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#OndeEstá a Mescla

#OndeEstá a Mescla

Num discreto pátio nas entranhas do Porto, há uma mescla de visões e sonhos que se imprimem em pedra, e chapa de cobre, e linóleo.


Falamos, claro, da Oficina Mescla, aberta em Março deste ano.

À frente da Mescla estão duas pessoas de coração e braços abertos – Alexandra Rafael e Tomás Dias – que à primeira vista não podem ser mais diferentes, mas à segunda vista percebemos que funcionam de forma absolutamente simbiótica.

Alexandra tem 29 anos, tem um Mestrado em Desenho Técnico e Técnicas de

A Mescla surge de uma vontade comum de democratizar o acesso a estas técnicas.

Impressão pela FBAUP, e Tomás tem 60, e é mestre de artes gráficas e impressão. Mestre na antiga acepção da palavra, quando existiam os mestres de pintura e os mestres oficinais.

Juntos, concretizaram um sonho partilhado – o de criarem uma oficina de artes gráficas com as três principais técnicas de impressão que fosse verdadeiramente aberta ao público. A Mescla surge então de uma vontade comum de democratizar o acesso a estas técnicas, duas das quais ainda profundamente desconhecidas do público geral.

Falamos de serigrafia, litografia e gravura.

E de onde surge esta bonita amizade e projecto conjunto?

“Demo-nos logo super bem. Estávamos sempre a trabalhar e na cavaqueira”.

Um mestrado, uma vassoura e uma pá, e uma parede que se faz porta

Foi só no final da sua licenciatura em Multimédia na FBAUP que Alexandra descobriu a gravura, e o gozo imenso que essa técnica que lhe dava, pelo que decidiu enveredar pelo Mestrado em Desenho Técnico e Técnicas de Impressão.

E na sequência do Mestrado, é convidada a participar na Bienal da Maia, em 2017, com uma gravura original que teria necessariamente que ser realizada nas oficinas de Tomás Dias, com quem Alexandra já se tinha cruzado previamente numa residência artística que realizara na Árvore Cooperativa.

Tomás trabalhava entre a Árvore Cooperativa e a Árvore escola, que hoje são uma mesma instituição. No decorrer dessa residência artística de Alexandra, cruzam-se pontualmente, e acabam por vir realmente a trabalhar juntos para a Bienal da Maia, juntamente com mais alguns estudantes da FBAUP que já tinham background de serigrafia e gravura.

“Demo-nos logo super bem. Estávamos sempre a trabalhar e na cavaqueira”, assegura Alexandra, entre sorrisos.

Logo após a Bienal surge um convite para uma exposição individual na Galeria das Salgadeiras, em Lisboa, mas Alexandra já havia terminado o Mestrado e ficara sem sítio para desenvolver o seu trabalho. Tomás foi a única hipótese que se lhe afigurou.

“Expliquei que precisava da ajuda dele, e ele automaticamente disse que sim, e trabalhámos juntos meio ano para a minha exposição.”

Foi logo nessa altura que surgiu uma vontade imensa de Alexandra de criar um espaço de facto aberto ao público, para que se pudesse trabalhar com recurso a equipamentos de difícil acesso. Se Alexandra teve acesso às oficinas da Árvore, foi porque ficou amiga de Tomás, porque de outra forma dificilmente poderia aceder ao material e equipamento de que necessitava. Especialmente se se falasse de técnicas menos conhecidas como gravura ou litografia.

“Sempre foi uma coisa que falámos os dois. Queria tanto abrir um espaço onde as pessoas pudessem vir fazer e aprender e trabalhar, e pudesses alugar à hora, ou pudesses encomendar. Sem ser tão underground.”

E para Alexandra era evidente: “Eu junto-me a ti, Tomás, porque eu quero que aprendam como eu aprendi, com o melhor!”

E “o melhor” de que Alexandra tanto se orgulha começou da forma mais humilde que se pode começar: com uma vassoura e uma pá.

Até hoje, Tomás transporta essa humildade consigo. Conta à CVLTO como é que chega ao momento em que as artes gráficas surgem na sua vida, na mesma instituição onde acaba por vir conhecer Alexandra.

“Tinha de fazer essa passagem.”

Num momento caótico da sua vida, recém-chegado da tropa e com o falecimento da mãe, Tomás estava um tanto ou quanto à deriva. Até que um professor da sua irmã, que estudava na Árvore, anuncia que tem um projecto para criar umas oficinas, mas precisava de gente disposta a trabalhar com ele, e a começar de baixo.

É assim que Tomás começa, em 1980, sob a alçada do Professor Henrique Silva. Aqui citamos textualmente a rábula que Tomás nos conta, pela ternura das suas palavras:

“Eu entrei e ele não me passou bola. Estava assim um bocado de frio, eu estava encasacado, e o professor continuou a trabalhar. Passado um bocado ele olha para mim, e pergunta ‘O que é que estás aí a fazer?’ ‘Estou à espera.’ ‘Mas estás à espera do quê?’ ‘Tou à espera que o Professor…’ ‘Eu não, tu não vieste para trabalhar? Não és irmão da Isabel? Então olha, tens ali uma vassoura e um apanhador, esta treta está toda suja, começas numa ponta e acabas na outra.’ Até hoje.

Aprendi nos primeiros dez minutos numa oficina, onde entrei por baixo, que me puseram uma vassoura e uma pá na mão. No dia seguinte deram-me um banco e uma picareta para meter uma parede abaixo. Só tenho a agradecer a quem fez isso. Eu tive de construir o meu espaço de trabalho, limpando o chão que havia de pisar, e tive de meter abaixo uma parede para fazer uma porta, porque tive de passar de um atelier de gravura para um de litografia todos os dias. Tinha de fazer essa passagem.”

“Vem aprender”, “vem fazer”, “nós fazemos”.

A Mescla rege-se por estes três propósitos – o ensino de múltiplas técnicas de impressão, a disponibilização do espaço para trabalho, e a possibilidade de encomendas.

Tanto Alexandra como Tomás sentiam falta de um projecto que criasse estas três possibilidades e que explorasse as três principais técnicas de impressão – gravura, serigrafia e litografia. Todos os meses têm três cursos em funcionamento: as seriterças, as calcoquartas e as litoquintas. Estes cursos têm nível 1 e 2, para quem está mesmo a começar ou para quem já tem algumas noções da técnica que se propõe a aprender.

As seriterças são realizadas em parceria com Inês Bessa, do Cinco Sessenta, que foi um dos primeiros destaques que tivemos aqui na CVLTO.

Têm sido procurados por instituições como a ESMAD ou a FBAUP para os programas de formação contínua.

Para além disso, durante o mês de Julho tiveram as Oficinas de Verão Mescla Júnior, para a garotada aprender a fazer “técnicas de impressão como gravura em tetrapak, litografia com coca-cola, monoprints com acetatos, colografia sobre cartão prensado, serigrafia artesanal, relevo com esferovite”.

Mas o objectivo de Alexandra e de Tomás é abrangirem o máximo de público possível para os seus cursos, porque em grande parte quem os frequenta continuam a ser pessoas de uma ou outra forma ligada às artes. Inclusive têm sido procurados por instituições como a ESMAD ou a FBAUP para os programas de formação contínua.

Queremos democratizar o acesso a estas técnicas. E também por isso é que queríamos abrir uma oficina jovem, também queremos falar com a Universidade Sénior, e trazer toda a gente, não só quem é das Artes. E por isso é que temos vários níveis.”, explica Alexandra.

Toda esta abertura por parte do projecto e dos seus comandantes também se sente no espaço físico. A Mescla é ampla, é arejada, é luminosa, apesar de ser numa cave. Por isso, também há um espaço de coworking, e a possibilidade de alugar o espaço para palestras, conversas, tertúlias, workshops. Destes eventos, a Mescla pede apenas uma percentagem do valor cobrado. Se for de entrada livre, não pede nada, sequer.

“Queremos apoiar os projectos pequeninos, e crescemos também com os maiores.”

a Mescla permite a artistas gráficos que possam recorrer àquele espaço verdadeiramente partilhado.

Para além da possibilidade de aprendizagem – nova ou continuada – no espaço da Mescla, também é possível o aluguer do espaço para utilização dos equipamentos. Alexandra sublinhava uma e outra vez a falta que sentiu de ter um espaço de trabalho adequadamente equipado para desenvolver o seu trabalho pessoal após a saída das Belas Artes.

Assim, a Mescla permite a artistas gráficos que mesmo que não tenham espaço próprio de trabalho, possam recorrer àquele espaço verdadeiramente partilhado, onde poderão também estar acompanhados de um verdadeiro mestre de artes gráficas como é Tomás.

E a par de “vir aprender” e “vir fazer”, a Mescla também “faz”. Quer isto dizer que aceitam trabalhos por encomenda, sejam eles comerciais ou de artista.

Alexandra vai mostrando alguns dos trabalhos já feitos por encomenda – a título de exemplo, trabalharam para um hotel em Vila Real com preocupações ambientais, e que fez questão que os uniformes fossem desenhados com materiais sustentáveis e impressos com tintas não tóxicas.

Mas também é às edições de artista que se entregam. Á data desta entrevista, a Mescla começava a trabalhar num grande empreendimento para a Deriva Criativa, que queria uma série de 12 serigrafias para um grupo grande de artistas. Sem esquecer, claro, o trabalho que Tomás desenvolve há anos com “todos os Ferraris da praça”.

 

De um ontem penoso para um amanhã mais ligeiro.

“O trabalho é feito sempre com a mesma dedicação, seja edição de autor ou trabalho comercial.”

Tomás vai desvelando as suas rábulas, com um largo sorriso nos lábios, e uma chávena de café nas mãos. Mãos calejadas pelo tempo e pelo trabalho oficinal, que pontualmente vai passando no avental coberto de tintas.

“Já trabalhei com os Ferraris todos da praça.”, assegura, jingão.
Mas vão trabalhar desde os Ferraris, aos Mazdas, aos Corollas velhinhos.

“Já fiz workshops de gravura em metal para infantário, de manhã, e à tarde ia trabalhar com o Mestre Resende. Eu trato as pessoas todas por igual, mas há uma bitola alta. Sempre com consideração, e todos me merecem consideração. Eu para trabalhar preciso de toda a gente, do mais pequeno ao maior. O trabalho é feito sempre com a mesma dedicação, seja edição de autor ou trabalho comercial.”

E é essa dedicação de que Tomás ia falando, dessa humildade, que fica a impressão mais funda. Em jeito de nota de rodapé, a caixa de entrada do Instagram da CVLTO encheu-se de mensagens cheias de carinho e de saudade do “Professor Tomás” assim que se anunciou que era com ele e Alexandra que nos sentávamos à mesa para conversar.

Alexandra enche-se ela própria de sorrisos a ouvir Tomás falar.

É evidente que tanta ela como ele tiveram um percurso tortuoso até chegarem àquele ponto. Tomás fala cheio de orgulho do trabalho oficinal e do trabalho com as mãos, mas até chegar à posição de mestre houve muita parede que teve que escavacar, muito quadro que teve que limpar, muita chapa que teve que polir. E esse é dos poucos momentos em que o sorriso de Tomás se esconde por trás do bigode e os olhos profundamente azuis se encolhem um nadinha, é quando afirma que hoje em dia poucos são os artistas que estão dispostos a realmente sujar as mãos, pelos facilitismos a que hoje nos habituamos.

E isso poderia ter sido assustador para Tomás, a ideia de abrir uma oficina com uma artista com metade da idade dele. Mas não foi, de todo, assegurou. Desse grupo de estudantes “repescado das Belas Artes” que foi levado para a sua oficina para a Bienal da Maia, ele teve uma certeza: “se tiver que dar artista no meio daquela gente toda é ela”.

“Agradou-me tanto alguém que chegasse cheio de energia ‘ai eu gosto tanto de gravura e quando eu tiver uma oficina o Tomás vem comigo!’ e cá estamos.”

Mas até lá chegarmos Alexandra teve de penar um tanto ou quanto. Mantendo um trabalho “normal” para conseguir sustentar o seu trabalho artístico, como muitos artistas também se obrigam a fazer, reconhece que é fácil perder de vista os objectivos que à arte respeitam.

“Ter outros trabalhos não pode ser visto como ficar para trás. Conheço imensos artistas talentosos que estão presos em trabalhos normais porque precisam deles para sustentar o seu trabalho artístico.”

E a Mescla, por ser um projecto tão seu e que de tanto orgulho a enche, também lhe ocupa a agenda até às costuras, a par do emprego que ainda mantém. Mas Alexandra está segura que assim que as engrenagens começarem a rodar por si mesmas, ela estará de novo livre para fazer o que é realmente o seu trabalho.

“A Mescla já me irá permitir que deixe o meu outro trabalho. E vai permitir-me ter aqui o meu atelier, e que as duas coisas estejam ligadas será perfeitamente possível.”

É aqui #OndeEstá a Mescla, no amplo sorriso de Alexandra e no livro aberto que é o coração de Tomás, num sítio onde se inspira arte e se exala alegria. De facto, ainda há quem faça da arte uma coisa divertida.

 

Texto: Zita Moura
Fotografias: Maria João Ferreira