seu velho amigo Tahina Rahary, o guitarrista que a acompanhou durante os anos 80.

A cantora pop senta-se, e pede desculpa por o fazer, mas lançara justamente na noite anterior o seu novo álbum. “Desalmadamente” surge trinta anos depois de “Tu Aqui”. A primeira mulher a dar voz a uma banda de pop-rock em Portugal teve um longo jejum de 30 anos, sem nunca desaparecer da memória dos portugueses, e finalmente regressa. Cheia de alma.

A voz de Lena mantém-se igual à dos anos 80. Foi quase arrepiante. Uma mulher feita, de feições quase de querubim, com voz de garota. Os sorrisos que Lena e Tahina trocavam durante o concerto eram absolutamente enternecedores, de uma cumplicidade imensa. E a cumplicidade era com o público também.

Os ombros vão meneando enquanto se canta em uníssono como Lena, como se ondas se tratassem os corpos. Tahina sussurra qualquer coisa a Lena:

“Ele gostava que se sentassem no chão, tipo hippies!”, graceja.

E o público acede.

O concerto de Lena d’Água foi uma viagem por alguns dos seus clássicos, facilmente identificáveis para muitos – “Olha o Robot”, “Vígaro Cá, Vígaro Lá” – e curioso é, já bem saída da infância, ouvir estas músicas e perceber quão pejadas de mensagem elas de facto estão.

Lena não se limita a ser uma carinha laroca com voz de garota

“Nuclear não, obrigado!”, exclama, “antes ser activo hoje do que radioactivo amanhã”.

A doçura com que entoa as suas canções fazem-nas parecer mais ligeiras do que de facto são, especialmente quando interpreta um poema sobre trabalho infantil.

O público estava deliciado – fosse pela lenda, fosse pela sua concretização. Lena d’Água está ali, viva, feliz, e nós também.

O interlúdio para jantar levou-nos a partilhar mesa com os portuenses 10000 Russos. As histórias mirambolantes que ouvimos, perdoem-nos, guardamo-las para nós.
Em jeito de brincadeira, comentei com Pestana que Talea Jacta era “techno para a malta do stoner”. Riu-se e esclareceu: “etno-techno”. Genial.

E foi sair da mesa de jantar para entrar na nave espacial conduzida por estas três figuras cobertas de luz vermelha. O guitarrista, Pestana, já figurara nas páginas da CVLTO anteriormente, como uma das duas metades da laranja que é Talea Jacta.

10000 Russos faz uma construção em camada das suas viagens espectrais. Mantendo uma base sólida na bateria de João Pimenta e no baixo de André Couto, Pestana vai sobrepondo níveis de som, perfeitamente controlados com um mar de pedais que segura aos pés. Vêm da tradição de bandas como Neu! que não se intimidam com a simultaneidade de sons que podem parecer dissonantes, mas se articulam entre si como seixos num rio.

A voz e a sua distorção são asseguradas por João Pimenta, que não berra por berrar; leva a visceralidade com uma trela bem curta e só a solta quando estritamente necessário.

Já André Couto, na sua solenidade, de camisa preta e sobrolho franzido, pela postura parece um Adolfo Luxúria Canibal mais contido. A figura clássica de um baixista – serenamente no seu canto, garantindo que tudo cai nos conformes de um ritmo estável e progressivo.

Os 10000 Russos apresentam um espectáculo progressivo, que vai subindo de tom e intensidade com o avançar dos temas, e contou-nos um passarinho no backstage que ali no palco da Oficina Os Infantes tivemos a oportunidade de ouvir temas que vão figurar no novo álbum, mas que ainda estão a ser experimentados.

dono de letras que nunca foram só letras, mas poesias da rua e do viver.

10 000 russos viriam dar lugar a Allen Halloween. Só o nome isolado deste rapper já tem a capacidade de nos causar automaticamente aquele arrepio na espinha típico de quem sabe que está perante um titã da música portuguesa

Há tanto e tão pouco a dizer, perante tanto que já foi escrito sobre este homem luso-guineense, dono de letras que nunca foram só letras, mas poesias da rua e do viver. Halloween fez-se acompanhar a Beja dos Youth Kriminals, de intensa presença em palco e vozes admiráveis.

conta a lenda, pelo menos entre os punks, que usar uma t-shirt ou hoodie virado do avesso durante um gig é um si mesmo um statement. Ao virar a roupa do avesso, não há ostentação de marcas. Não sabemos se foi ou não deliberado, mas pelo menos conseguimos rever-nos nesse código.

Foi entre o vislumbre de luzes vermelhas e um público em êxtase absoluto que se iniciou aquele que era um dos concertos mais aguardados da primeira edição do MUPA; Halloween manter-se-ia coberto pelo capuz do casaco virado do avesso, e a voz grave e extremamente característica ecoou durante mais de uma hora pelas paredes dos Infantes por entre ovações e uma plateia que o acompanhava fielmente.

De sublinhar que foi nesse momento, durante Halloween, que recebemos a boa nova. Vitor Domingos, da organização do MUPA, veio dizer-nos de sorriso de orelha a orelha: “Esgotámos!”.

O MUPA esgotou os bilhetes na sua primeira edição. E se esse não é um bom augúrio, não sabemos o que será.

E a par e par da boa notícia que recebemos de Vitor, olhamos em volta e o que vemos são jovens alentejanos com um enorme fulgor no olhar. São dezenas que se apinham em cima do palco da Oficina Os Infantes, e as gargantas de todos eles estão cheias das letras de Allen Halloween.

Cantam em uníssono com ele, sem perderem um beat, e levantam os braços e bradam e entoam.

Poucas vezes se vê um público tão entusiasta e tão conhecedor do artista que têm diante. Que bom vê-lo ali, num palco tão pequeno com tão grandes artistas e tão magnânimo público.

Directamente de Odivelas, temas como “Bandido Velho”, “Zé Maluco” e “SOS Mundo” fizeram as cabeças abanar, esta última de cariz extremamente actual apesar da faixa ser parte integrante do icónico “Árvore Kriminal” lançado em 2011. Foi perante uma casa cheia que Allen Halloween actuou, e já se sentem as saudades de quem lá esteve a assistir.

São camadas de batidas e pequenos apontamentos que insere de forma sublime que vão cedendo lugar entre si.

E depois da Oficina Os Infantes ter ficado a rebentar pelas costuras para Allen Halloween e os Youth Kriminals sobe Nazar, que logo nas investigações pré-MUPA tinha suscitado bastante curiosidade.

Este DJ e produtor Angolano, criado na Bélgica, retorna ao seu país de origem após o fim da guerra civil em 2002. O que se lê sobre ele em múltiplas plataformas online é que Nazar tenta imprimir na sua interpretação do Kuduro angolano as histórias de um país durante 27 anos dilacerado pela guerra. E se por um lado pode parecer bizarro, já que o Kuduro é um estilo de música e dança frequentemente associado a momentos de folia, a verdade é que é naquele techno-kuduro que o barulho da guerra faz sentido.

Às vezes o techno peca pela monotonia, mas não é o caso de Nazar. São camadas de batidas e pequenos apontamentos que insere de forma sublime que vão cedendo lugar entre si. O público está deliciosamente confuso. Não é fácil perceber quando é que é suposto bater o pé. São tempos e contratempos que se alinham e contrariam entre si. É pesado, mas não é o tipo de sonoridade que leva o maxilar a bater na testa.

Há Berlim e há Luanda em Nazar.

A magia de Nazar está não na base, não nos dry samples, mas nas paisagens que constrói sobre uma estepe vermelha carregada de pólvora. São os tais apontamentos, que conseguimos identificar como percussão africana, são os ritmos de kizomba e kuduro perfeitamente fundidos com um techno da europa de Leste. E Nazar conhece o seu set e as suas paisagens como as costas das mãos.

De tal forma que, olhando para ele atentamente, lê-se no seu rosto quando alguma coisa de apoteótica está para acontecer.

O ruído de uma saraivada de balas não é o mais comum de se ouvir numa festa à uma e pouco da manhã (ou isso espero). Mas ali, samplado e misturado com mestria, torna-se evidente o que Nazar quer dizer quando diz que queria contar uma história de resiliência e esperança num país cravejado de balas.

Cunha o termo “Rough Kuduro” para apodar a sua música. E está acertadíssimo.

E de repente já são 3 da manhã. Caroline Lethô, com quem a CVLTO conversara horas antes n’A Pracinha, está já no palco e pede expressamente para que se desliguem todas as luzes que sobre ela incidem.

A DJ e produtora algarvia, radicada em Lisboa, também procura construir paisagens, mas muito diferentes das de Nazar. Uma mulher que cresce a ver as ondas serenamente a enrolar na areia vai levar muita dessa linguagem para a música que produz, sem se deixar embalar demasiado por ela.

Depois de já ter passado por todas as grandes casas da electrónica em Portugal (Lux, MusicBox, Lounge, Plano B, Passos Manuel, Pérola Negra, etc.), também já passou por clubes lendários como o Trezor em Berlim, e é merecedora das cabines que já ocupou.

O techno de Caroline é pesado, é rápido, mas não é enjoativo nem é overwhelming. É o que se quer ouvir até perto das cinco da manhã.

O chão já gruda, cada duas por três ouve-se um apito a silvar na audiência, e Caroline tem-nos a todos irrequietos. Eis que ao palco sobe JP Simões. Visivelmente despenteado, de camisa meio desabotoada e com um enorme sorriso nos lábios, sacode os braços para continuar a puxar pela audiência.

E a malta alinha. Uma vez mais.

 

o MUPA mostra a iniciativa corajosa de levar música de qualidade e cultura alternativa às periferias das grandes cidades.

O MUPA, upa upa!, é um projecto com muito espaço e muito potencial para crescer. A par de outras iniciativas com que a CVLTO trabalha, o MUPA mostra a iniciativa corajosa de levar música de qualidade e cultura alternativa às periferias das grandes cidades. No espaço de dois dias, houve um soundsystem instalada no meio de uma praça pejada de velhinhos curiosos, houve punk e hip hop político no andar de cima de um restaurante, houve folk e rough kuduro num outro palco bem no coração da cidade de Beja.

Fomos para o meio da planície alentejana ouvir o que dificilmente conseguiríamos ouvir em qualquer praça de uma qualquer grande cidade.

Obrigada, MUPA. Para o ano faremos a famosa recta de 50km para estarmos lá de novo. Upa upa.

 

Texto e Fotografias:
Ana Garcia de Mascarenhas
Zita Moura