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AVISO: O texto que se segue descreve de forma extremamente gráfica situações de abuso de substâncias, violência física, psicológica e emocional dentro de um relacionamento. É um texto que não deve ser lido de ânimo leve, e que a CVLTO recomenda vivamente a ponderação por parte de potenciais vítimas de situações semelhantes à não leitura integral do mesmo. Estão destacadas a negrito aqueles que considerámos serem os excertos de maior violência para o leitor, no entanto esta é a nossa análise e pode ser subjectiva mediante o grau de sensibilidade individual perante estas temáticas.


Sendo a Secção de Conteúdos da CVLTO um espaço de publicação independente cujo juízo basilar assenta em que essa publicação deverá ser ditada pelas vozes que nos chegam, consideramos ter arcaboiço para aqui inaugurar uma rubrica com este perfil. Esta rubrica servirá, pura e simplesmente para a partilha, por parte de qualquer jovem que o desejar, de situações que reflictam aquelas que são manifestações reais mais duras da forma como a masculinidade tóxica se reflecte nas nossas vidas. Atravessamos, felizmente, um período de consciencialização cada vez maior sobre as questões de género. Haverá certamente um trilho sinuoso a percorrer, de longos anos e cujo fim não se avizinha no horizonte, mas que chegará. Esse trilho passará por um reconhecimento cada vez maior de que estas coisas acontecem, e que acontecem bem no âmago dos nossos meios e das nossas realidades sociais. Estes relatos pertencem a rostos que circulam activamente no meio social jovem, emergente, sub-cultural e artístico do Porto. Rostos que nos são familiares.

Este texto padece de uma correcção editorial mínima propositadamente. É aqui exposta esta história quase exactamente como nos é contada. É nosso objectivo a total abertura a um relato livre e franco, independentemente do que esse relato acarrete. Os nossos convidados estão cientes do processo de publicação, e podem ou não divulgar a sua identidade. Em caso da escolha do anonimato, apenas o elemento da equipa CVLTO directamente implicado na concretização desta rubrica estará a par dessa identidade. Os nossos convidados têm acesso ao texto antes da sua publicação em www.cvlto.pt, e podem cancelar a mesma a qualquer momento. 

 

CVLTO: Escolhemos a inauguração desta rubrica a 8 de Março de 2020. Esta rubrica será inaugurada pela Rute (nome fictício), a quem agradecemos ter escolhido a CVLTO para expôr esta situação e que abraçamos e partilhamos sororidade enquanto equipa composta maioritariamente por mulheres. Condenamos ainda publicamente a postura, mais uma vez, revoltante daquela que é a “autoridade” que se comportou como aqui será testemunhado.

 

Rute: Quando comecei a estar com esta pessoa tinha vinte e seis anos e estava solteira há cerca de dois. Tinha os meus “flirts” mas nada de mais. Na minha cabeça achava que estava à procura de uma coisa que que se viria a verificar que não estava, nem precisava. Conheci então um rapaz através da Internet, que por coincidência era da minha terra. Coisa que é rara… conhecer alguém que me interessasse e que viesse do mesmo sítio que eu. E se calhar interpretei isto como algum tipo de sinal, até porque isso acabou por criar situações em que acabava por também visitar mais vezes a minha família, por exemplo. Na minha cabeça fez todo o sentido. Começámos a falar num momento em que ele estava a trabalhar fora, e só cá estava aos fins-de-semana. Começámos a encontrar-nos nesses fins-de-semana. Ele mostrou-se automaticamente muito disponível para mim e parecia uma pessoa séria. Veio com aquela treta toda de que não era muito “de andar por aí com gajas à toa” e que preferia estar num contexto mais sério. E eu deixei-me enrolar por aí. 

Na altura eu vivia sozinha, e ele começou a frequentar com alguma frequência a minha casa. Entretanto, na Páscoa, ele conseguiu uma semana de férias do trabalho e acabou por passá-la também lá em casa. Passámos dois ou três meses nisto. Após este tempo, ele teve uma série de problemas no trabalho e também com os pais. Cada vez queria passar mais tempo no Porto comigo, e com a questão dos transportes públicos serem poucos para ele andar para cá e para lá eu, feita burra, eu oferecia a minha casa. Quando dei por ela, ele estava praticamente a viver comigo ao fim de um par de meses.

Apercebi-me que ele andava sempre em “grandes andamentos”. Inicialmente dizia que só ia estar com “o pessoal”, e que também tinha amigos no Porto, por isso não estranhei. Uma das coisas que nunca entendi foi o grande fascínio que ele tinha por bairros e pela “vida de bandido”, o que começou a ser um turn off enorme para mim. Toda a gente anda na rua e toda a gente vê como é que as coisas são. E são o que são. Daí a achar aquilo maravilhoso… Por vezes falava do Aleixo, e foi aí que começaram as minhas primeiras suspeitas. Começou por dizia que às vezes ia lá com amigos mas que “só fumavam uns”. E durante muito tempo ele aparentava estar absolutamente normal. A dado ponto comecei a senti-lo meio alterado e começou a dizer que andava a cheirar. Daí vieram as constantes idas à casa-de-banho, mesmo quando estávamos em casa. 

 

Eu estava com um Part-Time e um Full-Time ao mesmo tempo. O pouco tempo que me sobrava passava-o com ele, mas estava sempre extremamente cansada. Andava completamente a leste. Tinha meio dia de folga a cada semana, durante quatro meses. Desde o primeiro mês que ele quis logo assumir um namoro sério e eu vi a coisa quase como um contrato inocente… Já não se usa o “Queres namorar comigo?”, ou pelo menos eu não estou habituada a ter essa conversa, a coisa desenrola-se normalmente. Eventualmente tive de o confrontar acerca dos filmes relacionados com a drogaria, e de que isso era uma coisa com a qual eu não queria lidar em alguém que estivesse comigo. Ofereci ajuda, se ele estivesse interessado em curar-se. Tentei informar-me melhor sobre o tipo de consumos que ele fazia. E durante algum tempo ele tentou curar-se, mas falhava constantemente. 

 

Tinha comprimidos para tomar. Não tomava merda nenhuma. E a situação começou a piorar, porque neste ponto ele estava completamente agarrado à heroína. E aquilo assustava-me imenso. Quando era mais nova assisti a alguma malta que se enterrou mas era uma realidade com que nunca convivi de perto nem tenho interesse em conviver… E ver um moço de vinte e tal anos a fumar pó fazia-me uma confusão enorme. Estava preocupada. E ele manipulava-me imenso. Sempre que tentava acabar com ele dizia-me que compreendia mas que só ia piorar. Fazia esse jogo e exigia-me essa ajuda, como quem já está ali instalado e eu tivesse uma obrigação em não o abandonar. 

As coisas só pioraram. Os únicos momentos em que ele estava mais ou menos estável era quando não estava metido em outros problemas, e estando todo drunfado não “chateava ninguém”. E era impressionante o quão aparentemente funcional ele estava. Ia trabalhar normalmente, tudo. Depois, começou também a ter muitas flutuações de humor. Mas eu fui olhando sempre para ele com alguma esperança, como alguém que se acabou de enterrar. Nem eu fazia ideia que alguém podia estar de manhã à noite a fumar heroína e estar aqui sentado como uma pessoa normal, na conversa. É estranhíssimo. 

A dado ponto eu já estava a funcionar quase como enfermeira dele, porque o processo de cura é terrível. Tinha sete comprimidos diferentes para tomar em diferentes alturas do dia. Comecei a ganhar pena dele. Passou mesmo a ser só pena. Ele não conseguia comer, demorava mais de uma hora para conseguir mijar. Estava constantemente a vomitar. Chegou a ter uma overdose de comprimidos, porque entretanto viciou-se também nos comprimidos. Continuava a ter recaídas, ia fumar, depois tomava comprimidos, e ficava completamente doido. 

 

Foi nesta altura que começou o verdadeiro terror. Estava sempre impaciente. Estava sempre com joguinhos. Lembro-me de ter combinado um café com uma amiga e à última da hora ela desmarcou. Ele usava este tipo de coisas contra mim. “Estás a ver os amigos de merda que tu tens? Eu sou o único que está aqui para ti.”. Sempre a colocar-se neste patamar. A minha vida já não era nada sem ele. E isto era uma coisa que independentemente de ele melhorar ou não que o fez tornar-se, por este tipo de comportamentos mais do que pela droga, uma pessoa com quem eu quisesse estar. 

 

Desistiu do tratamento. Os problemas no trabalho e com a família eram cada vez mais. Nisto, começou a roubar-me dinheiro. Eu nunca lhe dei o meu código, e ele conseguiu vê-lo de alguma forma. Muitas vezes eu não ia ao multibanco durante semanas porque num dos trabalhos pagavam-me em mão, e eu estava só a deixar acumular o outro, vivendo com esse no dia à dia. Até consultar os meus movimentos e perceber que eram aos 100€ de cada vez. Eu nunca levanto esse tipo de valores. E ele sabia que eu estava com dois trabalhos precisamente para poder juntar dinheiro para mim. E quando vi as horas desses movimentos – e isto é que é incrível – percebi que eu devia estar tão depressiva, tão frustrada de estar naquela constante luta com ele, que adormecíamos juntos na cama e ele ia-me à carteira, saía de casa e às três, quatro da manhã ia levantar-me dinheiro. 

 

Obrigava-me a viver para ele. Aproveitava-se de mim. “Eu tenho um problema. Tu tens de me ajudar”. A pessoa é que se meteu nisto… Não estás obrigada a dar merda nenhuma. E finalmente acabei com ele. Passa uma semana e ele sempre a aparecer-me em casa, sempre a dizer-me que precisava de lá ficar em casa. “Isto é assim? Vais-me pôr na rua, caralho? Eu não tenho família!”. Eu estava tão cansada, tão farta de o aturar que eventualmente deixei-o ficar no sofá. Com a premissa de que se ia embora no dia a seguir de manhã, com medo que ele me roubasse mais coisas de casa.

 

Nessa noite por volta das cinco da madrugada, acordo com ele por trás de mim, deitado na cama. Fiquei automaticamente irrequieta mas deixei-o estar. Ele abraçou-me. Eu soltei-me e disse-lhe que parasse e que se chegasse para lá. Ele ficou tão passado que me deu um pontapé nas costas e me atirou da cama abaixo. Tudo o que tinha em cima da mesinha da cabeceira caiu. Levantei-me, perguntei-lhe se ele se estava a passar, e a partir daí foi um inferno. Não me consigo lembrar ao certo, mas penso que nisto ele me agarrou pela cabeça. Andou durante uma hora a fazer de mim um autêntico boneco pela casa. Estava completamente louco. Tentei ir até à porta de casa, ainda meio que fui conseguindo vestir enquanto ele me agarrava. Lembro-me de que só durante a minha tentativa de vestir as calças ele me agarrou e me tirou as calças trinta mil vezes como quem “Não vais a lado nenhum”. Sempre que eu chegava à porta ele alcançava-me e atirava-me ao chão, sempre a bater-me na cara. Sempre no chão, sempre a ser puxada para a sala. Foi surreal. Consegui por duas ou três vezes abrir a porta, e ele fechava-a. O que eu acho impressionante é que eu tenho imensos vizinhos, é um prédio grande, e não houve um único vizinho que viesse ver o que se passava apesar do barulho e da porta a bater. Eu ouvia os cães todos a ladrar. 

Ele prendeu-me, e eu já estava tão cansada que acho que foi a primeira vez que desisti simplesmente. Pensei mesmo que ia morrer assim. Estava tão fora de mim que só lhe dizia que se matasse e que me deixasse em paz. E ele respondeu-me que se matava a ele, e me matava a mim. 

Consegui ir até ao corredor do prédio. E finalmente apareceram vizinhos. Perguntaram o que se passava, mas eu senti mesmo que se estavam completamente a cagar. Só diziam coisas como: “Vocês vão mazé dormir, discutam amanhã.”. A despacharem o assunto. Nisto eu estou escondida atrás do único vizinho homem que ali estava, que ainda perguntou ao meu ex se ele não tinha vergonha de estar a bater numa mulher. Eu só dizia que me queria ir embora. E aí aproveitei para começar a descer as escadas. Começo a ouvir as portas todas a fechar quando já estou quase no rés-do-chão, e a ouvi-lo a ele também a começar a descer também. Ninguém o ia prender ali, e eu é que passei por histérica. Porque assim que dava bronca, ele vestia esta postura séria e mudava completamente. 

Desatei a correr em direcção a umas bombas de gasolina perto. Acho que estava de tal forma afectada psicologicamente que estava, na minha inocência, só a ir comprar tabaco. A bomba estava cheia de gente, e enquanto eu estava na fila o meu ex volta a aparecer, com a postura mais normal possível, a rir-se. Eu começo automaticamente a chorar, e a dizer-lhe que se fosse embora. Toda a gente a olhar. Ele a dizer-me “que me acalmasse”. Nem o senhor que trabalha na bomba, que me conhece há anos, fez nada. Ainda houve um miúdo que me disse “Ò chavala vê se achantras. Menos escândalo.” Eu tinha a cara toda magoada, por baixo do olho estava toda inchada e tinha o lábio todo rebentado. E ainda gramei com isto. 

Comecei a descer a avenida, com ele sempre atrás de mim. Eu atravessava a rua e ele atravessava também. Perguntou-me para onde é que eu estava a ir, e eu disse-lhe que “agora só paro na polícia”.
“Vamos lá, então! Vamos lá.”. Sempre numa de me desafiar.

Não é que olho para o meu lado esquerdo e está um carro da polícia a passar? Atravessei a estrada e os carris do metro, corri até ao carro e consegui fazê-los parar. Primeiro tentaram acalmar-nos, um deles – que foi o que me pareceu compreender um pouco melhor a situação – colocou-se imediatamente à frente do meu ex. “Não quero falar com esse gajo. Eu só me quero ir embora.”. Eu estava tão exausta que era só isto que dizia em loop, escondida atrás do carro. 

“Vocês têm de ir cada um para o seu canto… Amanhã conversam melhor e resolvem os vossos problemas.” 

A polícia disse-me isto tantas vezes. Comigo a contrapor que foi ele quem me rebentou o lábio e a dizer-lhes o que ele me tinha feito em casa. Comigo também a passar mais uma vez por histérica, enquanto ele fazia de novo o papelzinho de calmo. 

“Isso não foi bem assim… E eu não me posso ir embora, eu moro em casa dela. E tenho lá as minhas coisas. Porque não é só ela que vai trabalhar de manhã.” 

Só mentiras. E eu contrapunha que ele não vivia em minha casa, e que não era assim. E o outro nabo do outro bófia, ainda me pergunta: “Pronto menina, o que é que fazemos?”

O que é que fazemos?!

“É que ele tem as coisas em sua casa. Só se quiser que o acompanhemos enquanto ele tira de lá as coisas.”
Aceitei. Não é? Era a opção que tinha. Foi a primeira e única vez que andei num carro da polícia, ou que se quer a polícia esteve em minha casa. Olha, até tinha ganzas e tudo, nem quis saber tal era o meu desespero, não pensei em nada, só queria que ele estivesse longe, sabes? Quando abri a porta de casa, aquilo estava um autêntico cenário de guerra. O meu cobertor da cama estava na cozinha, que é no extremo oposto ao quarto. Estava tudo espalhado, tudo pelo chão. Os meus gatos entraram num pânico tal que não saíam de debaixo da cama com o medo. Aqueles gajos só olhavam para todo o lado, mas nem perguntaram nada sobre o que estavam a ver. Continuavam só insistir com a mesma treta: “Pronto, vocês depois falam melhor das coisas…”
“Não tenho nada para falar com esta pessoa!”
“Mas pronto, se ele depois voltar e quiser falar mais tarde…”
Sempre esta condescendência. Eventualmente lá me disseram que “se se justificasse”, se se justificasse… poderia recorrer a uma ordem de restrição. 

Ele nunca mais se despachava, só a tentar ganhar tempo. A polícia insistiu que o levava no fim, e eventualmente foram embora. 

No dia a seguir notei que o gajo me tinha roubado uma chave sobressalente. Que estava escondida, já de propósito, dentro de um armário! Tive de mudar logo nesse mesmo dia a fechadura, com medo que ele me entrasse casa adentro. 

 

Depois deste episódio, veio a nova fase. Que foi a fase igualmente horrível do stalking, que durou mais meio ano. Estava sempre com medo. Com medo que ele me entrasse dentro de casa, a olhar por cima do ombro constantemente para verificar que não tinha ninguém a vir atrás de mim. Entretanto ele fez amizade com um dos vizinhos do meu andar, cuja porta é colada à porta do elevador. Ou seja; cada vez que precisava de entrar ou sair de casa tinha de passar obrigatoriamente por ali. Levava com ele quase todos os dias.

Ainda durante o nosso relacionamento nós nunca saímos muito à noite no Porto. Oficialmente ele nem sabia muito bem onde é que eu parava. O ponto de referência era a minha casa, e durante dias e dias abria a porta do prédio para sair de casa e lá estava ele à minha espera. Tinha de andar sempre a escorraçá-lo, e só em contextos de muita gente é que ele ganhava um pedaço de vergonha na cara. Ainda assim, eu comecei a perceber que vizinhos, colegas de trabalho já estavam a topar que se passava alguma coisa muito estranha por muito que eu tentasse disfarçar. Na altura eu trabalhava num posto de turismo em frente a S.Bento, e tantas vezes que estava no computador a trabalhar e começava a sentir-me observada, que havia ali alguém a “colar” em mim. Olhava e lá estava ele na entrada da estação, completamente vidrado. Já noutro trabalho, este na Ribeira, continuou a fazer-me o mesmo. Aí já vinha mais manso e dizia que queria falar comigo. E eu ignorava. E muitas das vezes vinha com a jogada de me devolver o dinheiro… Chegou a ter a lata de entrar e a dar-me uma nota de vinte… Um gajo que me roubou às centenas.
Pensei que ia ficar louca. Nunca soube o que era paranóia até aí. Dava por mim a olhar de repente para trás, mesmo estando com um grupo de amigos a andar na rua. Às vezes era ele, às vezes não era… Comecei a ficar extremamente obsessiva com isto porque ele aparecia em todo o lado. Na altura a minha mãe soube destes filmes. Todos os dias durante meses, ainda estava a pegar na minha mala para sair do trabalho e ela já me estava a ligar e a fazer questão de que fosse em chamada com ela até casa. 

Dormia tão mal. Decorei os barulhos todos daquele prédio. Num dia pior, bastava ouvir o barulho do elevador a chegar ao meu andar para entrar em pânico. Saía do elevador no piso abaixo ou acima e ia descalça pelas escadas, e o único barulho que fazia era mesmo a abrir a porta de casa e a trancar-me por dentro. Estava sempre trancada dentro de casa, coisa que em cinco anos em que vivo naquele apartamento, nunca fiz. Coisas tão simples quanto receber uma encomenda e o carteiro ficar a pressionar a campainha mais tempo eram motivo para saltar da cama e entrar quase em pânico, de coração aos saltos. Isso era uma das coisas que ele fazia; eu em casa, de luzes apagadas para ele não perceber que eu estava, e ele a tocar, a tocar, a tocar à campainha. Não podia ir à minha própria varanda. Não me sentia bem para fazer coisas básicas como ir ao supermercado. As minhas folgas eram passadas em casa, trancada, de televisão no mínimo. Perdi a minha independência. 

 

Durante este processo comecei a entrar numa “fase de borracheira”. Saía do trabalho e a minha estratégia era não ir imediatamente para casa para não levar com ele. E estava sempre a pensar que uma, duas semanas, ele iria parar com os consumos e que assim que voltasse ao normal ia parar com isto, ia desistir. E passam semanas e semanas e o gajo sempre, sempre a persistir. A ligar-me dia e noite, de uma série de números diferentes porque nisto já tinha bloqueado o dele. Isto é tão doentio que ele já sabe o meu número de cor. Passaram-se dois anos desde isto. Até hoje, continuo a receber mensagens de números diferentes, que só de ler a mensagem sei logo que é ele. A última vez foi há duas semanas. A desejar “Bom Natal e Boas Entradas”. Há três ou quatro meses recebi uma mensagem a dizer que me tinha deixado uma encomenda no correio. Não estava assinada, era um número que não estava gravado, e eu percebi logo. E isto são tudo estratégias para suscitar interesse, à espera de uma resposta. Durante dois ou três dias ainda fui ao correio ver se realmente aparecia alguma coisa. Nada. Mas só isto, já me intimida. Já implica que conseguiu entrar no prédio. 

 

E continua a condicionar a minha vida. Recentemente aluguei um quarto a uma miúda. Decidi deixar passar uns dias, ganhar alguma confiança com ela e duas ou três semanas passadas tive de abrir o jogo. O que é uma merda, mas tenho de o fazer até por segurança dela. Tive de a avisar de que se, por exemplo, alguém vier bater à porta e dizer que é meu amigo e que está à minha espera, ou algo assim, não dá para confiar. Depois é isto, estás sempre a fazer conjecturas porque inevitavelmente já esperas tudo. 

 

CVLTO: Achas que as pessoas à tua volta têm noção da gravidade daquilo por que passaste?

 

Rute: Não.

Eu consigo descrever as coisas desta forma. Mas também posso camuflar parte. Porque no fim de contas, mesmo que eu a conte o mais fiel possível, as pessoas não vão perceber, sabes? Já falei com outras pessoas que sofreram abusos. Mas quando as pessoas são vítimas de coisas deste nível ainda têm muita vergonha de falar sobre isso. Ser arrastada pela minha própria casa durante uma hora, enquanto tento fugir? É surreal… Ainda hoje agradeço ter conseguido sair dali. E tudo o que veio posteriormente… Quer dizer, tu finalmente consegues aceitar que tens de acabar com aquilo. Tentas fazê-lo. E a outra pessoa não sai da tua vida, continua a insistir numa coisa que está morta. A forçar não sei o quê, como se nada disto tivesse acontecido, ou mesmo assumindo que aconteceu, tratando o assunto como se fosse normal.
“Aconteceu uma vez…”

Uma vez. A ser arrastada pelo chão. A ser desacreditada pela bófia. Chegou a dizer-me: “Tu também tens muitos defeitos…”. Ah, sim, obrigada. Isso justifica o quê? E estas pessoas muitas vezes nem percebem que fazem algo de errado, não percebem que manipulam os outros. Eu é que estive sempre errada na ótica dele. 

 

CVLTO: Tens algum conselho para alguém que passe por uma situação destas? 

 

Rute: Há muitas ajudas. Mas acho que depende das fases. A fase da “bolha”, em que ainda parece tudo muito bonito quando estás lá dentro, tu não queres muito ouvir aquilo que os amigos têm a dizer. Ele levou-me a tal desgaste e cansou-me tanto que aquilo acabou por durar tão pouco… Se calhar porque era eu. Não sei. Mas aquilo facilmente se tornava uma situação de anos. O mais importante é contrariar isso. Por mais que custe, partilhar. Pelo menos com amigos. Coisas que pareçam mais esquisitas. Porque quando dás por ela, começas a achar que estas atitudes são normais. E eu ainda levei com alertas de algumas “red flags” por parte de amigos, mas foi num tom de brincadeira. Porque acho que também ninguém contava com isto nem se tinha apercebido de nada. Ele também não conhecia muita da minha malta, nunca o cheguei a apresentar a maior parte deles. Era difícil eles poderem estar a avaliar. Mas notei que me comecei automaticamente a afastar muito do meu grupo. Se calhar se não me tivesse isolado tanto… Mas o gajo começava logo com filmes de ciúmes. 

Também é importante perdoar que quem está à tua volta não se tenha apercebido. Porque tu não gostas desse papel de vítima. E por muito que não queiras assumir, é isso que foste. E quando és uma gaja que à partida é forte, que lidas bem com as coisas, as pessoas chocam-se e olham para ti de outra forma. Ouves coisas como: “Tu? Mas como é que deixaste isso acontecer?” Ou “Como é que deixaste isso chegar a esse ponto?”. E aquilo foi uma coisa que descambou completamente numa questão de dois meses. 

Nunca me faltou gente para me acompanhar a casa por segurança, ou para me levar à paragem de metro, ou mesmo para estarem em chamada comigo até chegar a casa. Mas há estas perguntas. E também há alguma falta de noção do problema que se espelha em conselhos como: “Oh, se ele vier atrás de ti… Ignora. Não ligues.”. Aquelas soluções muita simples… As pessoas não podem perceber, a não ser que passem por isto. E dizem-te: “Mas queres que vá aí ter? Queres que vá para tua casa?”, e sim, são tudo ajudas. Mas ao mesmo tempo não ajuda merda nenhuma. Porque tu também não queres ser dependente, queres é recuperar a tua independência.

A parte mais difícil foi a resistência. O nunca ceder. Sempre na esperança que ele desistisse. Que nunca desistiu até hoje. Vê-lo, já não o vejo há mais de seis meses. 

 

CVLTO: Durante este processo, em momento algum ele aceitou que precisa de ajuda?

 

Rute: Não sei. Não me chega essa informação. Não sei sequer se ainda consome, se está pior ou melhor. Desde o dia que aqui contei, não voltei a trocar com ele uma única palavra. Porque nada destas tentativas são sinceras. Quer desculpar-se, mas não é para ti. É para ele se sentir melhor. Por isso é que o maior preço que ele vai pagar é o meu silêncio. E espero que se recorde muito bem disto, e que pelo menos sirva para não voltar a acontecer com outra mulher. Eu achava que tinha um ou outro “trauma” diga-se normal, de outras relações. Mas isto obrigou-me a literalmente alterar a minha vida durante um ano. Ainda hoje em dia sou relembrada de que isto aconteceu porque quando és obrigada a por amigos, colegas de trabalho e família ao corrente, as pessoas perguntam. Ainda tenho de gramar com essa lembrança.

 

CVLTO: Como estás, hoje em dia?

 

Rute: Tornei-me “pro” no desapego (risos). Estou a brincar… Finalmente consegui apaixonar-me de novo. Depois do que passei por causa desta pessoa quando consegui reclamar de novo a minha vida e independência acho que nunca estive tão bem comigo e tão feliz. Estou tão orgulhosa de mim. Aquilo aconteceu, mas consegui sair. Com muito esforço mas consegui. E acabou por ser uma oportunidade para repensar aquilo que é a vida. Adoro estar sozinha. Ninguém me consegue fazer rir mais do que eu própria. Ninguém me vai fazer mais feliz do que eu própria. E “nunca digas nunca” mas nunca mais me vai acontecer isto. 


Por considerarmos este tema extremamente sensível, são bem-vindas sugestões para o prolongamento desta rubrica. Essas sugestões devem ser enviadas para hey@cvlto.pt

Temos ainda interesse num colaborador que tenha experiência – académica ou não – em questões de género.

 

Entrevista de Ana Garcia Mascarenhas