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#QuemÉ David Gonçalves

#QuemÉ David Gonçalves

São imagens que têm de ser feitas, mostradas e pensadas. Não basta olhá-las de relance.

De visita ao Porto em Novembro passado, David Gonçalves está “numa espécie de residência artística” envolta em muito secretismo. David não é o tipo de artista que se possa encaixar com facilidade em moldes confortáveis e discerníveis. Ainda que o cerne do seu trabalho esteja assente na fotografia, certo é que não é pela “linha, cor, técnica, textura, que tem de estar tudo nos conformes” que o seu trabalho se pauta.

“As imagens que eu faço não têm “estética” nenhuma. Não têm nada que agrade.”

Mas são imagens que têm de ser feitas, mostradas e pensadas. Não basta olhá-las de relance, num olhar “à Tumblr” como diz, é preciso vê-las enquadradas num contexto e numa narrativa muito própria.

David Gonçalves – “Umbra”

 

Da tragédia de todos os dias à ruína do hoje

Vê este seu trabalho, esta sua “busca pelo grau zero” como uma tentativa de redenção.

David Gonçalves está a doutorar-se na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, mas não poupa críticas ao academicismo e às instituições. Entende que a grande mais-valia do doutoramento que está a desenvolver prende-se com a obrigação de pensar o seu trabalho e auto-explicá-lo, por difícil que isso seja.

“O meu trabalho é um bocado emocional, um bocado pessoal. Nestes termos académicos como é que consegues explicar uma coisa particular?”

O conceito em que David mais revê o seu trabalho académico é o da ruína histórica: “ou seja, tudo o que é fotografado tem uma carga histórica”. E concretiza essa ruína histórica em “Umbra”, o seu último grande trabalho apresentado em exposição (em Lisboa e depois em Torres Novas) e num livro, “numa grande viagem sintetizada entre Porto, Lisboa e Berlim”.

“Parece que estando em Berlim, ou Lisboa, ou Praga, há uma cena em comum, que depende muito daquilo que eu vejo, também. É uma espécie de qualquer coisa que já passou.

Fala numa sequência de imagens que envolve uma seringa abandonada no chão do Casal Ventoso seguida de uma caixa de fósforos com a bandeira da UE espezinhada no chão de Berlim. Noutro encadear de imagens, vemos uma ovelha morta algures perdida no Alentejo, ladeada por uma fotografia de um quadro da Virgem Maria, e uma imagem de um talho à noite, com as carnes penduradas. Esta é a procura incessante de David, a procura de uma verdade crua e quase absoluta, que chama de “grau zero”:

“De como é, como está ali, não há nada de artificial. É uma espécie de um retrato da decadência do mundo. Não no mau sentido. Qualquer coisa a ver com a queda. Isto era qualquer coisa, e agora é o que é, e tem informação sobre o que era, e o que foi até ao que é.”

Vê este seu trabalho, esta sua “busca pelo grau zero” como uma tentativa de redenção “de tanta imagem, tanta novela, tanta merda, tanto drama” a que somos sujeitos no nosso quotidiano. Não são imagens fáceis. Mas são imagens verdadeiras, e verdade é o que mais falta faz num mundo cheio de tragédias de todos os dias e ruínas de hoje.

Entende que um fotojornalista deve manter alguma distância do objecto fotografado, e David quer estar o mais perto possível.

Sabe que o seu trabalho “não é para ninguém”. As imagens que constrói são viscerais, e não enquadram numa sala-de-estar. Quando interrogado sobre a carga fotojornalística que a sua fotografia pode ter, rejeita a ideia – “há muito bom fotojornalismo cá, mas nem me aproximo disso”

Entende que um fotojornalista deve manter alguma distância do objecto fotografado, e David quer estar o mais perto possível.

“O meu trabalho não é nada fotojornalístico, porque é demasiado pessoal. Eu não sou nada imparcial no que faço. Uma coisa é o que me interessa, outra coisa é o que é útil de se ver.”

Dos silêncios à denúncia

O trabalho que está a desenvolver actualmente está “trancado a sete chaves”. A CVLTO conversou extensivamente com David sobre este projecto, e certo é que quando vir a luz do dia a disruptividade que almeja será alcançada.

A preocupação de David prende-se com não com a urgência da denúncia, mas com a importância do denunciar daquilo que interpreta como sendo “um crime”.

“Há coisas que eu sei que eu vi, e não sei se os outros viram.”

Fala não do construir de uma memória histórica, mas de um retrato cru e verdadeiro das consequências de um extenuante processo que se vem desenrolando há anos, e cuja relevância social vai oscilando com as marés.

“O trabalho fotográfico também é discurso político, porque estou muito revoltado com o mundo.”

Todo o trabalho de David, e não apenas este projecto que está actualmente a desenvolver, é imbuído de discurso político. A caixa de fósforos com a bandeira da UE espezinhada pelo chão, ou uma pichagem onde se lê “madness” no muro de Berlim, a par-e-par com uma ovelha morta no Alentejo querem dizer algo. A discussão sobre o sagrado – político ou religioso – está sempre presente nas suas imagens, de uma ou outra forma.

“O trabalho fotográfico também é discurso político, porque estou muito revoltado com o mundo.”

Da bolha à ruptura

As imagens de David são invariavelmente a preto e branco, porque é nessa linguagem que melhor consegue criar as narrativas que lhe interessam. E se tem uma fiel Leika presa no pulso, que anda com ele para todo o lado, não fecha hipóteses a outro tipo de instrumentos para uma mesma narrativa.

As exposições que fez e o livro que publicou com o seu trabalho estão a ser quase inteiramente financiados por si próprio, sem nenhuma grande estrutura por trás.

Vê potencialidades e limitações nos dois tipos de suporte – filme e digital. E por isso mune-se de ambos, sem entrar na discussão sobre o que é melhor ou pior. “O que interessa é o que está nas imagens”, independentemente do equipamento com que foram feitas. E por isso é que “Umbra” tem 23 imagens, algumas digitais, outras analógicas, sem ser minimamente relevante quais são o quê.

David assume que não procura imagens fáceis – nem fazê-las, nem muito menos lê-las. E quando confrontado com a pergunta “como é que a comunidade artística reage ao teu trabalho?”, David ri-se e pergunta: “Queres mesmo a resposta?”

“Pois claro, a mais honesta possível.”

” ‘Tou-me a cagar.”, diz entre gargalhadas. “Não quero saber. Não quero ser melhor nem pior, quero estar longe.”

Rejeitando a postura de lobo solitário – porque reconhece que o valor do seu trabalho prende-se com o impacto que ele pode ter -, David assume que são poucos em quem se pode apoiar.

Ainda que o trabalho que desenvolve hoje não seja tão experimental como no passado – quando explorava em vídeo as questões da submissão, da humilhação, das violências suburbanas – o artista assume que mesmo assim não é fácil encontrar plataforma para o que produz. Daí as exposições que fez e o livro que publicou com o seu trabalho estarem a ser quase inteiramente financiados por si próprio, sem nenhuma grande estrutura por trás.

Reconhece o grande apoio do seu orientador na FBAUL, que foi quem o persuadiu a embarcar na aventura do doutoramento, e quem o apoiou a estabelecer a ponte com a editora que publicou Umbra. Mas quanto à comunidade artística de que se rodeia, não se identifica. Em contrapartida, encontra no Porto “uma enorme vontade de produzir” e uma grande cooperação entre projectos, colectivos e galerias de arte.

David cita o designer que paginou Umbra: “a vanguarda é lá em cima”.

 

Mas independentemente de onde estejam as vanguardas e se está com elas ou contra elas, David é capaz de ver nelas a ruína que fotografa.

 

A exposição chama-se Umbra, que é o lado mais negro da sombra, onde não há luz. As imagens são pautadas por pedaços de luz ou de zona iluminada. Geralmente é preto à volta, e luz no meio, ou uma luz muito ténue a iluminar tudo na escuridão. A ideia é ver o que há na escuridão através da luz.

Os pontos de luz são os pontos de verdade. A luz foca tudo o que é essencial de se ver. A escuridão filtra tudo e só mostra o essencial.

A última imagem é de um candeeiro a iluminar um monte de ruínas. No final, o que é que há para ver? Ruínas.