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#QuemPensa é Sérgio Morais: “Lavandaria”

#QuemPensa é Sérgio Morais: “Lavandaria”

"Já que insistes"


Saio de casa. Carrego no botão do elevador. Desço no cubículo até ao rés-do-chão enquanto meço o tamanho das olheiras no espelho.

Saio do prédio. Digo os bons dias ao senhor da loja ao lado quando me apetece olhar para ele, e quando lhe apetece perceber que estou por lá.

Começo a subir a avenida. Viro na rua das duas agências imobiliárias. Viro mais uma vez para a rua da editora que só editou um livro de um general qualquer e paro à beira da lavandaria self-service. Gosto de ver as máquinas a rodar.

Normalmente há uma ou duas pessoas lá dentro a brincar com o telemóvel enquanto esperam que as cuecas sequem. Será que assumo que são cuecas porque sou estúpido? Ponho-me a pensar no que significa esperar pela secagem da roupa interior. Supostamente nada, mas talvez haja ali uma teoria mais engraçada por descobrir, do tipo: “quem espera que as cuecas sequem espera mesmo é que lhes molhem as cuecas”. Provavelmente não há. Continuo pela rua.

Passo pela minha livraria favorita, na qual raramente entro porque sou obrigado a gastar dinheiro que não tenho. Viro à esquerda ao lado do sapateiro e à direita para aquele beco estranho que eu acho engraçadíssimo.

Atravesso a rua. Chego à estação do metro. Entro no metro. Sinto-me assoberbado pela quantidade de pessoas no metro. Saio do metro a ofegar. Subo as escadas.

Entro no centro comercial. Bebo um café. Subo para o estúdio. Sento-me no sofá. Tento ser produtivo durante um bocado, mas acabo por ceder a tudo. Secretamente gostava de ter silêncio absoluto para poder escrever em paz, mas da escrita não se tiram tostões e já não existe o sossego de casa do meu avô. Então tudo se apaga.

É como se nada existisse. Um momento meta-diegético pintado de preto, onde as vozes que ninguém ouve me ludibriam.

“Sentado, como de costume, não é?”

“É sempre a mesma merda este gajo.”

“Também, não lhe serve de muito.”

“Ok, mas bem que podia não estragar a vida ao pessoal.”

“Estavas à espera de quê? Tudo lhe custa!”

“Olha, que meta uma rolha, foda-se.”

“E se ele metesse mesmo uma rolha?”

“Era hilariante!”

“Era não era?”

“Já disse que era.”

“Ei, calma princesa. Credo!”

Depois qualquer coisa me desperta. Arrumo os meus pertences e faço o mesmo percurso para casa. Paro na lavandaria. Quantas pessoas daquela zona vão ali lavar as cuecas? Será isto um fenómeno social? Acho que não. Prossigo o meu caminho.

Quando chego a casa, depois de jantar, sento-me na cadeira, em frente ao computador, ao lado da máquina de escrever e dos livros, e passo alguns minutos a tentar que me saia alguma coisa. Raramente me sai algo que eu ache válido. Normalmente acabo por fazer outra coisa qualquer. Então, por breves momentos, tudo se apaga.

É como se nada existisse.

“Sentado, como de costume, não é?”

“Parece que sim.”- digo.

Para mais uma noitada em claro a pensar se há razão para isto?

“Já que insistes.”

Saio da frente do computador. Abro a varanda, fumo um cigarro e cuspo do quarto andar para a rua na esperança de ouvir qualquer coisa diferente. Nunca ouço. Entro de novo em casa. Vou lavar as cuecas. Será que deveria ir àquela lavandaria self-service?

Semear para colher – Cinara Pisco