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#QuemOuve é Riça

#QuemOuve é Riça

Tal como acontece com toda a gente, a música está na génese e enredo de tudo o que sou. Espalhe-se o baralho das nossas memórias sobre a mesa do Presente e quase de certeza que há momentos musicais marcantes em cada uma dessas cartas. Pode até ser uma música que não ouvíamos voluntariamente (as lengalengas de infância, o hit do verão de 1999, o cantarolar duma tia a estender roupa, as infindáveis covers da “Parabéns a você”), mas é raro o silêncio existir em plenitude.
Surge assim, através da CVLTO, a oportunidade de pegar no meu baralho pessoal e partilhar com quem tiver pachorra para ler sobre algumas das minhas influências, não só artísticas como pessoais. Quem sabe, se calhar alguns de nós até coexistimos sonicamente no passado.

Maze c/ DJ Serial & Ace  – Brilhantes Diamantes (Brilhantes Diamantes, 2005)

Morangos com Açúcar”. Desculpem se a coisa começa já a desapontar, mas a verdade é que esta “série” juvenil foi em parte responsável pelo meu interesse no Hip Hop. Têm de perceber que, na altura, não havia nada assumidamente Hip Hop em Gandra: ninguém fazia ou falava em Rap; os únicos graffitis eram os clássicos escorridos AMT RUTE ASS: XXXXX, iconografia fálica ou o louvor à folha de canábis; a malta só dançava Tecktonik ou Shakira; e os DJ’s não eram de todo gajos do scratch e crossfader. Ok, ouvia-se os Akons, os Eminems, os 50 Cents, a Princesa do Boss AC, mas eram sons que viviam num nível mainstream sem uma associação imediata à cultura-mãe.

A “Brilhantes Diamantes” foi diferente porque foi a única que me fez querer ir mais fundo, levando-me a passar horas nas salas de TIC. A partir do nome Maze descobri os Dealema, a partir dos nomes Ace e Serial descobri os Mind da Gap e por aí fora. Também foi esta música culpada pelo meu interesse no graffiti, ao aparecer quase sempre associada às cenas de pintura do Kiko, Becas e Manel. É claro que, ao fim de uns anos a descobrir o Hip Hop, toda a superficialidade com que a novela abordou o graffiti, existe na minha cabeça apenas como um cartão de visita. Man… só de pensar que havia um beto mauzão chamado Tupac…

Mamonas Assassinas – Jumento Celestino (Mamonas Assassinas, 1995)

Entre CD’s do Julio Iglesias, Roberto Carlos e outros semelhantes, havia uma capa nada discreta para um puto de 4 ou 5 anos. Mesmo não sabendo ler o título do disco, percebi pela ilustração que o nome do grupo não devia ser “Os Anjos”. As músicas dos Mamonas marcaram-me imenso ao longo da minha vida porque a cada ano que passava eu ia percebendo cada vez mais as letras e com isso ia ficando cada vez mais colado. Para muita gente são só uns palhaços sem piada nenhuma. Para mim sempre foram uns palhaços profissionais a falar de palhaços tristes e reais. Inconscientemente, aprendi com os Mamonas a falar de assuntos sérios de forma surreal, exagerada e cómica. Rir da desgraça e celebrá-la à moshada. Ainda os revisito muitas vezes, principalmente quando quero escrever estórias e ando bloqueado. Lembram-me sempre que, por vezes, o mais simples, ingénuo e descomprometido dá grandes resultados.

Sam the Kid – O Recado (Sobre(tudo), 2001)

É impossível ser Hip Hop Head em Portugal e não saber quem é o Sam the Kid. Apesar de não ser da primeira geração portuguesa de rappers/produtores e de só ter lançado o seu primeiro álbum em 1999, ele sempre esteve lá. O “maluco das filmagens” nunca desligava a sua câmara: registava noites de convívio e gravações de amigos seus, concertos, eventos de breakdance. O Sam nunca foi influente por causa de números. O Sam sempre foi influente pelo seu carinho à cultura, pela sua flexibilidade em trabalhar com artistas underground e mainstream, pelo alma, corpo e mente que deposita em tudo o que faz.

Para quem não o conhece, aconselho vivamente a darem uma olhada no canal TV Chelas. Mas, acalmando o meu acesso biográfico, voltemos ao “Recado”. É capaz de ser a música dele (a par com a “16-12-1995” a.ka. “Sofia”) que mais ouvi e estudei. Era capaz de a escutar durante uma ou duas horas sem intervalos. Estes episódios de maluquinho eram mais frequentes ao Domingo, quando ia com o meu irmão e o meu pai para a feira de pássaros em Paços de Ferreira. Como não tinha grande coisa com que me entreter, andava pela feira sozinho, feito demente a murmurar a letra e a apontar palavras e ideias que eu não entendia para mais tarde pesquisar sobre elas.

Tudo naquela obra me engolia vivo: o beat hipnotizante (que embora em loop, não fatigava); os inúmeros personagens interpretados pelo Sam; a fusão da realidade rotineira e enfadonha com assuntos mais abstratos como Saúde, Confiança, Respeito e Ganância; e o skill no esquema rimático aliado a uma monstruosa capacidade narrativa que atira o ouvinte para um cenário que só existe em palavras. O Sam era (e ainda hoje é) um dos poucos motivos para eu revisitar as lições sobre Recursos Estilísticos das aulas de Português. “Uma máquina!” como disse o seu amigo Snake OG (RIP) no documentário “Dicas no Vinil” (autoria de Filipa Reis).

The White Stripes – Seven Nation Army (Elephant, 2003)

O ano é 2009. O sítio, a Escola Artística Soares dos Reis, no Porto. Tinha acabado o 9º ano na EB2/3 de Baltar (Paredes) e não sabia muito bem para onde ir no 10º. Foi então que a minha professora de Matemática e o meu professor de EV (a Manuela e o Álvaro, grandes malucos) começaram a falar-me deste lugar mítico para onde eu devia ir. Uma espécie de Monte Olimpo de rebeldes e malucos. O meu pai, depois de muitos encantamentos sussurrados aos seus ouvidos, não só permitiu-me ir para a Soares como me ajudou com toda a logística de autocarros e afins.

Eu sabia que estava prestes a entrar numa escola diferente, mas não fazia ideia que as minhas expectativas iriam ser brutalmente superadas. De repente, dou por mim num meio onde tudo é “pornográfico”. O conhecimento jorra de todas as bocas e paredes, a liberdade é absurda, professor e aluno fundem-se num só ser e rapidamente criam-se laços afetivos tão profundos que ainda hoje, ao fim de 10 anos sem ver algumas pessoas, nada mudou. Pela primeira vez na minha vida, a Filosofia não é um bicho de sete cabeças, mas sim uma t-shirt rasgada, uma guitarra ao ombro, um skate, uma câmara fotográfica, um álbum dos Ramones. Pela primeira vez na minha vida, termos como posers, Sistema, amor, charros e Dr Martens tornam-se vírgulas em “Bom dia, malta”. Professores como o Orlando Falcão, Stor Zé, Fernanda Meireles ou Salomé Arieira, ainda hoje me vêm à cabeça com as suas infindáveis referências e lições. Os intervalos com a Zita, com a Bárbara, com o Tuca, com a Seabra, com o Zé Maria, com os Tour@s Máximos, com o Algoze, o Nelo e o Narc, foram as bases daquilo em que acredito, daquilo que sou e daquilo que faço hoje.

Se há altura em que cresci imenso foi nesses três anos em que lá andei. A música, que serve de deixa a este parágrafo, aparece numa aula em que toda a gente na turma ainda se estava a conhecer. Já não me recordo bem de todos os pormenores, mas quando dou por mim estou a apresentar-me como o gajo que faz beatbox e que o demonstra com um breve medley (claro, com imitações do Joseph Poulpo, Michael Winslow e Fernandinho Beatbox). Depois disso, a malta pedia-me para repetir a Seven Nation Army e eu tipo “que é isso?”, ao que a minha amiga Zita respondeu “aquela que estás sempre a fazer, meu.”. E foi assim que passei a conhecer os White Stripes, sendo que já os conhecia sem saber.

Mind da Gap – Todos Gordos (A Verdade, 2000)

Não sei se foi em 2007, 2008 ou 2009. Acabei por descobrir que afinal na minha escola (Baltar) havia mais malta a curtir de Hip Hop e passamos a parar uns com os outros. Certo dia, caiu bomba! Os Mind da Gap vão estar na Casa da Cultura (Paredes), numa cena chamada “Conta-me Histórias”. Não sabíamos se ia ser um concerto, se ia ser uma conversa, só sabíamos que tínhamos de estar lá. Num ato de estúpido entusiasmo, encontrámo-nos todos à porta da escola no fim do dia e fomos a pé até Paredes, entretidos com improvisos e versos alheios pelo caminho. Podíamos ter ido de autocarro, podíamos até ter pedido boleia a alguém. Mas não, vá se lá saber porquê, fomos a penantes (não me recordo quanto tempo demorámos a chegar, mas o Maps dá algo como 1h15m).

Eu só me lembro de estar todo estourado e ansioso ao mesmo tempo. Foi neste dia que eu presenciei o meu primeiro concerto de Rap. A metros de nós estavam estes três gajos de carne e osso, cada um com o seu estilo (lembro-me que o Presto estava com grandes tilhas) a olhar o público nos olhos. Os momentos musicais iam sendo intervalados durante alguns minutos de conversa com um entrevistador. Falaram sobre a origem do grupo, da mudança de nome, do quão difícil foi para eles nos anos 90 encontrar malta com a mesma paixão, da roupa larga que improvisavam com o que havia no guarda-fatos dos pais. Enquanto iam falando, eu ia me revendo naquelas memórias. Era como se, naquela altura, os anos 90 deles fossem o meu Presente.

Quando levas com uma injeção destas, por muito sozinho que andes e por muitos poucos recursos que tenhas, sabes que nunca mais vais acordar sem querer fazer o que eles fizeram. O momento alto da noite dá-se quando, ao tocarem a Todos Gordos, o Ace entra com “Prós gajos que partem garrafas comigo” e, mal diz isto, espeta com uma garrafa de água no chão. A garrafa, claro está, não resistiu aos ferimentos e ainda atingiu inofensivamente algumas das pessoas na plateia.


Riça – Dragão IV

 


António Variações – O corpo é que paga (Anjo da Guarda, 1983)

Muita da música que ouvia em miúdo saía da aparelhagem dos meus pais ou da rádio. Já não sei bem de onde é que esta veio, mas faz parte da minha infância. O meu pai falava-me muitas vezes do António Variações, um “artista com cancões bonitas” e do seu trágico destino. Eu achava bastante piada a esta, não só pela letra como pela festa que permeava aquele instrumental. Era fácil pôr-me aos pulos a cantarolar aqueles sintetizadores inigualáveis.

Tal como aconteceu com outras músicas, à medida que eu ia crescendo elas pareciam ganhar cada vez mais significado e profundidade, a ponto de me questionar se eram as músicas que amadureciam ou se era eu. Comecei a identificar-me com muitas das coisas que ele cantava, com aquela simplicidade que só mentes complicadas sabem como espremer.

Ao longo dos anos fui-me cruzando com malta da minha idade que o admirava imenso e que conheciam a fundo a sua obra. Uma dessas pessoas é o meu amigo Narcose, e esta música é apenas uma desculpa para falar sobre algumas das coisas que aprendi com ele. Conheço o Narc há largos anos e ainda assim continua-me a ser tão indecifrável como o era no início. E tudo do que ele fala só alimenta mais esse mistério. Quando algo lhe desperta o interesse, vai estudar a matéria em questão até às moléculas que a constituem. Vive, literalmente, algumas das questões com as quais se cruza. É um ser humano em constante metamorfose e que nunca chega a estágio final algum, pois o objetivo não parece ser esse. E, mesmo quando deseja parar de se transformar, não consegue pois tal não faz parte da sua personalidade.

Apanhei-o numa fase em que queria começar a produzir os seus próprios beats e eu pude ajudar nisso. Enquanto íamos trocando dicas de samples e conceitos mais técnicos, ele ia dizendo “-Tás a ver o Above the Clouds dos Gangstarr? / -Nope. / -Como assim, não conheces Gangstarr? Já ouviste falar do Premier? Rakim? KRS ONE?”. E foi assim que começou a minha verdadeira introdução ao Hip Hop (mais incidida sobre Rap e derivados).

Durante bastante tempo eu só me sentava no sofá do seu estúdio a ouvi-lo falar apaixonadamente durante horas sobre os pioneiros, sobre os samples usados, sobre os esquemas rimáticos, sobre a vida de cada um dos artistas que ele conhecia. Do Hip Hop passou a falar de músicos como David Bowie, GNR, António Variações, Tim Maia, entre tantos outros. A partilha não cessava, as questões levantadas por alguns desses músicos originavam mais questões, posturas perante a vida. E duma conversa, simples e factual, passávamos a discussões sem respostas.

A verdade é que não interessava chegar a nenhuma conclusão, o processo e o decorrer das coisas sempre foi mais aliciante do que tudo o resto. E isto, começou a aplicar-se às nossas vidas. Umas vezes corria bem, outras vezes corria mal. Mas uma coisa é certa: uma atitude assim relembra-te de como eras no início, do sacrifício que fazias por coisas que aos olhos dos outros não pareciam fazer sentido. O problema é que crescemos focados em objetivos, em números, em recompensas e esquecemo-nos que, por vezes, a parte mais fixe é a poeira que vamos levantando ao correr.

J Cole– Love Yourz (Forest Hills Drive, 2014)

Esta música (aliás, o rapper em questão) marcou bastante o meu ano de 2016. Embora com um atraso de dois anos, dediquei-me a ouvir o álbum e absorver tudo quanto pude: da produção impecável à voz do próprio J Cole. A culpa disto foi do Bandulho, uma das pessoas que mais me ajudou e acompanhou na criação do meu primeiro disco. De cada vez que chegava à beira dele com uma ideia nova para uma música, eu sabia que ia ter como resposta sugestões de melhoria. “Tens muitas palavras, respira um bocado”, “Deixa espaço para a dica respirar”, “Solta-te mais, não tenhas medo de cantarolar se for preciso”. Ainda que ao início não curtisse muito da atitude metediça, a verdade é que de forma gradual o que ele sugeria ia-me ajudando.

Reescrevi muitas das músicas no “Bicho com mau gosto”, não porque ele dizia para o fazer, mas porque tinha razão em muitas das coisas que dizia. A prova estava na comparação entre as primeiras e as segundas demos da mesma música. Ao fim de um tempo sem as ouvir, voltava a dar-lhes atenção e as diferenças eram claras. O engraçado é que, mesmo sabendo destas coisas porque prestava atenção aos flows dos rappers que eu ouvia, deixava passar muita coisa que podia ser melhorada facilmente. E ter o Bandulho ao lado foi fundamental na minha evolução. Mesmo quando não conseguimos estar juntos, lembro-me constantemente das dicas dele ao escrever e dos nomes que para ele são músicos exemplares: J Cole, Kendrick Lamar, Isaiah Rashad, entre outros.

Amy Winehouse – You Know I’m No Good (Back to Black, 2006)

Nunca conheci muito do trabalho da Amy. Tudo o que fui ouvindo ao longo dos anos eram músicas que passavam na rádio ou covers. Infelizmente, era capaz de saber mais sobre a roupa suja que os media adoravam espalhar aos quatro ventos do que sobre a sua obra. Não que eu andasse à procura disso, mas os escândalos ligados à artista eram tão frequentemente espremidos que era difícil não saber de certas coisas. Aliás, não é nenhuma novidade que os media adoram escandaleira… é o que vende. Não desculpabilizando os atos de muita gente, mas ser-se figura pública é meio caminho andado para não se ter privacidade, para se ser executado em praça pública. E é normal que com tudo isso uma pessoa ceda à pressão, que se queira afastar das massas, que comece a ter comportamentos excêntricos, que se farte dum mundo de anónimos que se acha no direito de lhe dizer como deve levar a sua vida.

O nome dela voltou a surgir-me nas palavras e na voz da minha namorada, há uns tempos atrás. Volta e meia temos gostamos de nos espraiar na varanda (de preferência quando há sol) a improvisar entre nós, ora com um beat de fundo ora com um beatbox e umas palmas à mistura. Há um dia em que a Catarina começa a cantar esta música e voltei a lembrar-me da Amy. Fiquei curioso. “Gostas das músicas da Amy?” perguntei. Ao que ela, em vez de dizer apenas “sim”, começou a desenrolar o seu pergaminho sobre a cantora. Falou-me da sua atitude desafiante e genuína, da sua vertente de compositora e autora, da sua preferência por plateias mais reduzidas e por palcos mais íntimos, os quais começaram a desaparecer quando a Amy começou a correr o mundo, muito a mando do pai.

Claramente tratava-se dum ser humano ingénuo cheio de sonhos e que acabou por ver o seu destino entregue às mãos da fama e de tudo o que ela acarreta de pior. Para mim continua a ser uma figura misteriosa, dotada duma voz auto-biográfica ora sofrida, ora eufórica, ora meiga ora brutal.

 

 

Texto: Riça

Fotografia: Mestria