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#QuemPensa é réu: “Relva”

#QuemPensa é réu: “Relva”

para mim nunca foi “a fonte” de duchamp, o tecto da capela sistina de michelangelo, nem a "persistência da memória" de dali, mas sim três bocados de relva.


o que é a arte?

todos aqueles que são criaturas minimamente pensantes já tentaram responder a isto. ainda ontem discutia isto entre copos: como é que definimos arte?

 

ia para a fnac de santa catarina folhear livros de arte como quem estuda a coisa

ora, eu estou nas artes há mais de dez anos, oficialmente, e antes disso já pensava no assunto, porque querer ser artista não é, na minha opinião uma questão de querer, é uma questão de instinto e necessidade.

e no meu (demasiadamente longo) percurso académico, devo ter tido bem mais de cem disciplinas e só há uma semelhança entre todas: a primeira pergunta que todos os professores colocam, em tom de debate, era “o que é a arte?” – aposto que, se estudaste artes em algum ponto da tua vida, estás neste momento a revirar os olhos ou a acenar leve e afirmativamente com a cabeça.

vamos só aceitar que nunca vai haver um consenso? pronto!, o primeiro ponto está resolvido.

no entanto, todos concordamos que há obras que não nos saem da cabeça. para mim nunca foi “a fonte” de duchamp, o tecto da capela sistina de michelangelo, nem a “persistência da memória” de dali, mas sim três bocados de relva.

há uns anos atrás, quando comecei a estudar artes, não tinha internet em casa e também nunca tive muitos livros caros da taschen; então ia para a fnac de santa catarina, sentar-me no chão, a folhear livros de arte – como quem estuda a coisa, mas mais fixe que uma biblioteca. ficava lá tardes inteiras e desconfio que era gaja de até faltar às aulas para fazer isso.

sem falarmos, pegamos num pedacinho de relva.

certo dia, devia ter eu quinze ou dezasseis anos, lá fomos eu e a carolina passar uma tarde na fnac. quando chegamos à secção de arte começamos a ver o que havia de novo e lá na prateleira, bem arrumadinhos, estavam três pedaços de relva, ainda com terra, bem embaladinhos em plástico, e com uma etiqueta autocolante da fnac nas traseiras, que marcava um preço de 0,00€.

eu e a carolina olhamos uma para a outra e, sem falarmos, pegamos num pedacinho de relva.

na fnac. (ok?). analisamos.

tinha na etiqueta, para além de um código de barras e do preço, o endereço de um blog. depois de coisa de cinco minutos a tentar perceber aquilo, cada uma pegou num pedacinho de relva de tamanho A5 e fomos até à caixa; da fnac; com dois pedaços de relva A5; à venda; na fnac.

consegues imaginar a cara do pobre coitado que nos atendeu e a cara dos dez funcionários que vieram olhar para os dois pedaços de relva.

a gerente disse-nos que podíamos ir e levar a relva connosco. como é óbvio, assim o fizemos.

fomos até ao piolho beber uns finos; nós e a nossa relva.

no blog só tinha um vídeo muito chunga, em ponto de vista subjectivo, de alguém a pôr três pedaços de relva na fnac. nunca soube quem foi a pessoa que fez isto e se tentar encontrar o blog só vou perder a vontade de viver.

mas a verdade é que são seis e meia da manhã, mais de dez anos depois e aqueles três pedaços de relva ainda me atormentam.

mas bem, o que é arte, né?

 

RÉU

 

Hamenomus III – Andreia Pinho