Menu & Search
#OndeEstá o Dragão

#OndeEstá o Dragão

No lusco-fusco entre o urbano e o rural, onde a superstição permeia o imaginário colectivo, encontramos o Dragão.

É de Gandra, Paredes, que Riça vai beber história para os seus novos trabalhos. Desde o lançamento do EP “Bicho com Mau Gosto”, no início de 2017, ele tem vindo a madurar a sua escrita, o seu pensar e o seu trabalho.
“O comboio não espera por ninguém”, assegurava-lhe o pai pelas manhãs, numa de muitas manifestações de sabedoria popular, mas Riça foi esperando pelo comboio certo para ele. E eis que chegou o comboio que faz com que ele regresse. Com que ele regresse feito dragão.

O diabo já é velho mas é grande folião.” Gaiteiros de Lisboa

Hoje, o que Riça escreve é em “formato de memória”, como o próprio diz. Num momento em que parece assistirmos a um revivalismo da tradição pagã ibera, Riça vai em busca de um imaginário com que se identifica.

Na senda de grupos como Roncos do Diabo, Uxu Kalhus, Dazkarieh, Pé na Terra e tantos, tantos, outros, ia sendo momento de o hip hop português também começar a procurar a sua raiz. E esse momento parece vir pelo pulso de Riça.

Não sendo frequente encontrar referências às alegorias rurais e tradicionais portuguesas num sub-género tão ligado à cidade e ao subúrbio como é o hip hop, Riça começou esse trabalho já no seu EP “Bicho com Mau Gosto” com o sketch “Azeitonas” e a música “É Lá Na Bouça” – “vou-te levar tão fundo ao underground da minha aldeia c’até vai ser moda usar jugo e monocelha”.

Num exercício absolutamente despretensioso, Riça explora a sua origem e o sítio de onde vem, sem se fazer passar pelas identidades que estamos acostumados a associar ao hip hop. “Dragão” é a confirmação desse exercício de exploração identitária.

“Ao fim de não sei quanto tempo a escrever e a não me identificar com o que escrevia, finalmente estava a encontrar um imaginário com que me identificava, e estava a ir buscar referências ao meu passado, ao sítio de onde venho, começou a ser um processo interessante.”

A par disso, começou a fazer-se acompanhar sempre de um caderno onde escrevia não em formato de rima, mas em formato de memória, o que o obrigou a recuperar de forma mais vívida “os sítios, os cheiros, as expressões”.

Para lá dessas expressões e desses laivos de sabedoria popular, Riça começou a investigar mais e mais profundamente as tradições e as superstições portuguesas, que tão frequentemente nos passam ao lado, como era a expressão do “comboio não espera por ninguém” do seu pai.

“Esta música nem é a mais ilustrativa do que eu quero fazer, porque não deixa de ser muito um exercício de punchline e egotrip, mas em que toco nas questões alegóricas e rurais. Mas há dicas como ‘o vosso monarca entala-se c’a placa’ é quase como se fosse um rei do rap. Acaba por ser falar sobre o rap, mas com essa imagem de que o rap é uma pequena aldeola.”

Quando, em Fevereiro, Riça se senta no carro de André Constante e Alexandra Santos, com um livro sobre a Rota do Românico e uma maquete de “Dragão”, dá-se um passo fundamental no crescimento deste produto artístico.

“Sentir, ser diferente, mudar o som,

Crescer, explodir, voar, livre sem pensar.”

Pé na Terra

O “Dragão” é, então, um produto conjunto e absolutamente simbiótico do trabalho de Riça, Catarina Maçã, André Constante e Alexandra Santos, estes dois últimos do colectivo artístico Mestria.

A Mestria é quem transforma o “Dragão” num produto cinematográfico, sempre com a consciência de que este se deve apresentar mais do que como a ilustração da música que lhe dá mote, mas como uma extensão do artista.

André e Alexandra criam a Mestria conforme ela é hoje há três anos atrás. Ambos formados em Tecnologia da Comunicação Audiovisual pela Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, em momentos diferentes, sentiam necessidade de espaço para criarem conteúdos e produtos conceptuais. Para lá disso, começaram também a cobrir casamentos e baptizados, e a dedicarem-se aos videoclips também. Destes, já fizeram “oito ou nove”, um dos quais para o grande amigo da CVLTO, Spiralist.

O primeiro que fizeram, na verdade, foi para o Riça, para o tema “Punhos no Ar”, dedicado aos 17 presos políticos angolanos, entre os quais se contava Luaty Beirão, em 2016.

E como é que se articulou a música de Riça com a cinematografia da Mestria?

“Em simbiose”, assegura Alexandra.

E não foi de todo um processo difícil, garante André, porque Riça também ele é um criativo, vindo da ilustração e do design, e quando apresenta a ideia aos dois videógrafos já vem com referências visuais todo este exercício de construção em equipa se simplifica.

Quando essa primeira reunião se dá, Riça ainda não tinha a versão final da música. Nem sequer da letra. E para ela assumir a forma que ganhou, houve muitas horas de conversa sobre “os carrapatos, e os sapos com a boca cozida…” vai enumerando Alexandra. Portanto nem só de vídeo se fez esta aliança de Riça e da Mestria.

Também eles fizeram parte do processo criativo do Riça, tal como ele fez parte do processo criativo da Mestria.

André explica que “Ele já tinha muitas referências visuais, do Exorcista e do expressionismo alemão, das cenas alegóricas e das lengalengas portuguesas… Tivemos de transformar aquilo em cinema.”. E Alexandra acrescenta:

“Tu partes da imagem que ele quer e que ele gostava de ver projectada no que ele fez, porque se ele quer um videoclip à partida a música não acaba no áudio. Então pegas nisso e tentas transformá-lo em imagem. O Riça queria imagens muito visuais, nunca ilustrativas. Mantêm a ligação, mas pelas lengalengas. A ideia era pegar nessas simbologias e construir uma imagem visual, que fosse quase como design em vídeo.”

Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém
Que no monte é qu’eu estou bem ”

Adágio popular da Beira Baixa.

É certo que algumas “dicas” do Riça dão azo a imagens ilustrativas, mas que não surgem no momento em que são cantadas, como é a sequência das sapatilhas, também elas alegóricas.

“As sapatilhas apresentam-se como um fardo. Eu interpreto-o como um fardo do capitalismo.”, diz Alexandra.

E falando de fardos e responsabilidades, Alexandra surge com um conceito a que chamou de “responsabilidade da câmara” no processo das filmagens. Brinca quando diz que se os seus professores lessem isto até arqueavam as sobrancelhas, mas a criação artística é assim mesmo.

“Chegámos a um compromisso que eu chamei ‘responsabilidade da câmara’. Há um antes e um depois. Chamei a esses momentos passado e presente. E no passado há imagens mais fotográficas, mais estáticas, que é o início da música, que é a memória, e porque a memória vês em fotografia, e para mim fotografia é memória. Então tens planos mais fotográficos em que é suposto as pessoas lerem um ‘antes’. Tens tempo para isso. Mas depois disso há um momento em que as cenas mudam e a responsabilidade da câmara também muda. Então a partir daí temos planos mais movimentados, câmara à mão, quase a sensação do presente, e és quase hipnotizado.”

Não iremos denunciar nem explorar o momento em que essa alteração e essa hipnose se dão, fica ao encargo do leitor e espectador descobrir em que momento se altera a narrativa, também para que haja espaço para a interpretação de cada um.

E como é que partindo de referências como Nosferatu e Drácula chegamos ao imaginário do rural português?
Como é que do hip hop e do cinema noir conseguimos chegar ao rural? Isso não provoca uma brutal dissonância cognitiva? Mesmo na postura de Riça no vídeo?

Para lá do livro da Rota do Românico que Riça apresentou à Mestria, levou dezenas de outras referências que se espraiaram pela mesa onde conversámos. Do cinema noir ao expressionismo alemão, passando pela BD de Mike Mignola, chegamos a uma imagem fiel aos sítios de onde muitos de nós vimos.

A aldeia, o campo, as searas de trigo, as noites de luar frio, o bafo quente nas noites gélidas.

Houve muito trabalho de preparação prévio, chegando mesmo a incluir idas a ensaios de ranchos folclóricos, para que as imagens fossem o mais verdadeiras possíveis. Até os figurinos e os locais de filmagem foram parte intransponível do processo de adequação da música e das personagens à história.

“Mesmo o facto de ela (Catarina) estar toda em personagem, a cena da roupa, às vezes é só um pormenor mas ajuda a entrar na personagem. Para mim, enquanto rapper, eu já tinha a música feita desde Fevereiro, a maquete, e estar sempre a ouvir a música constantemente perde-se um pouco a sensibilidade em relação à letra. Já não a sentes como sentiste ao início.”

É no que toca à sensibilidade que cada um tem relativamente à música e ao vídeo que se compreende verdadeiramente a complexidade da letra e do filme que construíram. Riça, Catarina, Alexandra e André, todos eles estiveram no processo criativo desde o princípio até ao final, incluíndo o momento da edição, e todos eles experienciam a música e o videoclip de forma diferente.

Mas mesmo isso está profundamente ligado à construção do produto final que é o videoclip. Alexandra insiste uma e outra vez que foi fundamental Riça também ter participado na fase da edição e montagem das filmagens. Isto porque, como explica André, apesar de já terem arrancado para as filmagens muito bem preparados, deixaram muita margem de manobra criativa para a própria acção de captação das imagens.

“Muito do trabalho conceptual surge durante o trabalho de edição. É um risco, mas é um risco bom, que a obra de arte fale por si. É um processo confuso. Um processo que tens totalmente estruturado esgota-se muito mais rápido. Quando pensas que na edição podes continuar a criar é óptimo.”, explica Alexandra.

“Desce a névoa do alto da serra,

Um galo preto berra.

Aldeia desperta sem maias nas fechaduras.

Sem sal, sem ferraduras,

Velas pagadas p’ra receber o patrão das bruxas!”

Riça.

Das referências visuais que Riça levou consigo, a par da sua imensa bagagem visual, ficaram “as texturas e a luz”, explica Alexandra, assegurando que quando é um designer ou ilustrador a aproximar-se com todas estas notas, a coisa é fácil: “Vamos fazer um clip.”

Então, fundindo todas estas histórias e referências, nasce o videoclip de Dragão, num fabuloso exercício que funde as mais gráficas referências cinematográficas, com as lengalengas e os adágios populares portugueses, com a raiva do hip hop.

E eis que se pergunta, finalmente.

Onde está o Dragão?
Esta sexta-feira 13 anuncia-se, pela Paga-me O Quarto, o IV Capítulo de um livro que Riça se vai fazendo escrever.
Ponham as maias à janela.

 

Texto: Zita Moura
Imagens: Mestria