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#QuemPensa é Sérgio Morais: “Carta de Amor ao Stop”

#QuemPensa é Sérgio Morais: “Carta de Amor ao Stop”

"A nossa voz não devia estar em jaulas, devia abafar a cidade toda, como diz o meu amigo da 144."


Querido Stop,

Por isso, meu amor vertical, aceito-te com os furos no teto, as casas de banho estragadas, as escadas rolantes paradas, a chuva que entra em ti, e todas as falhas que alguém encontrar; porque mesmo sendo assim, és mais importante para este pequenino país que qualquer outro centro comercial.

Conheces-me a fundo. O teu cabelo cheira ao mais doce dia de primavera. Não há poema no mundo que descreva o que eu sinto por ti. Meu amor, eu… Ok, vou parar com a palhaçada. É verdade que te adoro profundamente, mas vamos ter calma. Que merda de carta de amor. Condiz comigo.

Não sou comentador político, nem jornalista de renome, nem coisa que o valha. Sou um gajo que olha para as coisas e, qual velho numa cadeira de baloiço no alpendre de sua casa, comenta. Um perlustrador rabugento, se assim quiseres. Tendo esta ligação quase obscena contigo, minha casa das artes, não seria um voyeur de jeito se não te escrevesse.

Stop, dentro das tuas paredes acontecem coisas inimagináveis. Como se, depois daquele portão só houvesse lugar para a criação. Começamos esta relação há coisa de oito anos e eu só tenho de te agradecer por me teres feito crescer e por me teres dado os tomates para continuar a batalhar por um sonho tão grande que tenho. Porém, acho que nesta história os maiores heróis são os que te salvaram dos anos noventa, permitindo que eu e muitos outros te conhecessem como “a verdadeira casa da música”; um sítio único, irrepetível, eterno. Dos cachorros do Sr. António, para as minis do Vitamena, para os bons-dias acenados para o guichê do segurança, para os autocolantes do elevador numa batalha acutilante para se manterem intactos, para a sala onde tudo acontece, tu sempre te mantiveste firme, mostrando que a arte é inabalável, mesmo quando há outros interesses em jogo.

Eu sei que não sou o teu único amante, mas neste caso eu consigo aceitá-lo bem, não te preocupes. Eu e os meus colegas amamos-te por igual, e por isso é que resulta. Quem não te ama é quem não trata de ti. Quem não nos dá garantias de que tu nunca deixarás de estar aqui para nós e para os próximos. Quem não percebe que há mais valor na cultura e na transcendentalidade da arte do que em mais um hotel, ou shopping center catita, ou parque de estacionamento, ou qualquer outro apanágio capitalista. Quem não te ama é quem não vê utilidade em ti.

É que há quem olhe para a tua nudez e veja rebeldia e maldizeres; só que essas pessoas não te conhecem como nós, e não se dão ao trabalho de perceber o que está à frente dos olhos deles. Se um dia te levarem ao salão de beleza até os cegos vão ver, ouve o que te digo.

Mas eu não posso dizer que estou isento de culpa por estares assim. Às vezes nós, que te habitamos, podíamos fazer mais por ti, como fizeram os da associação, ou os da StopEstra. A nossa luta por ti devia ser contínua e fervorosa, como tu. A nossa voz não devia estar em jaulas, devia abafar a cidade toda, como diz o meu amigo da 144. Nós podíamos ajudar-te mais, porque não fomos só nós que te salvamos, tu também retribuíste o favor. E não é que eu não saiba que estou a hiperbolizar isto; apenas estive este último ano todos os dias contigo e às vezes custa-me saber que podemos dar-te como garantido quando não é esse o caso – e acredita que sei muito bem quais são as consequências de dar alguma coisa por garantida sem ela estar, não fosse eu masturbar-me quando fechar o computador. Não existem mares de rosas, mas existem pessoas bem perfumadas que te podem ajudar a ser melhor, eu sei disso. Basta quererem e não estarem sozinhas.

Por isso, meu amor vertical, aceito-te com os furos no teto, as casas de banho estragadas, as escadas rolantes paradas, a chuva que entra em ti, e todas as falhas que alguém encontrar; porque mesmo sendo assim, és mais importante para este pequenino país que qualquer outro centro comercial. Se calhar se houvesse menos sítios a louvar a roupa da moda e os relógios caros, e mais cultura, interesse e conhecimento, não estaríamos a passar este momento estranho que passamos a nível social – mas isso já são outros quinhentos, ou quinhentos mil.

Com todo o meu carinho,
Sérgio

 

Fechado para obras – Cinara Pisco