Menu & Search
#QuemPensa é Jonas: playlist para Janeiro – pt.3/6

#QuemPensa é Jonas: playlist para Janeiro – pt.3/6

O que ando a ouvir, porquê, o que me diz e porque vocês a devem ouvir e fazer aquilo que eu vos digo até morrerem.


Jonas construiu uma playlist para a CVLTO que irá analisar ao longo dos próximos dias. A playlist completa está disponível aqui.

“That Summer Feeling” – Jonathan Richman

“That Summer Feeling” – Jonathan Richman

Eu gostava de ter sido o Jonathan Richman. Mas em vez disso foi ao Jonathan Richman que calhou a sorte de ser o Jonathan Richman.

O gajo é a prova viva que pensar como uma criança torna-te num artista melhor.

O gajo desconstruiu tanto a simplicidade do Rock n’ Roll que, sem querer, ajudou a inventar o punk. O que é que ele fez? Começou a usar calças de couro? O caralho!

Enterrou os Modern Lovers e começou a fazer música que ou é “demasiado Velvet Underground” para ser comédia ou “demasiado lúdica” para ser “Avant-Garde”. Querem algo mais punk rock que não comprometeres a tua visão artística para sempre?

Este tema tem a particularidade de te seduzir para gostares do Verão apesar de apanhar sol não ser a tua praia… eheheh? Viram o que eu fiz? Topem só este refrão:

That summer feeling’s gonna haunt you for the rest of your life”

Bom mantra. Há quem queira ser gótico, há quem queira ser saudável. O Jonathan Richman gosta de ser saudável e eu gosto do Jonathan Richman por não se encaixar na Treta Von Fleet estereotipada do “Sexo, Drogas e Rock n’ Roll”.

Se a música está em terceiro lugar é porque estás a planear mal a tua vida, amigo músico.

“Ain’t No Sunshine” – Bill Withers

“Ain’t No Sunshine” – Bill Withers
O único defeito desta música é só durar dois minutos.

Mas estes dois minutos são suficientes para criar a vibe de tudo o que os Massive Attack fizeram e tudo o que era êxito pop na segunda metade dos anos 90 que estivesse a mamar da piça heroínada do trip-hop.

Quase um tema tradicional de blues registado por Alan Lomax, a partir dos 27 segundos quando entra a bateria maquinal e os arranjos de violino (ou mellotron?) com o tom cinemático trágico que iria definir os anos 90 (transmudados para algo como “milenarismo” que falarei à frente com a “Beat” dos Bowery Electric), o tema ganha asas.

A simplicidade germânica da repetição da expressão “I know” antes da re-entrada da bateria tem tanto de maquinal como de emocional e ninguém estava à espera que a Soul se enquadrasse tão bem num plano quase fotográfico.

O sentimento de um ser humano capturado e encaixilhado durante dois minutos para sempre. Não me admira que isto tenha sido um êxito e considerada uma das melhores canções de sempre.

A sério… parem de curtir techno. Ok?

 

“Never Can Say Goodbye” – Jackson Five

“Never Can Say Goodbye” – Jackson Five

No outro dia estava a ver um video do Jack Stratton dos Vulfpeck (a falar sobre os guitarristas que o influenciaram) porque já não tenho relações sexuais há muito tempo. Nesse video disse “pegas em qualquer gravação dos anos 70 (…) se é funky é o Wah-Wah, se é bonitinha é do David T. Williams”.

O gajo sabe o que diz. Sabe tocar guitarra. Apesar de achar musicalmente Vulfpeck o som de um chinelo de dedo a pensar, gosto muito dos compressores que eles criaram e gosto da informação que eles partilham.

Referiu como pequenas coisas, por vezes, se tornam standard e, nesse caso, temos o som de “arpa” criado pelo mindinho do David T. Williams no início do tema dos Jackson Five ao dedilhar uma Gibson semi-acústica no pickup do braço.

Estão a ver nas sitcoms americanas dos anos 70/80, quando os actores tinham um momento de “e se?” e, de repente, surgia uma nuvem que transitava a cena toda para o onírico? Este é o som dessa transição.

A composição geral do tema acompanha muito este sentimento do “e se?” como “e se tudo estivesse bem?”, “porque é que as coisas são assim?” enquanto tenta seduzir a pessoa para ficar.

O não aceitar a decisão de outra pessoa de se afastar. “Nunca consigo dizer adeus”; creepy?

Então quando caírem na cena que é cantada por um puto que levava todos os dias no focinho do pai de forma ultra-violenta e que, mais tarde, tentaria sobre-compensar DA PIOR FORMA DE SEMPRE, NUMA DAS HISTÓRIAS MAIS CONTRAFODIDAS DA CULTURA OCIDENTAL DOCUMENTADA, imagino o que vão pensar aí!

 

As próximas quatro partes desta playlist de Jonas serão publicadas em www.cvlto.pt ao longo dos próximos dias.