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#QuemPensa é Judite: “Alquimia”

#QuemPensa é Judite: “Alquimia”

que estranho é estar triste.

para quem sempre converteu alumínio em chumbo, e água em sal, mas nunca ferro em ouro, que estranho é estar triste.

e o sal seca a pele, e o ferro é baço, e o ouro é virtualmente inútil.

quando me sei núcleo de ouro que quando mordido sabe a ferro, como o sangue sabe.

que estranho é estar triste quando a tristeza sempre me soube a metal e marcas nos dedos.

que estranho é estar só com lágrimas que teimam em fazer arder os olhos.

um dia escrevi que senti ácido nos olhos e que quando a visão ficou turva me pregou a mais cruel partida do mundo.

hoje elas queimam menos do que queimavam então. quiçá porque lhes ganhei calo.

quiçá porque o ouro começa a parecer palaca, e o ferro já sabe a mim própria.

 

que estranho é estar triste quando tudo o que se conhece é a ira.

 

que estranho é sentar-me no sofá com o ferro que sou, e partilhar um cigarro com ele, em vez de o bater até ele se confessar outra coisa que não o que é.

que estranho é dizer a uma alquimista que a natureza das coisas é perfeita como é, e deve ser preservada enquanto tal.
que maldoso é, também.

que maldoso que digam a uma alquimista que ferro e ouro são coisas fundamentalmente iguais e intrínsecamente diferentes, e que uma nunca poderá ser a outra sem que se destruam.

que estranho é aceitar que ferro e ouro vivem em mim, e que tenho que os aceitar tal e como são, quando as lágrimas queimam o rosto como ácido, e o sal seca a pele, e o ferro é baço, e o ouro é virtualmente inútil.

 

que estranho é estar triste quando tudo o que se conhece é raiva.

 

que estranho é dizer à raiva “espera, não é a tua vez”.

 

que estranho é ser-se alquimista e rejeitar-se o que se contrói para se aceitar o que se é naturalmente.

que estranho é estar triste e aceitar a tristeza tal e como ela é.

sem artilúgios, sem ouro nem ferro, sem murros na parede, sem brados aos céus, sem linhas serpenteantes.

só com lágrimas ácidas e sal que seca a pele.

 

que estranho é lavar o rosto.

Judite

 

Black marks – Daniela Guerreiro