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#QuemPensa é Mariana Rosária: “Animais ao metro”

#QuemPensa é Mariana Rosária: “Animais ao metro”

“Não te esqueças que o homem também é um animal”

 

Às vezes, as pessoas proferem, normalmente em conversas de teor político, “não te esqueças que o homem também é um animal”.
Quem alguma vez se esqueceu disto, claramente não frequenta transportes públicos. O pessoal fica uma besta. Falta um minuto para o metro chegar e toda a gente se mete em posição de gato em ataque. Patas para a frente, abanam o cuzinho e mal as portas se abrem, salta tudo lá para dentro. Se cais no erro de mirar alguém nos olhos, bufam-te.

Depois, quando entras, há aquele jogo da cadeira versão 3.0. Corre-se à volta dos bancos, a ver quem fica de fora quando pára o som de fecho das portas. Há pessoas a furar a multidão com os cotovelos, malta com as malas a proteger a cara dos golpes de Krav Maga de velhas de 80 anos. Está um anão a dar cabeçadas em canelas alheias para poder passar. Há miúdas que não são indianas em fila indiana e indianos a agir como miúdas.

E depois vem o momento da saída. E tu já sentes aquela ansiedade. Tens que te levantar e correr em conjunto harmónico com a multidão desenfreada e só tens uma chance para o fazer direito. Há toda uma questão de vida ou morte, de fuga ou luta. Ai se te descola a sola dos sapatos da Primark. Ficas sujeito a falecer. Verdadeiramente. E pior que isso, a arrependeres-te de ser um sovina que prefere dar 10 paus por calçado de má qualidade, sabendo dos riscos diários.

Imaginemos a cena do Rei Leão em que o Mufasa cai e é atropelado por uma manada de antílopes (ou búfalos, ou gazelas, nunca percebi a biologia da coisa). É isso que acontece caso caias no metro à hora de ponta. Na eventualidade de tropeçar, uma pessoa tem que dar tudo por tudo, para não se esbardalhar ali no meio. Vale usar nucas de criança como bengala e fazer placagens.

A hora de fecho do metro é tão cedo exactamente por causa disso. Há toda uma equipa de limpeza da 1h as 6h da manhã a descolar bublicious de menta e

 

crânios de velhas do pavimento. Não é tarefa fácil.

Sem título – Daniela Doe

Texto de Mariana Rosária