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#QuemÉ Martinho Costa

#QuemÉ Martinho Costa

Ao artista interessa muito pouco a recriação irrepreensível do real, mas sim o sentir da perda do hiperrealismo, trabalhando estas pinturas de forma rápida e sumária.


“A fotografia não matou a pintura, a fotografia abriu a pintura. A morte da pintura é uma questão que não se põe, ou se se põe, põe-se unicamente a nível conceptual ou académico. Talvez na altura em que a fotografia surgiu, a nível do que é a imagem, se tenha colocado. Mas mais do que se a pintura está viva ou morta, quando se tem dúvidas sobre isso, deve-se olhar para essa altura e como é que aquela geração de pintores impressionistas reagiu. E isto remete-me para o início desta conversa. A questão que hoje se põe é: “De que forma é que eu posso devolver uma pintura ao mundo?”. Talvez esse seja o papel do artista actualmente. A visão individual do mundo que nos rodeia.”

A imagem deixa de ser uma documentação ordinária do real e expande-se dentro da nova dimensão artística.

Martinho Costa esteve na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto no passado dia 31 de Outubro e em contexto do MAP – Mestrado de Artes Plásticas, com uma breve retrospectiva daquele que é um percurso admirável no campo artístico. Percurso este que sai frequentemente do campo da pintura para o espaço público, a animação e o vídeo. Martinho licenciou-se pela FBAUL – Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa em Pintura, cursou o mestrado em Teoria e Prática das Artes Plásticas Contemporâneas na Universidad Complutense de Madrid e vive e trabalha desde então em Lisboa.

 

“Todas as imagens são potenciais pinturas”

Esta é a ideia crucial a partir da qual o trabalho de Martinho se desenrola – a banalização do significado de pintura e do objecto retratado. Banalização esta que se contradiz a si mesma de forma poética, quando o artista desmistifica a concepção clássica de pintura e cria uma democratização perfeita entre os objectos retratados. Não há nenhum critério especial na escolha das imagens que serão por sua vez recriadas pictoricamente por Martinho – existe sim, um arquivo muito extenso de imagens que este colecciona, e talvez possamos considerar consequentemente que o único critério de escolha é em si mesmo o gosto do artista. Se a imagem já é em si autónoma, bela, deixa de valer a pena pintá-la e a banalização detém este lugar de excelência.

Na série “Ruína”/2008 observa-se esta homogeneidade de locais indecifráveis, geograficamente indefinidos, que podem ser em qualquer lugar e que se ligam entre si apenas por uma ideia de construção versus demolição. Estas imagens genéricas elevam-se através da pintura, uma e outra vez, como se conseguíssemos pressentir ainda o seu contexto anterior enquanto apreciamos aquele que é o seu contexto actual.

A imagem deixa de ser uma documentação ordinária do real e expande-se dentro da nova dimensão artística.

 

Martinho Costa
S. T. (Demo One)
2007

Esta recriação da imagem é evidente na série “O Diário de Robert Stern”/2011. Robert Stern é um homem americano, que fotografa de forma ostensiva a sua vida; a namorada, passeios, festas, e detentor de uma vida extremamente normal, mas cujas imagens da vida quotidiana pessoal viriam a dar origem a uma série de objectos artísticos por Martinho Costa. O autor apelida-se a si mesmo de forma divertida, de “uma espécie de “stalker” do diário fotográfico de Stern, cujas imagens pessoais e privadas são expostas num local tão público como a Internet e por sua vez trabalhadas e expostas no espaço físico em 2011. Esta série é a primeira série de objectos artísticos que partem de um conjunto prévio de fotografias e não da aleatoriedade. Ao artista interessa muito pouco a recriação irrepreensível do real, mas sim o sentir da perda do hiperrealismo, trabalhando estas pinturas de forma rápida e sumária.

 

Relação com o espaço público

O espaço público é um contexto no qual a intervenção artística se manifesta frequentemente pela imposição da obra ao olhar do transeunte. O trabalho de Martinho, pelo contrário, desenvolve-se num sentido muito mais intimista. São pinturas que obrigam o observador a um olhar atento, que interaja com o objecto artístico. Estas intervenções reflectiram ainda uma nova necessidade exploratória a nível de suporte, como se verifica em trabalhos como “A Primeira Pedra”. Neste, é possível reflectir sobre a relação entre o objecto retratado – a pedra – e a sua pluralidade no papel que foi tendo historicamente, paradoxal à sua também simplicidade aparente. O autor fala-nos da quase metáfora que identificou nas pedras da calçada. Pedras essas que vão saltanto quase sozinhas, e porque não encaixam da melhor maneira no conjunto. E que depois dessa separação, são pisadas, arrastadas ou até atiradas, sofrendo os mais variados destinos. Martinho consegue através desta série colocar estas pedras num papel de relevância individual através da pintura, enquanto simultaneamente lhes proporciona um grupo.

 

“A pintura como expansão do tempo”

O artista explora actualmente a imagem digital na vertente da sua manipulação, através de programas como o Photoshop. Fala-nos da conexão entre a música electrónica, da qual é grande apreciador, e a expressão plástica. No “estilhaçar” da imagem na montagem digital observa-se uma relação não só com esse interesse musical, mas também com a ideia de “desfragmentar” presente na azulejaria ou em painéis (como o artista já trabalhou anteriormente), e ainda com referências como Pablo Picasso ou Georges Braque. No entanto, este expressionismo é muito diferente (não só a nível pictórico, como especialmente em termos intelectuais) do expressionismo abstrato de autores como Jackson Pollock. O “ver o que acontece” no trabalho de Martinho é feito nesta fase de esboço digital – na parte mais prematura do processo. A pintura propriamente dita já é feita de forma calculada.

Este campo de acção e descoberta de outro caminho dentro da imagem digital e consequente manipulação está aberto, com obras como “Gradient Tool”, presente no Museu Nacional Soares dos Reis.

 

Martinho Costa
S/ Titulo (Maquete)
2017

 

Ana Garcia de Mascarenhas.