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#ComoFoi Metal Fiesta Reloaded

#ComoFoi Metal Fiesta Reloaded

Pela segunda vez, acabamos com toda a cerveja do Metalpoint, e desta vez com toda a cerveja da Mena, também.


Nota da redacção: para manter a linha da reportagem da primeira Metal Fiesta, a vossa humilde repórter fez questão de se emborrachar na tradição Drunk on Drugs para fazer um recontar na primeira pessoa justo e ébrio desta noite de suor e deboche.

Desta vez cheguei a horas. E fiz questão que tudo o que me toldasse a mente e a visão fosse bebido entre o balcão do Metalpoint e a mesa de plástico da Drunk on Drugs. Missão cumprida.

Tivemos também o prazer de trabalhar com o João Torres Neves, da Seven Concept Media, pela primeira vez. Obrigada pelas imagens de olhar sóbrio!

Logo à entrada do Metalpoint estava o Hugo Mateus, da Magma Wear, rodeado das lindas t-shirts e tote bags que levam o selo Magma. Estive a noite toda a namorar a tote bag que resume a minha vida: “Death before decaf”. Mas acabei por gastar o dinheiro em alcoól. Eu sei. Uma vergonha. Mas ela há-de ser minha, juro.

Fotografia tirada pela malta da Evoke Collective durante a Filha da CVLTO.

O segundo evento organizado pela malta da Drunk on Drugs esteve bem ao nível do primeiro. Foi mais arriscado e isso é de aplaudir: juntar duas bandas de stoner psicadélico e duas bandas de grind é um risky fucking move. Mas eles conseguiram misturar os públicos e fazer a coisa funcionar como só eles fazem: bem lubrificada com alcoól.

Tirem as mentes da sarjeta, pá!

Arrancamos a noite num registo romântico e quase pornográfico, dito pelos próprios Madmess.

Madmess já é nome familiar da casa, pela album party que fizeram no Barracuda e sobre que escrevemos aqui há bem pouco tempo. Aproveitando o verão que passam em Portugal junto dos seus, foram dar um pézinho no tasco mais ruídoso da cidade.

O que é fixe em Madmess é que todos eles vieram de sítios muito diferentes no que à música diz respeito: o baterista veio do metal, o guitarrista veio do psicadélico dos 70s e o baixista veio do funk, e isso nota-se bem.

Por isso é que dizem tocar “porno-rock”. E faz sentido, de facto.

É quando saem do psicadelismo e puxam um bocadinho mais de carroça que se veêm cabeleiras a sacudir. Olho em volta e há metaleiros a dançar amarradinhos, que bonito.

Madmess consegue fundir sonoridades mais pesadas que piscam o olho ao doom com o que rapidamente identificamos como o psicadélico dos 60s. Em muito, estes rapazes parecem-me ser os justos herdeiros de um grande (e completamente underrated) projecto do psicadélico português: os Xarangha.

E que bela herança carregam com eles.

Claramente a tropa do grind está a estranhar, mas vê-se um fiozinho de suor a escorrer pela têmpora. Sabe deus (ou o Diabo) se é do calor insuportável ou do sexo na sonoridade dos madmess.

Há cornos de unicórnio, pulseiras e orelhinhas neon. O warmup do NeoPop foi no Metalpoint, mas depois de tanto aquecimento, a malta optou por ir molhar os guizos a outro sítio que não Viana. Fosse na tempestade de Moledo ou no regadio de alcoól de Vagos, todos os caminhos que saíam do Metalpoint levavam a longe de Viana.

Também anda lá a passear um chapéu que parecia do Tonecas. O Tonecas cagou na escola, descobriu a cerveja morna e começou a ouvir thrash.

Esse chapéu chegou a ir parar à cabeça do Flamazinger, que cuidava de uma melancia.

A melancia mais importante do mundo, para todos os efeitos.

Dentro dela, o meu veneno de eleição para a noite. A par, claro, dos malditos ursinhos alcoólicos. Que, nessa noite, tiveram mais alcoól que da última vez.

Obrigadinha, já agora.

Lá estava outra vez a caixa dos leprosos, também, a acompanhar os shots de edição especial. Desta vez não houve shot de Jarda, para muito alívio meu, mas para minha desgraça trouxeram de volta o Grave Digger, com licor café.

HVMVCVDV (ou Homicide, para os fracos que não sabem ler o silêncio do V) são a derradeira representação de “noise not music”. São três em palco – guitarra de oito cordas, voz (se é que assim se lhe pode chamar) e bateria – e uma wild card no público.

Ele era o ponta-de-lança. O camisola amarela. O pivot. O porta-estandarte. O incendiário. O incitador do pânico e horror.

Ora que se sentava em cima da munição, ora que saía de cima dela e era a lavrar terreno pelo meio do público.

O chico-espertismo dos nossos amiguinhos da Drunk on Drugs de separar “trves” e “posers” com fita gaffer a separar uma linha no chão, pela altura de HVMVCVDV, já tinha ido c’os cães. O moshpit já rebentou com a tentativa de sectarismo. Não há linha que se aguente muito tempo no Metalpoint.

Linha de guitarra ou de baixo, claro que me refiro.
Em jeito de nota de rodapé que serve bem de contexto ao deboche e à bebedeira. Serve dupla função: descrever a festa e descrever a alcoolémia que a acompanhou. Cito textualmente o que as minhas notas me ditam:

“Comboio do metaleiro chu chu viemos queimar a tua cidade filho da puta”

E depois do comboio do metaleiro durante o concerto de uma das bandas de grind mais nojentas que já ouvi, vejo duas bonitas garotas metaleiras a dançarem uma bonita muiñeira no meio do público ao som de um horrível grindcore. Para os leigos, a muiñeira é o equivalente galego do vira, mas mais bonito.

Ao sairmos de HVMVCVDV, o Stop está aos gritos. Há um alarme monopolizador de toda a atenção a fazer-se ouvir desde antes do fim do concerto. Será do fumo? Impossível. Será do cheiro a suor? Plausível.

Cruzo-me com a Pepper, ex-vocalista dos lendários Misantropia, que com o seu clássico sorrisinho maroto olha para mim e diz-me:

“Estás a ouvir este alarme?”
“Hã? Claro.”
“Pode-se dizer que é um pouco… (pausa dramática) alarmante.”

Lido pode não ter tanta piada como teve no momento, mas confesso que lutei um nadinha com a bexiga enquanto me ria à gargalhada.

E como na primeira volta da Metal Fiesta, temos o palhaço do Hugh Dick a tentar fazer o melhor Manuel Luís Goucha que consegue. Então antes de Orangotango temos um passatempo que vos pode habilitar a uma magnífica viatura ou se calhar só um par de bofas no focinho.

Chama quatro voluntários engraçados ao palco, para participarem num roast às suas bandas favoritas. E as quatro bandas nomeadas foram… Atomic Bitchwax, Rotten Sound, Jarda e um desistente. Fraco.

Então qual era a missão dos quatro engraçadinhos voluntários? Tinham de dizer porque é que as suas bandas não prestam. Honestamente, nem vale a pena o esforço de listar os “roasts” que foram feitos às bandas, porque nem os voluntários se esforçaram em trashar as bandas que escolheram.

Toda a gente desqualificada, fodam-se. Ninguém leva nada para casa a não ser uma gritante humilhação.

Finalmente sobem os nossos amigos Orangotango, que na 12ª edição da Kola Moka trouxeram o Barracuda abaixo com o seu stoner rock com cheirinho a doom, a psicadélico e a suor. A coisa boa de Orangotango é o seu quê nostálgico aos beijinhos com o stoner contemporâneo. Nostálgico porque, como já escrevi no passado, o power trio de Valongo “toca um stoner psicadélico bem rápido, e bem feroz, assim ao estilo de Radio Moscow quando eram bons”.

Desta feita não vos sei descrever bem por onde passou o safari para onde nos levaram nesta tórrida noite de Agosto. Mas foi quente, e agitado, e a escorrer suor.

Nota de destaque para o meu amigo Padre Américo, dos Jarda, a sacudir suavemente a sua longa cabeleira na fila da frente, e para a t-shirt de St. Pauli do frontman Cájó, a representar a luta antifascista no palco do Metalpoint.

De sublinhar também o muito maior à-vontade que eles os três mostraram desta feita, quando comparando com o concerto que deram no Barracuda.
Mas esse represent não durou até ao fim do gig, quando o pudor perdeu a luta para o calor, e as t-shirts acabaram todas a ir c’os cães.

Mas vá, têm que me perdoar o alcoól e a mente ordinária. Verdade é que a experiência de Orangotango é sui generis pela energia que destilam na sua música. O facto de se agarrarem a um léxico que remete para o imaginário que nós, brancos esquálidos, temos do Sudeste Asiático não é um acaso.

“Bolt”, “Dust”, “Ride”. “Sumatra”. “Orangotango”.

Palavras curtas que em si têm uma dimensão de viagem, de safari (repito-me, eu sei, deslarguem-me, básicas). E eles conseguem realmente imbuir o seu stoner rock desse calor húmido e paisagens de arvoredo denso.

De sublinhar também o muito maior à-vontade que eles os três mostraram desta feita, quando comparando com o concerto que deram no Barracuda, não obstante estarem perante um público muito mais heterogéneo do que estavam naquela noite patrocinada pelo Kola Moka.

E depois sobe a banda que mais expectativa criou nesta segunda edição da Metal Fiesta – La Hija del Carroñero. Esta banda de grind espanhola não pisava palco desde 2017, e foi um golpe de mestre dos nossos amiguinhos Partyboy, Flamazinger e Angry&Hateful.

Agora para vos provar que esta cabeça é um poço sem fundo de trivialidades inúteis: “La Hija del Carroñero” é, na verdade, um instrumento de tortura medieval. Colocando as suas vítimas sobre um estrutura metálica com um sistema de porcas e anilhas, a pressão exercida era de tal ordem que há relatos de sangue a brotar de todos os orifícios da pessoa torturada. Quando estendida a estrutura metálica da “Hija del Carroñero”, as lesões causadas iam desde costelas partidas, a esternos deslocados, e colunas vertebrais que se estendiam ao ponto da ruptura, como se de uma diabólica tenaz se tratasse.

Sublime.
Absolutamente sublime.

E o deathgrind, ou blackened crust, ou seja lá o que for que se chame a estes animais, faz justiça à lenda da Hija del Carroñero.

O álbum de 2015, “Culto Macabro” é uma obra-prima. Dos guturais mais luciferianos, aos blast beats mais selvagens, aos pig squeals que deixariam Samael encolhido, La Hija del Carroñero é a confirmação do mote:

“In Grind we Crust.”

Tem o suficiente de grind para ser rápido e nojento, e o suficiente de crust para permitir que uma punk velha como eu consiga cerrar os maxilares e levantar o punho.

Também deu direito ao mais perigoso moshpit a que alguma vez assisti. Não pela escala, não pela violência, mas pela falta de atrito. Por aquela altura, a condensação, a humidade e a cerveja, já criavam charcos no chão de tijoleira do Metalpoint.

Imaginem um ice rink, mas ninguém tem patins de gelo, e o gelo está estalado e a derreter, e está toda a gente bêbeda. É mais ou menos isso.

La Hija del Carroñero foi a segunda melhor coisa desta noite. A melhor mesmo foi o veneno de melancia.

Outra nota de rodapé: tinha apontado no meu bloco de notas o seguinte comentário – “Fraquinhos, pá, fraquinhos. Piores que a polícia”.
A que isto se respeita, nem desconfio. Mas fica em jeito de desafio para quem se lembrar.

Temos de, de novo, tirar o chapéu (e não o do Tonecas) ao Metalpoint e aos rapazes da Drunk on Drugs. Pela segunda vez, acabamos com toda a cerveja do Metalpoint, e desta vez com toda a cerveja da Mena, também.

Se é para ser, é para ser. E foi, e de que maneira.

Um dos rapazes dos Jarda contou-me a seguinte anedota:
Como é que se faz miar um bebé? Metes na máquina de fiambre e faz “miiiiiiuuuu”.
A culpa é deles.

 

Texto: Zita Moura
Fotos: Zita Moura e João Torres Neves (sevenconceptmedia)