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#QuemPensa é Sérgio Morais: “Sérgio no País dos Freelancers”

#QuemPensa é Sérgio Morais: “Sérgio no País dos Freelancers”

O primeiro passo é sempre o mais difícil, mas depois de o dares é o mais recompensante. É o sentimento de luta por uma verdadeira satisfação profissional.


É sempre mais complicado fazer o que quer que seja por si só.

Para que este texto faça sentido sou obrigado a dar um background sobre a minha pessoa. Isto porque vou falar de trabalho, e para falar de trabalho é bom que saibam o que faço. Sou o Sérgio, nasci em março, nunca gostei da escola – por isso é que, quando atingi o meu limite, deixei de pertencer ao restrito grupo de alunos de cinema -, aprendi a tocar guitarra sozinho e pus-me a tocar em bares, servi às mesas, escrevo.

Agora que já somos basicamente melhores amigos posso passar para a temática central deste pequeno ensaio.

Quando saí da faculdade passei por um período de dúvida enorme, como qualquer pessoa na minha posição passaria. “Não tens um papel a dizer que fazes coisas, Sérgio. E agora? Ninguém sabe que tu fazes coisas. És amorfo”. Ora, por muito que a estagnação até pudesse ser o caminho mais fácil, eu não sou pessoa de estar a ver passar navios, a não ser que seja pela pura beleza de um
navio a passar. “Gosto de escrever, gosto de fazer vídeos, se calhar tenho de pegar por ai”, pensei. Então juntei uns amigos e criei o que é agora a Evoke Collective: um coletivo audiovisual. É isso que eu faço neste momento: escrevo e sou uma espécie de produtor/criativo neste coletivo.

“Sim, Sérgio, tu és o meu melhor amigo, mas o que é que isso interessa?”

Boa pergunta. Achei importante escrever sobre esta minha experiência por duas razões: para dar uma ideia de como o mercado aborda os novos trabalhadores nesta área, e para tentar – de uma forma tosca – motivar alguém que ainda não tenha tido coragem de dar o primeiro passo na criação do seu próprio projeto.

 

As coisas tornam-se complicadas quando a maioria das pessoas acha, genuinamente, que estamos a fazer isto como um hobbie.

Uma árvore é um pássaro falhado III – Constança Duarte

 

De um ponto de vista de trabalho, a Evoke não tem corrido mal de todo. Temos mais de um ano de existência e, sem apoios financeiros para além do nosso próprio dinheiro, conseguimos gerar conteúdo e fazer alguns trabalhos remunerados. O nosso foco foi na produção de conteúdo para música, onde posso destacar a cobertura do festival SonicBlast – uma experiência única para nós, e que nos deu muito alento para os trabalhos futuros. A perspetiva é de crescimento neste segundo ano, e vamos ver se conseguimos concentrar-nos mais no conteúdo original. Aquilo que eu tenho a dizer sobre o mundo do trabalho na área da produção de vídeo e fotografia em regime freelancer (e suspeito que assim seja em qualquer outra área artística) é: as coisas tornam-se complicadas quando a maioria das pessoas acha, genuinamente, que estamos a fazer isto como um hobbie.

Amigos de outras áreas, isto não é um passatempo, está bem? Tal como vocês vão para o vosso escritório escrever relatórios sobre o caso da senhora que perdeu o esquilo, nós vamos para o estúdio tratar das vossas fotografias do evento da empresa. Tal como vocês vão orçamentar o novo hostel da baixa do Porto, nós vamos segurar numa câmara enquanto vocês fazem figuras tristes no casamento da vossa prima. É um trabalho a sério, e atitudes condescendentes para com o que nós fazemos é triste.

Claro que nem toda a gente é assim, e este é um daqueles momentos em que há que colocar a carapuça a quem servir. Este não é o único problema do trabalho de um freelancer, e sei que posso estar a culpabilizar apenas terceiros pelo infortúnio de muita gente, que não quero que seja o caso. É sempre mais complicado fazer o que quer que seja por si só. Lidar com horários flexíveis; procurar, negociar, trabalhar e ter pouco para mostrar; sentir que ou é areia a mais para a nossa camioneta, ou areia a menos; chegar ao fim do mês e não saber se há dinheiro para começar a pensar a arrendar um quarto, porque o próximo mês pode ser ainda pior; entre muitas outras problemáticas que se vão desenvolvendo. De qualquer dos modos, e falando da minha perspetiva pessoal, prefiro correr esse risco a estar envolvido num projeto com o qual não concordo totalmente. Chamem-me iludido, mas acho que é melhor assim. Porém, vou desenvolver este assunto mais à frente neste aglomerado de caracteres.

Tenho que admitir que é mais complicado do que parece, todo este desejo de trabalhar por conta própria; nunca tendo dúvida de
que um dia vou conseguir qualquer coisa.

 

 

Tudo isto leva a uma situação extremamente complexa: como é que eu cubro os meus custos, se ninguém me paga o suficiente. Não há método para isso meus colegas e melhores amigos de longa data. O que eu sei dizer é que se não se andar para a frente, e se não se procurar é que não se chega a lado nenhum. Claro que é muito fácil dizer: “Oh, cinquenta euros para cobrir um evento de cinco horas mais edição? Que mal pago, não faço. Vou desistir. Vou trabalhar para os correios e servir limonadas ao fim-de-semana”. Porém, se todos tiverem a mesma mentalidade, nunca vão fazer aquilo que realmente gostam. É uma área complicada, mas queriam o quê? Respeito dos demais? Esperem sentados, infelizmente.

Eu estou aqui, no auge do meu quarto de século, e não tenho dinheiro suficiente para sustentar uma casa só minha. Poderia culpabilizar o preço dos imóveis no Porto? Sim, mas não acho que seja apenas isso. Tenho que admitir que é mais complicado do que parece, todo este desejo de trabalhar por conta própria; nunca tendo dúvida de que um dia vou conseguir qualquer coisa.

Agora para a parte que eu acho mais importante. Quando as coisas já estão feitas; quando as estruturas estão montadas e a máquina está bem oleada, é muito “fácil” (entre aspas, porque eu sei que não é assim tão fácil) entrar no mundo do trabalho. Entregas o currículo, o portefólio e passas oito horas por dia a editar joalharia foleira. Nada contra quem o queira fazer. Se calhar têm aspirações mais realistas e isso não tem mal nenhum. Mas quando crias alguma coisa do zero, ou quando queres fazer parte de algum projeto novo que realmente faça a diferença, nada está feito, nada está montado e nada está oleado. Isso exige trabalho e os tomates no sítio. Se calhar até tens uma boa ideia, mas nunca a desenvolveste. Porquê? Tens medo que corra mal? É verdade, pode correr; mas a tua entrevista para a empresa da moda também pode.

O primeiro passo é sempre o mais difícil, mas depois de o dares é o mais recompensante. É o sentimento de luta por uma verdadeira satisfação profissional.

E sim, eu sei que este termo se perdeu ao longo do tempo para algumas pessoas, mas a satisfação profissional é importante. A maior dificuldade, para as gerações mais recentes – onde me insiro – , é que (ao lado do desenvolvimento de relações verdadeiras) não existe uma maneira eficiente, nem uma app para atingir essa satisfação. É um processo demorado, atribulado e que custa muito. Um processo em que dás por ti a pensar “Mas, isto não avança? Porque é que ainda não tenho estabilidade?”, e a querer voltar para a os dias de brincadeira com os amigos da vizinhança.

Mas no final, caso se chegue longe, acredito que valha a pena, porque deixa de ser um trabalho, e passa a ser um gosto. Estou a arriscar bastante com o meu projeto e a minha escrita. Mas não quereria que fosse de outra forma (como já afirmei), porque quando a estabilidade chegar, não me vai custar levantar de manhã para ir trabalhar.

 

Sérgio Morais

 

Uma árvore é um pássaro falhado II – Constança Duarte