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#QuemPensa é Jonas: playlist para Janeiro – pt.5/6

#QuemPensa é Jonas: playlist para Janeiro – pt.5/6

O que ando a ouvir, porquê, o que me diz e porque vocês a devem ouvir e fazer aquilo que eu vos digo até morrerem.


Jonas construiu uma playlist para a CVLTO que irá analisar ao longo dos próximos dias. A playlist completa está disponível aqui.

“High Writer at Home” – Lilys

“High Writer at Home” – Lilys

Como o Anton Newcombe há uns quantos, apesar de ele não acreditar nisso. Por exemplo, temos aqui o Kurt Heasley líder de uma banda cujo perfil na Wikipedia tem cerca de 53 membros (um deles o Ariel Pink…sim, esse Ariel Pink! O que masturbava analmente cangurus comigo no Jardim Zoológico de Lisboa!). Este gajo foi das primeiras pessoas a utilizarem a pastiche na música psicadélica (de cariz sinfónico) com eventuais modernizações.

É uma linha de raciocínio com a qual me relaciono.

Se samplar é na boa porque é que não posso pegar nas ideias dos outros e torna-las minhas? Se algo que alguém fez me toca, é porque me relaciono. Se me relaciono é porque há algo comum entre ambas as partes só que o gajo que fez antes de mim chegou lá primeiro.

Não quer dizer que aquela melodia seja só dele. É nossa.

O Kurt Heasley simplesmente fez a sua versão de algo que só se sabe definir como “belo”. Acho que um gajo que faz temas destes não pode apenas ser caracterizado de “hack”.

Temos um tema com uma bateria que queria formas pulsantes e pesadas, aumentando sucessivamente a tensão que nos leva para uma melodia principal em dois momentos, quase como sair de um pesadelo e entrar numa memória de infância. No eventual crescendo e clímax da música, a bateria (agora em breakbeat) ocupa todo o headroom da mistura com graves dando apenas espaço para umas frequências electrónicas e uma leve melodia mas consegue sustentar o groove inicial.

Movimentos destes não são executados por gajos quaisquer. Se não houvessem ladrões na música não haviam géneros. Se não existissem géneros não havia não havia eventos.
Dêem graças aos céus pelo plágio e apropriação cultural.

 

“Beat” – Bowery Electric

“Beat” – Bowery Electric

Gosto muito de músicas. Esta é uma música.

Nunca ouvi um baixo a entrar com tanta pinta na minha vida.

Só a linha de baixo aqui é quase um tema à parte. Imagino a performance disto ao vivo completamente estagnante e a Martha Schwendener a tocar aquilo como se fosse Stooges (nunca deve ter acontecido).

Todo este disco é uma obra-prima do shoegaze e dos melhores exemplos de sampling a serem aplicados no género. Foi-me introduzido pelo meu ocasional colega de banda, o Vasco, há dois anos numa de “podemos fazer isto” mas eu na altura queria soar a Brian Jonestown Massacre.

É a vida.

Agora é das minhas coisas favoritas e encaixa-se melhor no meu processo de trabalho que o da típica “banda de rock”. Esteticamente é do mais exemplar do que é decadência emocional urbana possível (a capa, por amor de deus), e situados na matriz da coisa.

Isto está na origem do celeuma a que se chamou “milenarismo” que deu origem a composições como as do ‘Ok Computer’. Aliás, a única coisa semelhante a este tema que me lembro, surgiu em 2001 com a “I Might Be Wrong” dos Radiohead.

Foi o momento em que parece que a pop sofreu uma crise existencial e ninguém sabia que rumo as coisas iriam ter. Dá a ideia que o mundo acabou mesmo no ano 2000 e que entramos num simulacro corporativo a partir do post-punk revival como se nos tornássemos apenas nas nossas fotografias do passado.

Quem diria que, um dia, eu poderia aceder a um computador para me rodear da estética de uma década como se de um perfume se tratasse. Quem diria que os anos 90 parecem a última vez que alguém sentiu algo de forma genuína. Quem diria que este tema tão monótono, 23 anos depois, seria tão profundo apenas pelo facto de ter mudado tudo ao mesmo tempo que não se mudou nada e que continuamos tão miseráveis nos centros urbanos por termos demasiado e tão pouco ao mesmo tempo.

Isto é a banda-sonora de um paralítico a arrastar-se pelo chão à frente de uma montra de cadeiras-de-rodas.

A única banda que consigo comparar a esta forma de ver as coisas são os Suuns, mas como a maioria das pessoas desta geração, eles parecem querer gostar de nadar nas próprias fezes como acto de despeito a um sistema que os desertou.

Eu cá gosto é de piças grandes. Não de lhes fazer nada nem de lhes tocar. Mas fico contente por quem as tem!

 

A última parte desta playlist de Jonas serão publicadas em www.cvlto.pt ao longo dos próximos dias.