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#QuemPensa é Sérgio Morais: “O Jair fez-me uma écharpe”

#QuemPensa é Sérgio Morais: “O Jair fez-me uma écharpe”

“E os 'spinders' do estilista Jair Bolsonaro? Ui, que regabofe! Ai que delícia! Tanta piadinha que teve. Fiz xixi pelas pernas abaixo.”


Para quem não sabe, a revista Magg inventou uma tendência que apresentou a vários espetadores da última edição do Portugal Fashion. Tendência essa que foi, supostamente, apresentada ao mercado pelo estilista Jair Bolsonaro. Como conseguimos entender, porque vimos pelo menos uma vez as notícias nos últimos cinco meses, isto é a brincar; mas o resultado foi uma panóplia curiosa de entendidos na matéria. Sim, porque muita gente disse que adorava a nova moda e o estilista – que, neste caso, abusaria das finger guns para atrair modelos, sei lá.

Já viram que catita que isto é? Pelo menos eu tenho de perguntar o seguinte: não vos assusta a quantidade de gente que responde dessa forma num vídeo assim? Eu não acho o vídeo engraçado. Acho útil, para que muita gente sinta um bocado de vergonha na cara por não se interessar minimamente pelo que se passa ao seu redor, mas engraçado? Pá, a minha cara a ver o vídeo foi a mesma que a de mais de metade da população que assistiu ao Benfica – Moreirense, seguida da tão afamada interjeição: “Foda-se”. Foi um exercício horrendo de vergonha alheia, e eu não entendo muito bem como isto pode passar como uma piada. Pensem bem: há uma percentagem de pessoas que, ao serem confrontadas com o nome Jair Bolsonaro num evento de moda, nem sequer pensam na abécula de extrema-direita que habita em terras brasileiras. “Ai, não não. Não vou ficar mal visto. Se eles dizem que é estilista é porque tem de ser”. Ganhem juízo. Isto é um problema.

E digo mais, eu não culpo as pessoas em si. Culpo sim a merda do descrédito que têm dado à cultura e ao conhecimento nos últimos anos. Se a generalidade da população dos países ocidentalizados sempre foi despreocupada e regada de um egocentrismo idiota, incutido por anos de falta de pensamento crítico, então digo que atingimos um pináculo, ou o fundo da cova, dependendo da perspetiva. É que neste momento o que atinge a massa não é de todo o artista esforçado, mas sim o menino bonito que canta com auto-tune , o youtuber que faz vídeos a atirar-se do telhado de uma casa para uma piscina, e a influencer que tem mais rabo que cabeça.

E sim, o desenvolvimento tecnológico trouxe muitas maravilhas, uma delas sendo uma possibilidade de conhecimento muito mais alargada, porém (e paradoxalmente) vemos cada vez mais desprezo pela sabedoria e muito mais desejo de facilitismo e automatizações parvas. Será que é por a generalidade dos “ídolos” e “pessoas de referência” fazerem passar a ideia de que o mundo é fácil de desmistificar se seguirem uma data de passos que figuram da sua música ou do seu livro, postos lá pela agência de publicidade? Se calhar. Não estou a dizer que sejam todos um exercício oco de existência, mas sujeitam-se ao verdadeiro problema do ser humano: a sede de dinheiro; sem muitas vezes pensarem no que seria melhor para as pessoas – sabem, aquelas que não são feitas de papel.

“Mas Sérgio, as pessoas gostam do que gostam”.
Ok, e o que comeste com essa salada?

Vamos continuar a gerar pessoas que idolatram gente que faz parvoíces e têm vidas completamente regidas por o quão comerciais e vendáveis podem ser? Maravilha. Siga! Daqui a um bocado falamos dos Lusíadas e deparamo-nos com a pergunta: mas isso é o novo som do Agir? Vamos ponderar o seguinte: uma das centenas de milhares de críticas que se pode tecer ao regime salazarista é a de que eles queriam uma população maioritariamente analfabeta, de modo a que não pensassem no que se passava no país e só produzissem; se substituirmos “regime salazarista” por “teia corporativa” e “produzissem” por “consumissem” temos o que, para mim, acontece em grande escala agora. E ainda me dizem que o capitalismo é o que é natural no mundo. As coisas repetem-se com nomes diferentes, e pior que cego é aquele que não quer ver, já diziam os meus avós.

Vocês já sabem, eu sou um rabugento no papel. Na realidade isto assola-me. Enche-me de uma tristeza tal que me impede de nem ligar a estas coisas. Se calhar era mesmo melhor estar no meu canto, como escrevi há uns tempos atrás num poema qualquer, e viver a minha vida sem querer saber do que os outros fazem. Mas, apesar de teimar com a solidão, eu gosto de ver a gente a passar, mesmo que não me falem. Queria era que essa gente vivesse a sua vida pelo que acha correto, e não uma vida repetida, porque lhes dizem na escola, ou em casa, ou na universidade, que tem de ser assim. De uma coisa eu tenho a certeza: dadas as ferramentas certas, qualquer um pode pensar por si.

 

Sérgio Morais.

 

Petisuis II – Adrian Cevert