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#QuemPensa é Inês Dias – Parte II

#QuemPensa é Inês Dias – Parte II

Num século onde chovem dick pics e temos dias lindos de nudes o que é que ainda é pornográfico?


Pela sua extensão, este ensaio foi seccionado em duas partes – a primeira está disponível aqui.

Qualidade Artística

Um aspecto racional regularmente usado por historiadores da arte é a unidimensionalidade da pornografia em comparação com a multidimensionalidade da arte. A razão desta consequência está diretamente relacionada com o facto da pornografia ter primeiramente o intuito de excitar o seu público, deixando outras interpretações num plano secundário, enquanto que a arte vive das suas múltiplas interpretações. A mesma crítica pode ser apontada a cartoons, onde a principal preocupação é expor uma opinião crítica de forma humorística. No entanto, considerarmos que a única razão para a existência de conteúdo pornográfico é apenas satisfazer a nossa libido, torna-nos a nós unidimensionais, não ao conteúdo em si. Deste modo, estaríamos a rejeitar toda a possibilidade deste apresentar uma crítica social ou cultural e para isso teríamos que excluir obras como “A História de O” ou a História do Olho, que exploram estados extremos de sentimento e consciência humana.

Egon Schiele, “Mulher agachada com cabeça reclinada”, 1918

Tanto os artistas como os pornógrafos trabalham com o mundo ficcional, mas as criações imaginativas dos artistas oferecem uma maneira de perceber e compreender a realidade em que vivemos, enquanto que a fantasia na pornografia procura reformular a realidade como o objecto obediente dos nossos desejos.

Em seguimento deste argumento aponta-se o facto da pornografia ser formulada e a falta de originalidade nela presente. Num filme onde o orçamento é dado com base no número de imagens com conteúdo sexual explícito, é razoável pensar que o realizador tente encaixar o máximo dessas cenas possíveis nas filmagens. Mesmo argumentando que toda a pornografia é formulada, nada prova que esta põe em causa a sua originalidade. A Catedral de Colónia, situada nessa mesma cidade Alemã, é um claro exemplo da arquitectura gótica. Apesar dos vários exemplos desta arquitectura espalhados no mundo, esta não perde o seu valor artístico nem condiciona a sua originalidade por ter sido projectada com base numa fórmula pré-existente, inúmeras vezes reproduzida. Outro exemplo formulado são as comédias românticas Americanas que são construídas através de sete momentos chave: the setup; catalyst; turning point; midpoint; second turning point; crisis climax; resoluto. Apesar de ser discutível considerar este género cinemático arte ou não, não impediu Notting Hill que segue esta simples estrutura de se tornar um sucesso. E para além disso, fazer milhões para a industria de Hollywood.

O que nos leva a um terceiro ponto, a produção em massa de um produto em oposição à criação única artística. Enquanto a arte é considerada uma criação única, a pornografia é considerada um produto industrial. Este argumento talvez fosse válido se nos estivéssemos a referir aos produtos IKEA, ou se Andy Warhol não tivesse produzido exactamente dessa mesma forma as suas obras partir do momento que criou THE FACTORY . Aliás, foi através dessa forma de produção que a obra “Campbell’s Soup” se tornou tão divulgada e catapultou a sua carreira.

Picasso, “As meninas de Avignon”, 1907

O quarto aspecto apontado é a falta de preocupação estética presente na pornografia. Citando Freud: ‘the genitals themselves, the sight of which is always exciting, are hardly ever regarded as beautiful’. Consequentemente, a arte cai na sugestão destes, enquanto a pornografia explicitamente os revela. Devemos então excluir os desenhos de Jean Dubuffet, Picasso ou até representações mais realistas com as de Tom of Finland, entre outros.

Esta acusação está diretamente relacionada com a separação entre a fantasia e a imaginação. Tanto os artistas como os pornógrafos trabalham com o mundo ficcional, mas as criações imaginativas dos artistas oferecem uma maneira de perceber e compreender a realidade em que vivemos, enquanto que a fantasia na pornografia procura reformular a realidade como o objecto obediente dos nossos desejos. Na pornografia é-nos apresentado um grupo de pessoas atraentes segundo o que estiver na moda, com uma libido infinita. Em contraste, arte não só apresenta como educa o nosso gosto.

Estas opiniões são refutadas por Linda Williams, apontando que se subestima seriamente a imaginação se considerarmos que ela só pode operar na ausência ou apenas na menor sugestão da representação de sexo. Mas, mesmo que isso se revele verdade e fingíssemos nunca ter visto uma pintura de Klimt, não seria razão para excluir a pornografia de um status artístico, a menos que se adira a uma forma extrema de moralismo e se pense no valor moral como o único determinante do status artístico ou do mérito artístico.

Resposta Prescrita

Foca-se em comparações como o valor instrumental da pornografia versus o valor intrínseco da arte. Isto é associar a pornografia a uma necessidade, que depois de satisfeita não tem qualquer valor, fazendo do seu espectador um consumidor. Em contraste a arte convida a consciência do leitor (ou espectador) para colaborar consigo própria no que é basicamente um esforço criativo conjunto. Mas se apreciação e consumo fossem características mutuamente exclusivas não poderíamos comer uma boa refeição, que ao mesmo tempo que nos alimenta, também pode ser deliciosa e cuidadosamente apresentada. Portanto esta acusação não pode servir para distinguir arte e pornografia.

Ser premiado com o estatuto artístico traz consigo prestígio social e o reconhecimento institucional que evitaria futuras censuras, que mais tarde causariam arrependimento quando o seu criador atingisse o seu estatuto como artista.

Último aspecto apresentado trata-se do despertar sexual versus a experiência estética. Jerrold Levinson argumenta: ‘the set of pornographic artworks is an empty set because art is centrally aimed at aesthetic experience, which essentially involves attention to form/vehicle/medium/ manner, and pornography is centrally aimed at sexual arousal, which essentially excludes or wars against attention to form/vehicle/medium/manner.’ Como já foi aqui mencionado no primeiro ponto, Scruton apresenta uma posição semelhante a Levinson. Mas se isto fosse realmente verdade “Lady Chatterley’s Lover” de D.H. Lawrence só poderia ser apreciado ou pelo seu bom uso gramatical e composição, ou pela emoção e energia sexual que desperta. Nunca simultaneamente pelos dois. Isto seria dizer que um pornógrafo, depois de concluir a sua criação, só ficaria feliz se o seu público ficasse excitado sexualmente com o seu trabalho. Excluindo que como artista, este queira despertar e abrir o seu público a novas percepções e desejos da sua própria sexualidade.

 

Implicações práticas ou ‘Porque é que isto importa?’

Jean Dubuffet, “A Árvore dos Fluidos”, 1950

Esta discussão entre Pornografia e Arte tem sido uma história inacabada durante anos, sempre que existe abertura para falar sobre o assunto em sociedade, não perdura o suficiente para a concluir. Lembrando como exemplo os desenhos de Egon Schiele queimados por um juiz sobre uma vela em tribunal, por serem considerados pornográficos. Para poder futuramente evitar situações idênticas é importante haver abertamente um estudo das características, qualidades, estética e história tanto da pornografia como da arte. O que neste momento teria de ser um processo autodidacta visto que nenhum curso de arte inclui pornografia no seu programa de estudos. Sendo como a palavra indica uma grafia, esta pode ser aprendida e utilizada como uma técnica de expressão, tal como pintura, escultura, literatura e outras artes. Ser premiado com o estatuto artístico traz consigo prestígio social e o reconhecimento institucional que evitaria futuras censuras, que mais tarde causariam arrependimento quando o seu criador atingisse o seu estatuto como artista.

Outra vantagem seria deixar de se atribuir uma conotação negativa aos seus participantes, principalmente os seus actores que são rotulados como porn stars dentro e fora da indústria e por isso tratados de diferente maneira pela nossa sociedade. Com o estatuto artístico haveria mais educação sobre não só o tema ‘pornografia’ e a distinção entre outros tipos de trabalhos sexuais mas também a sexualidade em si. Com uma sociedade cada vez mais precoce e aberta à exploração da sua sexualidade não deveria ter as suas opções limitadas a livros como ‘50 shades of Grey’. Se é para ler contos eróticos no metro que sejam bem escritos com informação fidedigna do assunto que se está a tratar (BDSM), em vez de uma versão fantasiada, abusiva e distorcida que surgiu de uma crise de meia idade. Ou pelo menos haver essa opção! Claramente existe público, mas a escassez na qualidade veio a aumentar desde que fecharam cinemas pornográficos e a internet apareceu. Obviamente isto não seria um problema se a sexualidade não fosse uma parte integrante e intemporal do nosso ser, mas é! E está entre as experiências mais intensas, poderosas, emocionais e profundas que temos. Assim como em grande parte do tráfego online! Se a pornografia, oferece uma representação directa e acesso a tais experiências, esta pode ser elevada ao domínio da arte. Para isso é preciso não deixar que esta dependa de toda a gente que possui uma câmara e tem uma conexão online.