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#OndeEstá o jovem cinema português

#OndeEstá o jovem cinema português

Ao longo de cinco dias de Fantasporto, a CVLTO esteve no Pequeno Auditório do Rivoli a descobrir onde está o jovem cinema português.


Já são 39 edições de Fantasporto. E oito anos de competição de escolas de cinema. Em Janeiro passado, Beatriz Pacheco Pereira – directora do Festival Internacional de Cinema do Porto – dizia em conferência de imprensa que a qualidade dos filmes a concurso nesta categoria tem aumentado exponencialmente ao longo dos anos, e que esse dado era bom sinal para o cinema português de amanhã.

Foram nove escolas a seleccionar o melhor que de cinema se faz entre os seus alunos, e a levar estas curtas-metragens a uma das mais nobres telas do cinema em Portugal.
Os géneros que imperaram foram o drama e o vídeo-poema.

As escolas já repetentes na competição eram a Escola Superior de Media Artes e Design, o Instituto Português de Fotografia, a Universidade do Minho, a Universidade Católica do Porto, a Escola de Tecnologias Inovação e Comunicação, a Escola Superior de Artes do Porto e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Pela primeira vez a concurso estiveram a Universidade da Madeira e a Universidade da Beira Interior.

Duma forma geral, os géneros que imperaram na tela do Pequeno Auditório foram o drama e o vídeo-poema. Há temas que atravessam a maioria dos filmes, independentemente das geografias físicas ou mentais dos realizadores. A reflexão sobre o isolamento, a solidão, a depressão, está muito presente, de muitas formas diferentes. Mas houve também manifestações de preocupação social, com pelo menos quatro filmes que se debruçavam sobre a tragédia dos grandes incêndios florestais de 2017.

Há uma grande preocupação dos novos cineastas com a sonoplastia e com a fotografia de cada plano.

Há evidentemente uma grande preocupação dos novos cineastas com a sonoplastia e com a fotografia de cada plano construído. As bandas sonoras são escolhidas a dedo, e a grande maioria das voz off que se ouvem são de um grande profissionalismo, seja na captação e edição do áudio, seja na qualidade da dicção dos oradores.

Foram múltiplas linguagens e abordagens que se viram a temas próximos entre si, desde uma narrativa mais próxima da Nouvelle Vague francesa, até ao documentário com um grande preocupação estética.

Certo é também que o olhar dos jovens realizadores portugueses é extremamente cuidado e fotográfico, e a execução técnica da maioria dos filmes é primorosa. O cuidado com as cores e enquadramentos é notório, mas não é particularmente inovador. Quiçá pela idade e/ou inexperiência de alguns destes estudantes, haja algum receio em experimentar coisas novas e perigosas. Quem não teve receio de experimentar foi Diana Alves, da Universidade do Minho, com a sua curta “Shinigami”.

Still da curta-metragem “Shinigami”. DR

“SHINIGAMI”

Diana Alves
“Shinigami” é, em grande medida, uma experiência estética.

A banda sonora é perfurante e perturbadora, e as imagens são coerentes entre si e com as músicas escolhidas. É um filme violento, nem sempre claro, sobre o terror que assolou o território português em 2017.

O início do filme é por si só incómodo, com mais de um minuto de white noise no ecrã e um som de instrumentos de cordas que auspicia terror. O filme adopta uma estética “antiga”, por assim dizer, com a simulação da película a correr nas margens da imagem, com imagens altamente saturadas e avermelhadas, que vão de copas de árvores queimadas à superfície de lagos inquietos, nem sempre sendo claro o que se vê na imagem.

Mas é essa mesma incertidão, esse incómodo, que dá corpo ao filme. Sendo uma experiência estética carregada de simbolismos, de todas as curtas-metragens alusivas aos fogos que foram apresentadas no Fantasporto deste ano, este é filme que melhor consegue transmitir os horrores que se viveram em Portugal como resultado daqueles terríveis incêndios.

 

Promo de “Eikasia”. DR

“EIKASIA”

Francisco Morais e Miguel Pinto

Quem também entrou em território desconhecido foram Francisco Morais e Miguel Pinto, finalistas da licenciatura em Cinema da Universidade da Beira Interior – instituição que entrou a concurso na competição de escolas de cinema do Fantasporto pela primeira vez.

Uma curta-metragem de ficção científica que parece uma super-produção.

A equipa que criou o filme “Eikasia” dinamizou um crowdfunding e conseguiu construir um filme de 25 minutos de extrema qualidade, a todos os níveis. Começa por parecer um thriller que toma lugar num cenário quase pós-apocalíptico, com um só protagonista que deambula sozinho pelas ruas de uma cidade deserta. Há um excelente trabalho a nível da psicologia da cor, explorada através das cores das camisolas com que o protagonista se vê em sonhos.

“Eikasia” é, em grande parte, uma reflexão sobre o desespero e a solidão extrema. O protagonista sonha com duas mulheres – a figura de uma mãe, e a figura de uma namorada -, mas encontra-se sozinho num cenário desolador. Sem querer arruinar o filme aos nossos leitores, a quem recomendo vivamente que procurem vê-lo, pode-se apenas dizer que “Eikasia” é como um “Children of Men” levado a um extremo apocalíptico.

É evidente o imenso trabalho de pré-produção, e o investimento que esta equipa de jovens colocou neste filme. Para esta vossa repórter, “Eikasia” foi o melhor filme a ser projectado no Pequeno Auditório do Rivoli.

 

Still da curta-metragem “Dentro”. DR

“DENTRO”

João Faria

Ainda dentro do género thriller, tivemos “Dentro”, de João Faria, da Universidade Católica – essa já repetente da competição.

“Dentro” e “Na Sombra” (de Miguel Alves, da mesma instituição) foram dos poucos filmes com boa representação e interacção de actores. Sendo verdade que uma curta-metragem dificilmente permite margem às personagens para se solidificarem, e aos autores para demonstrar sem margem de dúvida as suas competências teatrais, também é verdade que a nível de direcção de actores a maioria das curtas de escola a concurso no Fantasporto deixaram a desejar.

Estes dois filmes, no entanto, não negligenciaram esse elemento nem um pouco.

“Dentro” é, então, um filme de acção, em grande parte. Um thriller, é certo, que vale pela qualidade da direcção de actores, da representação e da narrativa geral do filme. A fotografia desta curta também está impecavelmente cuidada, e é coerente com os cenários e a storyline. O facto de ter sido inteiramente captada em exterior poderia ser preocupante no que à sonoplastia diz respeito, mas os diálogos – com todas as brejeirices e espontaneidade que se espera de personagens portuenses – são nítidos e facilmente discerníveis.

De fazer notar que “Dentro” foi dos poucos filmes que escapou a um guarda-chuva temático geral que abrangia quase todas as restantes curtas – solidão, abandono, depressão.

 

Still da curta-metragem “Bruma”. DR

“BRUMA”

Sofia Cachim, Gabriel Peixoto, Mónica Correia, Daniela Santos

Depois tivemos “Bruma”, também da Católica, da autoria de Sofia Cachim, Gabriel Peixoto, Mónica Correia e Daniela Santos. Uma animação delicada, etérea, sobre perda e luto.

Trata um tema que é difícil, mas que resulta num momento de superação. Um filme triste com um final mais ou menos feliz.

Não há muito que se possa dizer acerca desta curta, a não ser que as realizadoras merecem uma vénia pelo sublime trabalho que fizeram com um assunto tão delicado.

 

De uma forma geral, fica uma impressão que não é a mais feliz: os jovens cineastas portugueses estão tristes. Se o cinema deve servir também para expiação e catarse, então a ideia que fica é que o drama é o género mais fácil de explorar porque é em drama que estes realizadores vivem.

Não quer isto dizer que estamos condenados a um cinema deprimente, de todo.

O que é animador é ver que há um imenso cuidado na estética e na realização dos filmes, que a parte gráfica e a imagética não são descuradas em prol da narrativa, e que há muito quem consiga construir boas narrativas e boas linhas de pensamento num espaço tão limitado como é o de uma curta-metragem.

No final, a escola vencedora foi a ETIC, de Lisboa, com os filmes “Sem saída”, “Terra Ardida” e “Colapso”.

A CVLTO descobriu, então, que não é possível colocar um alfinete sobre o sítio #OndeEstá o jovem cinema português. O cinema de amanhã está espalhado pelo território, em diferentes geografias – físicas e mentais. E ainda bem que assim o é. Há que descentralizar as instituições e a arte, se os nossos leitores permitem esta pequena ressalva. Por isso também é que um dos sítios #OndeEstá o jovem cinema português é o Fantas.

É de sublinhar a relevância de que um festival com a escala e a relevância do Fantasporto esteja de portas escancaradas a este novos realizadores. A possibilidade de projectar numa das mais nobres telas da cidade e do país, sob a asa de um nome como é o do Fantas é, de facto, um enorme privilégio que se entrega a estes jovens cineastas. E que, em grande medida, cuidam essa responsabilidade e fazem jus à plataforma que lhes é oferecida. Fica a promessa de uma nova edição de Fantasporto, com novos jovens cineastas, e novas narrativas. E fica um pedido a par da promessa: calma nos vídeo-poemas, por favor.