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#Onde está a Dartecor

#Onde está a Dartecor

A CVLTO sentou-se com o capitão da Dartecor, Leonel Costa. Leonel encontrou-nos há alguns meses na Indvlto, a primeira exposição de artes plásticas com curadoria da Cvlto, e que contou com artistas portugueses, espanhóis e chilenos. Na sequência de uma conversa acompanhada de sangria barata, a empatia automática trouxe a promessa de trabalharmos juntos.
Há planos que contam com o Leonel para 2020, e agradecemos publicamente por todo o interesse, prestabilidade e mão estendida com que sempre viria a trabalhar connosco.

Aqui fica aquilo que chamaremos de entrevista – esse nome burocrático que estabelecemos às tantas rubricas desta índole que temos vindo a apresentar na CVLTO, que são, na mais pura das veracidades, conversas simples, sobre temáticas complexas, com pessoas interessantíssimas.


CVLTO: Como é nasceu este interesse pela área artística? Passou pela tua formação académica? Tens alguém na família que te tenha incutido esse interesse…?
“Depois as tintas e a Dartecor surgiram porque eu sempre tive uma paixão muito grande por perceber como é que as coisas de fazem”

Leonel: Honestamente, a minha família teve zero influência. Comecei como conservador restaurador, tirei a formação nessa área e é curioso como se chega à conservação e restauro. Acho que todo o conservador restaurador tem uma história para contar, porque ninguém nasce a  pensar “quero ser conservador-restaurador” (risos). Sendo uma profissão relativamente nova, historicamente falando, ninguém lá vai parar por mero acaso. No meu caso, comecei por querer ser arquitecto. Fui parar artes com essa ideia de querer desenhar casas. Entretanto, já em arquitectura, percebi que para ser arquitecto era preciso ser muita bom. E desisti. Porque não era muita bom. (risos)

Enquanto eu estava neste dilema, via colegas meus a fazerem desenho belíssimos quase de olhos fechados, e eu sem saber desenhar nada. O pouco que sabia só tinha a ver com as técnicas que fui aprendendo. E percebi que não era nada criativo, ou pelo menos ao nível aquele registo artístico exigia. E esse dilema fez-me questionar: se não sou criativo, o que é que estou a fazer aqui? E eventualmente surgiu um conhecido que restaurava objectos antigos e me explicou como o fazia. Ganhava bem, lidava com arte, e não era preciso ser criativo! (risos)

A isto seguiu-se mudar de curso, passei para Restauro. Tirei uma especialização, já em contexto de mestrado, em Escultura e Madeira Policromada, e trabalhei 7 anos nessa área. Depois as tintas e a Dartecor surgiram porque eu sempre tive uma paixão muito grande por perceber como é que as coisas de fazem; olhar para uma garrafa e perceber o seu processo de produção, por exemplo. Fico fascinado com isso, vou pesquisar e perceber se o consigo reproduzir. E isto é uma maneira de pensar que o próprio restauro tem que ter também, até porque para conseguir intervencionar da melhor forma e restaurar seja o que for tens de conhecer o processo de produção de uma obra de arte.

Inicialmente pensei que fazer tintas para além de ser divertido seria relativamente fácil e rapidamente me apercebi que não. Fiz alguns testes, percebi que gostava de continuar a investir nisto, e eventualmente um investigador e professor brasileiro tornou-se o meu maior mentor e continua a ser uma boa parceria que mantenho. Surgiu ainda o contacto com alguns artistas que tiveram alguma curiosidade em perceber o que eu andava para aqui a fazer. Fui tentando absorver tudo o que podia relacionado com tintas e pigmentos, cheguei até a querer experimentar fazer pigmentos com tintas do meu quintal, e verifiquei que é absolutamente possível.

Tudo o que disse até agora foi até 2014. Eventualmente chegou a um ponto em que me sentia estagnado profissionalmente. Estava estável, quer em termos financeiros, quer em sentir-me completamente “autónomo”. Não havia mais “desafios”. E simultaneamente as tintas continuavam ali, sempre a chamar como se dissessem “Ou pegas nisto a sério e arrancas, ou…”. E a verdade é que já não conseguia dar resposta aos pedidos se continuasse daqueles módulos. Decidi então despedir-me e abraçar este projecto a tempo inteiro.

CVLTO: Essa decisão foi difícil?

Leonel: Não diria difícil. Se vamos pensar que é fácil, também não fazemos nada… Nesse processo de decisão houve um ponto de viragem, que foi o primeiro Workshop que dei. Eu sabia que queria pegar na minha formação e o que sabia sobre Conservação e Restauro e direccionar isto para o mundo das artes plásticas e da pintura. Houve um pintor cujo trabalho eu seguia à anos que me fascinava, o Carlos Barahona Possollo, com quem na nossa primeira conversa foi falado que deveríamos trabalhar juntos. E foi uma pessoa que percebeu muito depressa quais as minhas intenções com este projecto. Disponibilizou-se, disponibilizou o atelier dele e a sua rede de contactos, e assim aconteceria o primeiro workshop com 22 pessoas. E foi um workshop que foi bastante marcante na minha realização pessoal.

Lembro-me que vendi mais em material – que na altura ainda eram praticamente protótipos – que em inscrições. Acabei por agendar também, através de um dos participantes, outro workshop. E foi nessa altura que percebi que rapidamente estava a deixar de conseguir dar resposta porque quase tudo o que fazia era em pequeníssimas quantidades e tubo a tubo, o que se estava a tornar obviamente inviável. Para além de todos os pequenos erros que só numa produção em série é que se conseguem corrigir. Parei durante quase um ano, reformulei a Dartecor, e voltei a arrancar.

CVLTO: Portanto, desde sempre que o Feedback tem estado a ser positivo? És o único produtor desta linha de materiais a nível nacional?

Leonel: Sim. Não há nenhum projecto idêntico, apesar de ter “pouco público” o facto de ser único também possibilita que eu esteja relativamente “à vontade”. Também não é qualquer pessoa que o consiga fazer. Penso que em Sevilha existe um senhor, bem mais velho do que eu, que faz algo idêntico, com uma loja com produção interna da marca dele. Há algumas marcas que começaram neste registo mas que entretanto já estão semi industrializadas. Fora isso, que eu saiba não…

CVLTO: Já foste abordado por lojas maiores? No registo do Ponto das Artes ou da antiga Papelaria Fernandes, por exemplo? Ou também é um lugar que não te interessa actualmente?

Leonel: Este primeiro ano é um ano de reconhecimento de mercado e de perceber as necessidades, mais do que criar uma coisa que eu efectivamente gosto mas que se calhar não é bem o que o público precisa. No entanto também é complicado, por mais que explique o conceito e a diferenciação entre esta marca e possivelmente uma Winsor & Newton as pessoas acabam por muito mais depressa escolher a última, porque já tem nome e porque já é uma referência no mercado. Uma marca nova pode depender muito de alguém que saiba como correctamente vender o produto, ou das próprias margens a nível de preço, por exemplo. Tudo isto faz com que as lojas não sejam o meu foco principal actualmente. Claro que se a loja fizer efectivamente questão de lá ter o meu produto, aí é diferente. Mas prefiro desviar o meu tempo, a minha consultoria, e o contacto mais pessoal directamente para o artista, até porque é essa a maior diferenciação. Não que despreze de forma alguma as lojas.

CVLTO: Já consideraste a abertura de um espaço físico?

Leonel: Neste momento praticamente toda a produção depende de mim, desde as embalagens à facturação e à comercialização. E aquilo que não depende pretendo sempre que passe sempre por mim, penso que isso é fundamental. E isso obrigaria a mudar muita coisa. Tornar isto de outra forma… Para já, não sei. Não tenho uma resposta definita ainda.

CVLTO: E qual será a maior diferença entre aquilo que tu podes oferecer com a DarteCor, e aquilo que outras marcas já oferecem? Não apenas ao nível dos materiais, mas também ao nível do acompanhamento mais individual dos artistas.
“Dou muito valor a essa personalização e no contacto com o artista”

Leonel: A DarteCor funciona a partir desse conjunto. Dou muito valor a essa personalização e no contacto com o artista e isso é que será a principal diferença. Há dúvidas e questões que podem ser esclarecidas comigo, e que são perfeitamente normais e por vezes um lojista não saberá explicar. Acaba-se por gastar mais dinheiro, perder mais tempo, e desta forma por vezes basta uma chamada para se esclarecerem coisas simples. E coisas mais específicas não são fáceis de esclarecer por um lojista, e eu posso direccionar para o que funciona melhor e também porque é que funciona melhor.

É curioso que sigo alguns grupos, nomeadamente no facebook, de pessoal que leva a pintura a óleo mesmo ao limite. Isto é; tudo do melhor e materiais espectaculares, pessoas que lêem artigos e que se preocupam efectivamente com o seu trabalho. E é engraçado que quando surgem determinadas dúvidas e nenhum deles consegue ajudar, a resposta é sempre: Pergunta a um restaurador. E por isso é que ter um restaurador junto dos pintores, a conseguir dar este Feedback sobre o material acaba por ser raro. E até talvez seja também raro até, ter um restaurador que consiga fazer essa ponte não só ao nível dos materiais usados mas também tendo em conta o processo criativo e conceptual… Porque aí já estamos a falar da pré-produção outra vez, e não apenas da vida e longevidade da obra concebida. Porque nessa “segunda parte” aquilo que o restaurador vai apontar serão pequenas negligências que o artista cometeu, muitas vezes por algumas falhas de conhecimento facilmente resolvíveis nessa tal pré-produção.

Também acontece por vezes, quando explico o projecto, alguns artistas dizerem coisas como: “Ah, mas eu não quero isso… Eu quero é experimentar, quero que isto se destrua tudo, quero é que não sei o quê…”. Ok, eu também posso explicar-te como é que isso se destrói, se assim o quiseres! (risos) Também sei como é que se acende um isqueiro… Estas também são as vantagens de este projecto ainda ser pequeno. E avaliando os artistas desta forma acaba por permitir poder direccionar a minha própria produção de material consoante as necessidades de um mercado mais localizado. E materiais de muita qualidade. Porque a tendência, não só em Portugal, mas mesmo globalmente, é este mercado de material artístico estar muito direccionado para o artista mais “amador”.

Se formos ver as marcas nos 80, a qualidade era astronomicamente melhor. Actualmente as coisas industrializaram-se… Está tudo virado muito para o lucro. E há toda uma gestão de interesse/procura por parte das lojas que detém esse monopólio que acaba por virar nessa direcção.

“Ok, eu também posso explicar-te como é que isso se destrói, se assim o quiseres!”
CVLTO: Pelo que entendi, o custo do teu material não está muito acima do que já temos. Talvez se pudesse pensar isso porque se a produção é uma coisa que é feita de uma forma mais artesanal seria expectável um preço mais alto, no entanto não é.

Leonel: Normalmente cada marca tem sempre duas gamas: uma gama estudante e uma gama profissional. Depois há algumas marcas que têm a chamada gama premium. A gama da DarteCor de tintas a óleo enquadra-se nos critérios de gama premium. No entanto, a nível de preço está entre a gama estudante e a gama profissional. Eu consigo isto porque sou eu que faço a produção e passo o retalho, porque se entrar no registo de mercado não conseguiria e teria de obviamente aumentar os preços.

É curioso que a minha marca praticar estes preços faz com que o público estrangeiro tenha alguma dificuldade em comprar, porque acha que é demasiado barato para a qualidade que tem. Já ouvi comentários desse género… Mas ao fim ao cabo, isto faz com que consiga atingir um público mais amador e que acaba por ser também mais consumista, e também um público profissional mais exigente.

CVLTO: Tens tido alguma procura vinda do estrangeiro?

Leonel: Tenho alguma procura por parte de brasileiros, principalmente. O que é normal, porque os primeiros contactos e referências da Dartecor no início eram oriundas do Brasil, nomeadamente esse consultor que referi atrás. Fora isso, é muito pelas redes sociais até porque já tenho uma ou outra estratégia para divulgar de forma mais internacional, e depois há também gente muito curiosa. Mas o foco continua a ser o tal contacto pessoal e presencial.

CVLTO: Já consideraste contratar mais alguém para a Dartecor?

Leonel: A estrutura que existe está preparada para um certo timming de produção, criar stock e fazer a venda. Era bom sinal que isso acontecesse, porque é sinal que estaria a crescer. Mas para já, apesar de existir alguma necessidade, ainda não se justifica. E na verdade aquilo que ocupa menos tempo é mesmo a produção. Não que não seja difícil fazer esta gestão toda porque pensar e estruturar isto para conseguir definir os processos todos, ir constantemente tentando optimizar e aumentar a produção em série… Mas a parte mais trabalhosa continua a ser o contacto com o cliente e as vendas, porque dependem desse contacto mais personalizado, e para já prefiro ser eu a fazê-lo.

CVLTO: Como é que funciona o marketing na Dartecor?

Leonel: Por acaso isso é uma coisa que tenho que estudar mais. E que também é uma das coisas que estou a avaliar. O que tem resultado mais com a Dartecor é o contacto pessoal, o passa-palavra e o comprovativo da qualidade depois da compra. E esse é, e sempre será o marketing mais verdadeiro e que funciona com mais eficiência. Quanto ao marketing digital… Tem que ser trabalhado. E terá que ser uma pessoa dedicada 100% a isso. Claro que vou fazendo algumas coisas, vou tentando não deixar morrer mas também não é de todo aquilo em que perco mais tempo. E as coisas demoram a acontecer no digital… Essa ideia de que aquilo se publica e se fazem 10 vendas no dia a seguir é uma coisa completamente irreal.

“Se calhar há essa ilusão de que se tira um curso e que já se é capaz de conquistar o mundo… E não. Custa, e custa bastante.”
CVLTO: A Dartecor é um projecto que está muito virado para aquilo que será o domínio da matéria, que é uma das ferramentas para um trabalho plástico bem sucedido. Mas existem outras, e muitas destas residem numa aprendizagem institucional. Sentes que existem falhas no que à instituição diz respeito?

Leonel: Aquilo que mais oiço da parte dos artistas é que os cursos de artes plásticas muitas vezes acabam por não corresponder às expectativas esperadas, e que depois do seu término não conseguem muitas vezes trabalhar na área. Mas a instituição deve dar as bases, e o artista é que deve desenvolver um conhecimento do mercado, da sua própria identidade e daquilo que quer fazer. E esse caminho percebe-se também com o crescimento porque a universidade não o vai dar todo, quando muito dá as primeiras pedrinhas.

Se calhar há essa ilusão de que se tira um curso e que já se é capaz de conquistar o mundo… E não. Custa, e custa bastante. E isto passa pela matéria também, porque o artista deve estar ciente das técnicas, perceber o que existe para posteriormente criar algo novo. Muitos fogem do academismo, e na minha opinião toda a gente deve passar por lá. O Picasso para chegar ao Cubismo passou obrigatoriamente pelo domínio de desenho realista. E é importante passar por essa fase para depois a desconstruir. E quem não passa por aí, transparece isso no trabalho. Isto também acaba por tornar tão, mas tão fácil, identificar em Portugal quem são os artistas com qualidade. Se calhar não devia estar a dizer isto (risos)

CVLTO: A argumentação e o sustento das respostas interessam-nos na Cvlto. Se uma determinada exposição de arte contemporânea é “lixo”, por exemplo, interessa-nos perceber porque é que um indivíduo opina nesse sentido negativo, e outro potencialmente opina no sentido positivo. E o background – que não tem que ser institucional e académico, nem tem que ser assente em validações periféricas como a idade – das pessoas e o que elas consequentemente têm para dizer sobre a arte actualmente interessa-nos.

Leonel: Se é “lixo”, diz-me porque é que é lixo. Depois há o gosto pessoal, inevitavelmente. Há quem goste de figurativo, há quem goste de uma coisa mais abstrata. Há quem prefira uma dimensão conceptual profunda, e quem descarte um pouco isso em nome do que é visual. Quanto à parte da matéria, esta é uma coisa que se vê. Que está ali. Que é um facto. Está ali que aquilo está mal. Há quem desvalorize isso, e quem valorize. Mas quem valoriza destaca-se. Há uns meses estive numa exposição com quase 200 pinturas, pelo menos 50 destas estavam empenadas. 3 ou 4 usavam linho, ou respeitavam qualquer critério quanto ao tecido. Se calhar 4 ou 5 estavam envernizadas.

Um artista que selecciona um bom suporte ou que sabe utilizar um suporte diferente, bem apresentado até já pode pedir mais 100€ ou 200€ pela peça. Porque vale. Às vezes nem está lá conceptualismo nenhum, nem grande técnica, mas a apresentação está incrível. E isso muda tudo. Tenho trabalhado imenso com um artista bastante novo, o Rafael Oliveira, que é uma pessoa que atenta imenso nos pormenores e que realmente quer fazer um bom trabalho. É preocupado, procura novas soluções. E isso é o que faz com que trabalhemos juntos. E também é o que fez com que tivesse ganho a Bienal de Espinho. E quem viu a obra, quem viu o contexto, percebe do que estou a falar. E claro que isto junto de alguém que não tem esta série de cuidados e preocupações, faz toda a diferença.

CVLTO: Será que estes cuidados e preocupações, também não passam um pouco pelo poder financeiro do artista?

Leonel: A vantagem de trabalhar comigo também é por aí. Porque independentemente do à vontade financeiro, consegue-se fazer essa adaptação à técnica do artista. Se o artista não pode comprar o melhor linho que existe no mercado, compra um mais em conta e em vez de o comprar preparado, compra um linho cru e prepara-o ele. E isso permite uma ginástica financeira melhor. Se calhar também há artistas que vão usar uma tinta estudante e isso que funciona para eles, nem eu pretendo vender gato por lebre, nem vender um produto a um artista que depois não o vai consumir. Mas o que me dá gozo em avançar com este projecto é ver o quão aceite o meu trabalho tem sido e os meus produtos bem recebidos.

CVLTO: Sabemos que recorrentemente organizas também workshops da Dartecor. Num futuro próximo pretendes continuar, ou expandir para outro tipo de actividades com o projecto?

Leonel: Tenho lançado alguns desafios a algumas instituições, e tem existido receptividade para estas coisas acontecerem. O Museu do Oriente foi uma sugestão que foi muito bem aceite, e que tem estado a correr muito bem. Tenho algumas propostas, coisas como artistas que têm um pequeno atelier em que dão aulas de pintura e eu consigo com os alunos deste organizar algo. Fica o convite à CVLTO para trabalharmos juntos, temos tido muitas perguntas de para quando uma destas actividades na zona Norte.

CVLTO: Muito obrigada. Trabalharemos.

Text de Ana Garcia de Mascarenhas

Fotografias de Pedro Zimann