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#QuemPensa é Sérgio Morais: A Vila das Maçãs

#QuemPensa é Sérgio Morais: A Vila das Maçãs

Gostava de ver um melão que fosse a ser apoiado e levado a sério na vila das maçãs.


Era uma vez uma vila cujos habitantes não sabiam da existência da fruta. Desconheciam, por completo! Certo dia, um homem chegou à vila com algumas maçãs e começou a vendê-las para usufruto dos locais.

“Que bela fruta”

          diziam; e bem, porque as maçãs eram realmente boas.

Pasmados com esta nova descoberta os comerciantes da área decidiram também começar a vender maçãs para terem uma parcela do negócio; umas mais farinhentas, umas mais podres, mas não interessava, era fruta!

Meses depois alguém descobriu um pêssego e como gostou tanto do seu sabor decidiu partilhar a sua descoberta com os seus conterrâneos, vendendo este novo fruto no mercado. O que este senhor não percebeu foi que, para grande parte da comunidade (incluindo os seus colegas comerciantes), o pêssego não era fruta, mas sim uma afronta ao negócio ou qualquer outra coisa não comestível – um roubo, uma brincadeira de criança.

Claro que alguns não se deixaram levar por cantigas e provaram o pêssego, comprovando que era realmente delicioso. Porém isso não bastou para manter o senhor dos pêssegos pela vila que, desolado, partiu para outro local para vender o seu fruto a quem não olhasse de lado só por ser diferente.

Assim, a vida na vila continuou: os comerciantes ficaram ricos e geriram os gostos do resto da população, que passou os restantes dias a acreditar piamente que a única fruta existente era a maçã, contrariando toda a gente que tentasse refutar esse facto.

Nunca dizendo que a maçã não sabe bem, podemos concordar que é uma pena que este povo imaginário nunca tenha provado qualquer outra coisa, sei lá, maracujás ou bananas.

De qualquer das formas, isto não faz lembrar alguma coisa não-imaginária? Alguma coisa que se passe em Portugal, talvez. Assim, parecida com o negócio da arte e entretenimento? A mim faz… Eu vou cingir o meu comentário, para não me alongar muito, aos livros (que, de todos os casos que poderia falar, até deve ser o menos grave).

Qualquer um pode gostar do que quiser, obviamente, mas quando é que os meninos e meninas que possibilitam a venda de livros em massa vão começar a apoiar quem tem algo a dizer e não a mesma cantiga do costume? E não me venham dizer que se vende é porque é bom, porque aí, meus amigos, estão redondamente enganados e vocês sabem disso. Todos os autores merecem uma oportunidade e reconhecimento pelo seu trabalho se assim se justificar, pela qualidade da sua escrita e não pelo quão se inserem nos padrões “vendáveis” do que é agora o mercado.

A gente anda a comer a mesma estória desde os anos noventa, pá!

O mesmo livro, escrito vezes e vezes e vezes sem conta!

Se eu tiver influência suficiente e vender o mesmo livro com nomes diferentes, então as pessoas que confiam em mim para que lhes diga o que ler vão acreditar que só essa estória é que vale a pena. É a merda das maçãs outra vez! Ofereçam coisas diferentes, por favor!

Há tão boa gente a fazer tão bom trabalho que vender mais um romance sobre o amor proibido que vence todas as batalhas, ou uma amálgama de palavras eróticas que culminam numa estorinha sobre a fugacidade das relações, ou outro livro sobre a história dos três grandes do futebol português, ou mais uma biografia do presidente da república, ou uma adaptação do Harry Potter onde só há cavalinhos e aloe vera, ou mais um livro de coaching do Gustavo Santos parece um exercício desnecessário de facilitismo e quase um louvor à falta de cultura.

Ensinem-nos. Ou se não quiserem ensinar pelo menos não nos atrasem. Metam a carapuça se precisarem de a meter, ou nem sequer pensem nisto; a realidade, para mim, é que gostava de ver um melão que fosse a ser apoiado e levado a sério na vila das maçãs.

 

Ana Durão – Purgatório