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#ComoFoi a album party de Madmess

#ComoFoi a album party de Madmess

Se há coisa boa nas tainadas à moda do Norte, chegado o Verão, é o reencontro de velhos amigos e conhecerem-se novos. Foi mais ou menos assim que foi a apresentação do álbum dos Madmess no Barracuda, no passado dia 13 de Julho.


Juntou-se a gente de má rés de mais ou menos todo o Norte, e fez-se um serão bem regado de boa música, cerveja fresca e boa disposição.

Heavy Cross of Flowers
O que mais distingue Heavy Cross dos seus pares é a sujidade crua do seu som.

E quem inaugurou as hostilidades foram os pacenses Heavy Cross of Flowers, pela primeira vez com o novo baixista Cafi. Sendo a primeira vez que se escreve sobre Heavy Cross nesta plataforma, não é de toda a primeira vez que nos cruzamos com este projecto que tem vindo a construir uma sólida base de crescimento desde o lançamento do seu álbum de estreia, em Janeiro deste ano.

Este quarteto de Paços é frequentemente comparado com Kyuss mas é preciso fazer notar as melodias subliminares e perfeitamente articuladas, frequentemente asseguradas por Mário, esse guitarrista virtuoso. E mesmo para quem não conheça Heavy Cross, é fácil perceber qual vai ser a cadência da música apenas ao avaliar os rostos de antecipação da baterista, Beatriz.

Noutros idos, houve quem os comparasse à cena de stoner grego, como Godsleep, tirando a dimensão astral da voz. O que mais distingue Heavy Cross dos seus pares é a sujidade crua do seu som. Não chega bem ao slow low and evil do sludge, mas a visceralidade da voz de Telmo assegura o equilíbrio ideal entre o raivoso e o atormentado.

Com o recente factor acrescido de Cafi na segunda voz, finalmente a dose de malvadez que faltava a Heavy Cross está colmatada.

Heavy Cross of Flowers

De fazer notar que para além de aquele ter sido o primeiro concerto de Cafi com Heavy Cross, pouco tempo antes tinham tido para ensaiarem com a nova formação. E pouco se sentiu que aquela era uma contratação do mercado de verão para Heavy Cross of Flowers.

Sun Mammuth vem de uma nova onda de stoner-rock progressivo, que assume um crescendo em cada música individualmente, e na soma delas em concerto.

Mas dar descanso ao Cafi? Que quê.

Logo de seguida volta a subir ao palco, desta feita com os Sun Mammuth. A banda de Lousada, forma por Nuno Henriques, Cafi e David Sena traz uma dimensão completamente diferente da de Heavy Cross of Flowers.

Ainda que a bateria de Sena soe a tambores de guerra, os Sun Mammuth levam-nos para paisagens espaciais muito ao jeito de Naxatras. A voz de Nuno Henriques, limpa e carregada de reverb, também parece um piscar de olhos a esses monstros do novo rock psicadélico.

Em Sun Mammuth vamos dos riffs mais acelerados a interlúdios quase sludgy, em muito parecidos com os momentos mais lentos de HCF. Talvez por isso Cafi não tenha demonstrado qualquer dificuldade em adaptar-se à banda pacense.

Há um tímido moshpit começado pelos bandidos de Jarda, mas a esses já chegamos.
Sun Mammuth

Sun Mammuth vem de uma nova onda de stoner-rock progressivo, que assume um crescendo em cada música individualmente, e na soma delas em concerto. É daqueles projectos em que o todo é maior do que a soma das partes. Porque Sun Mammuth dá gozo de ouvir em casa, serenamente, mas vê-los em concerto é ir transportado às paisagens astrais que constroem.

E depois sobem os protagonistas da noite, Madmess.

A banda portuense sediada em Londres veio finalmente apresentar o seu álbum à sua terra natal. E ia sendo hora disso. Depois de abrirem para grandes nomes como Mother Engine, Electric Octopus, e Black Heat, finalmente trouxeram o seu groove de volta a casa.

Bem groovy. Bem psicadélico. Bem sexy.

O cheiro a erva já permeia cabelos e paredes.

Os momentos psicadélicos de Madmess são para menear a cabeça e a anca devagarinha, com laivos de ameaça de quando em vez que vai explodir, com a dose de agressão necessária assegurada pela bateria. Mas fica pela ameaça de explosão, apenas, porque o registo mantém-se numa sonoridade lenta e sedutora.

Os Madmess metem um pézinho no rock dos 60, e outro na nova era do stoner psicadélico, no que parece ser uma trajectória de auto-descoberta de três anos de banda. Não se pode tachar o grupo num ou noutro género, porque como muitas desta nova geração de músicos não procuram enquadrar-se taxativamente em género nenhum.

E porque, claro, estamos rodeadas de habitueés do Sonic, volta a chamar-se pelo Júlio. Afinal que é feito do homem?

E depois de se perguntar pelo Júlio, voltamos a entrar num registo super sexy, de encostar testa com testa e mexer os pés devagarinho.

Madmess.

O que não mexe devagarinho são as bastas cabeleiras dos rapazes de Jarda. Depois da bonita bandalheira que foi na primeira Metal Fiesta, eram altas as expectativas para este round.

A coisa divertida acerca dos Jarda é que tocam thrash metal que não é para metaleiros.

Oscilando entre o thrash bem clássico e riffs serpenteantes, os Jarda são uma banda promissora para o underground portuense que vai ganhando novo fôlego nos últimos anos.

Estamos num concerto de stoner, e Jarda pode ser o equivalente ao período de uma moca em que as gargalhadas são incontroláveis.

Já se escreveu sobre Jarda noutras paragens, nessa noite de deboche que foi a Metal Fiesta, mas o deboche desta tainada de bandas do norte trouxe uma faceta um bocadinho diferente de Jarda para o palco.

Foi um concerto mais caótico, nem por isso menos divertido, mas que obrigou a algumas pausas que, diriam eles mais tarde, cortaram um bocadinho da experiência que os Jarda tentam criar.

“Metam o baixista em palco, ele merece!”

Não era por falta de vontade, era mesmo de espaço. Mas lá se arrumam para que Fred Mendes possa subir para a beira dos seus bandmates. Ainda assim, como não há palco que chegue, o nosso amigo Pedro Lopes (cujos trabalhos fotográficos podem encontrar na nossa Galeria) tem uma epifania e avança pelo público até cima do balcão.

Oscilando entre o thrash bem clássico – desde a cover de “Wild Dogs” dos Toxic Holocaust – e riffs serpenteantes com qualquer coisa de arábico neles, os Jarda são uma banda promissora para o underground portuense que vai ganhando novo fôlego nos últimos anos.

Não se levam demasiado a sério, e a base de fãs deles é tão louca como eles.

Sendo que os concertos deles são uma absoluta bandalheira de tão divertidos que são, não se refugiam nisso nem se transformam no equivalente a party-grind do thrash. Não deixam de fazer thrash rápido, com “mala hostia” como dizem os espanhóis, e de puxar desde os metaleiros mais divertidos aos punks mais sisudos.

E se estamos a falar de mau feitio, é hora de dar palco aos Spitgod. Com um ano de banda e já vários concertos entre Porto, Paços de Ferreira e Coimbra, a este power trio só lhe falta um baixo bem grave para ser o que falta ao sludge no Norte.

Vasco, Telmo e Beatriz (estes dois últimos também integrantes de HCF) imprimem em Spitgod a nojeira da tradição de Iron Monkey e Dopethrone. O mesmo tipo de gritos viscerais, com riffs assombrosos e distorção a valer.

O ideal seria dizer que Spitgod estará um dia para o sludge como Pisschrist hoje está para o punk. Que tal, gostaram do trocadilho?

Spitgod.

E ainda que seja mais que evidente a raiva e a crueza deste trio, ainda se sentem algumas arestas por limar num projecto que não deixa de ser recente e com caminho por trilhar. Curioso será dizer que estas vossas repórteres puderam assistir ao primeiro concerto de Spitgod, no Rock Bar, há mais de um ano atrás, e ver que se distanciaram das sonoridades mais crust para se aproximarem de uma cena mais parecida com a malta da Church of Ra – Oathbreaker, Amen Ra, Hexis, por aí.

A dimensão apoteótica choca com a crueza vil de Spitgod.

No fim da noite as roupas colavam ao corpo, o chão já grudava e os ouvidos tiniam. Sampaio, guitarrista e frontman dos Madmess, encosta-se ao balcão e vai falando sobre o que motivou aquela festa.

O álbum que apresentaram naquela noite aos seus conterrâneos foi gravado e masterizado por Chris Fielding (baixista e vocalista de Conan), e os três elementos da banda sentiam a necessidade de o levarem junto de quem os viu crescer. Daí esta “tainada de bandas do norte” que quiseram montar.

E que bela tainada, como manda a tradição. Cerveja fresca, encontros e reencontros, boa música e deboche. Só faltou a suecada, mesmo. 

Texto: Zita Moura
Fotos: Ana Garcia de Mascarenhas