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#ComoFoi Carta Aberta aos meus Papás

#ComoFoi Carta Aberta aos meus Papás

Teotónio está pacatamente a consumir televisão, enquanto os jovens atrás de si estão num alvoroço enquanto se preparam para consumir cocaína.


Um quarto onde a maioria de nós já esteve. Uma situação que a maioria de nós já conheceu. Personagens que a maioria de nós já fomos.

Seja o velho, o folião, a empertigada, o bêbedo, a sóbria. Nalgum momento, todos nós já escrevemos uma carta aberta aos nossos papás. Alguns enviaram-na. Outros encontraram-na entre as páginas de um qualquer livro de alfarrabista.

DR. Joana Magalhães. GrETUA. 

Com texto de Bruno Dos Reis e encenação de Nuno Dos Reis e João Tarrafa, “Carta Aberta aos meus Papás” é interpretada pelos alunos da formação teatral do Grupo de Teatro Experimental da Universidade de Aveiro. GrETUA para os amigos.

E amigos esses que serão muitos, porque nesta quarta-feira à noite estava de sala cheia.

A peça assenta num pressuposto satírico. E é da sátira inteligente que nasce a melhor crítica. A meta-crítica e a crítica concreta. É uma peça que é sobre teatro sem ser sobre teatro, um jogo de personalidades e egos que coloca tudo em causa, é cómica sem ser tonta, é séria sem ser enfadonha.

E a sátira maior que faz é à cultura de consumo imediato dos media, à velocidade e alarvidade com que se consumem produtos de entretenimento, cujo expoente podemos encontrar nas familiares sitcoms.

É uma “anti-sitcom”. É o entretenimento que precisamos.

DR. João Cardoso. GrETUA.
Conversas cruzadas, paralelas, à tangente e à secante.

Começa num cenário que provoca algum desconforto por todo o contexto. Um quarto arrumado, vazio, com elementos que denunciam que um dia houve ali história. Meia-dúzia de fotografias numa parede, uma cama de solteiro muito bem feitinha, uma jukebox poeirenta com o vidro meio partido.

E bem no centro, Teotónio.

Sexagenário embrulhado no seu robe, sentado muito direitinho numa poltrona, vi(d)rado para a televisão, que vai piscando e emite um leve ruído de fundo.

Lá longe, ouve-se o barulho de uma festa. E eis que entram no quarto os primeiros cinco protagonistas numa missão. Cheirar cocaína.

Se é da boa? Então não é? O quê? O amor. Não, nada disso, a viagem para Moçambique. Já lá não vou. Onde? Ao amor?

Conversas cruzadas, paralelas, à tangente e à secante, sobre Moçambique, amor, mosquitos e monitores. A cadência é tão acelerada e tão excitante que louvável é a capacidade destes jovens actores e actrizes em manterem-na sem lhe perderem o ritmo nem a naturalidade.

DR. Teresa Q. GrETUA.
“Vou buscar uma palhinha? Mas por acaso tenho cara de tartaruga?”

São imensas referências à cultura popular que vão caindo em catadupa, e tudo enquanto uma das jovens no quarto vai pedindo uma e outra vez, “arranjem-me um cartão”.

Nisto, Teotónio está pacatamente a consumir televisão, enquanto os jovens atrás de si estão num alvoroço enquanto se preparam para consumir cocaína.

As personagens vão-se movimentando pelo espaço do quarto e por vários espaços mentais. Umas entram, outras saem, envolvem-se em flirts, discussões, provocações, tudo enquanto tentam cumprir a missão que os levou àquele quarto, onde permanece Teotónio e a memória de Lurdes, cuja presença eles reconhecem mas ignoram absolutamente.

Há um momento de tensão, as luzes fazem-se vermelhas e cai um silêncio tenso. Um macaco de fato entra no quarto, e atravessa-o solenemente em direcção a uma porta no outro extremo da divisão.

Mas quem é o macaco? Não era nada um macaco, era uma máscara, não é um cão ali dentro, é um homem.

DR. Joana Magalhães. GrETUA.
“no mudo cabe tudo”

A dado momento, entre todo o caos de uma festa, de gente bêbeda e em coca, obriga-se a que fique Teotónio sozinho, incumbido de cuidar das linhas de cocaína – finalmente feitas, mas ainda não cheiradas. E assim que todos os foliões abandonam o quarto do velhinho, muda-se completamente o cenário.

Dizia Bruno dos Reis, escritor de “Carta Aberta aos meus Papás”, no final da peça, que “no mudo cabe tudo”.

E fez questão de mostrar aos jovens actores e ao público como um momento de teatro mudo, como de cinema mudo, pode ser tão ou mais intenso e pejado de emoção como um momento de teatro contemporâneo cheio de estímulos e diálogo e energia.

E facto é que o momento mais sombrio da peça, é tão triste quanto surreal. A personagem de um velhinho, abandonado numa poltrona e entregue aos cuidados de um ecrã de televisão durante uma festa de anos, vestido de noiva e a valsar com um macaco de fato. Apenas o mais áspero dos corações não se sentiria combalido por aquela tão emocionante cena.

DR. Joana Magalhães. GrETUA.
Um exercício que pode ser extenuante e desconfortável. Mas necessário.

Após a peça, conversando com o autor, perguntei: “Explica-me o macaco”.

Mas o macaco não é explicável.

Aquela cena, que em tanto faz lembrar uma representação distópica de um Fred Astaire e uma Ginger Rogers, tem tantas explicações como interpretações. E isso também cabe ao público. Ser capaz de se forçar a interpretar uma cena de teatro mudo. Num momento em que estamos tão habituados a que os conteúdos que consumimos não nos deixem espaço de interpretação e diálogo – nomeadamente o que fazem as sitcoms, que até nos dizem quando rir – fazer o exercício de interpretar a dança de um viúvo velhinho vestido de noiva com um King Kong com um elegante fato de três peças, pode ser extenuante e desconfortável. Mas necessário.

DR. Teresa Q. GrETUA.
Cada personagem é um arquétipo que nos é inteiramente familiar.

A vontade de vos contar, queridos leitores, o corridinho da história, cujas personagens se envolvem e desenvolvem em catadupa, é muita. Mas não vos quero arruinar a surpresa.

Basta dizer que cada personagem naquele quarto é alguém que somos, alguém que já fomos, ou alguém que conhecemos. À saída do teatro, não me cansei de dizer que me identifiquei profundamente com a figura da feminista chata – chata, mas necessária. Ou isso quero acreditar.

Cada personagem é um arquétipo que nos é inteiramente familiar.

E a capacidade destes jovens actores amadores de darem corpo a arquétipos que, por mais ou menos complexos que sejam, precisam de se manter reais e discerníveis, sem recorrerem a lugares comuns, é, de facto, louvável.

“Faltam alguns pás, alguns nés, alguns caralhos”, mas a conversa tida naquela palco – paralela, cruzada, à tangente e à secante – é uma conversa necessária, rematada por uma carta escrita por Bruno dos Reis e lida por Teotónio, de óculos empinados na ponta do nariz.

“É aqui que paramos. No clímax.”
Após o momento mais tenso da peça, com um violino a ser tocado em palco e gargalhadas enlatadas a ecoarem pela plateia, ficamos aqui. É aqui que paramos. No clímax.

Nesta carta de Bruno, escrita na primeira pessoa para ser lida em palco e não decorada, o autor questiona os “criadores desse monstro contemporâneo que é ansiedade”, e pergunta “quanto de real há no nosso dia-a-dia?”.

Ficaram muitas perguntas por responder naquela carta. Mas certamente há muitas respostas nas entre-linhas e no subtexto da Carta Aberta aos meus Papás.

DR. Teresa Q. GrETUA.

DR. João Cardoso. GrETUA.

DR. Joana Magalhães. GrETUA.

 

Fotografias: Joana Magalhães, João Cardoso e Teresa Q. GrETUA.
Texto: Zita Moura.