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#QuemPensa é Inês Dias – Parte I

#QuemPensa é Inês Dias – Parte I

“Num século onde chovem dick pics e temos dias lindos de nudes o que é que ainda é pornográfico?”


Pela sua extensão, este ensaio foi seccionado em duas partes – a segunda está disponível aqui.

 

C om a proliferação dos smartphones desenvolveu-se a criação da imagem, com a internet veio a decadência das revistas, vhs e os calendários dos mecânicos. Nunca o conteúdo pornográfico foi tão ilimitado e gratuito. Graças a isso já ninguém precisa de surrupiar as mui usadas revistas da playboy (RIP Hugh Hefner) dos nossos pais para ver as mamas da Pamela Anderson, até porque os motores de buscas oferecem muito mais conteúdo e em várias qualidades diferentes. Mas como normalmente acontece quantidade nem sempre há qualidade, e longe vão os tempo áureos da pornografia nas salas de cinema com famosos críticos como Roger Ebert a escrever sobre ela (em filmes de culto como o “Deep Throat”).

Podemos pôr a culpa na sua prioridade em focar pequenos orifícios, durante exagerados períodos de tempo ou na sua curadoria limitada a rótulos como Gangbang, Lesbian, Anal,… o que afectou também a escolha dos seus títulos. Realmente, à primeira vista, não se encontra grande valor artístico em: “Sex starved fuck sluts #22 – stinky white women”, mas vale um ponto pela representação de uma nova categoria.

Mas considerar que a pornografia não é arte só porque a sua maioria que é gratuita e de fácil acesso, é o mesmo que dizer que a fotografia não é arte desde que inventaram o Instagram. O que é discutível, mas não propriamente sustentável para formar uma divisão entre arte e pornografia. Outros argumentos usados por muitos artistas, historiadores, críticos e filósofos de arte para separar uma da outra baseiam-se fundamentalmente em quatro pontos: Conteúdo apresentado, Status moral, Qualidade artística e Resposta prescrita.

Conteúdo apresentado

É quando separam as representações anatómicas e sexualmente explícitas da pornografia, das sugestivas, individuais e subjectivas da arte. Luc Bovens e Roger Scruton defendem que exactamente por os artistas não se concentrarem em fazer representações explícitas, o espectador consegue ver-se na primeira pessoa e identificar-se com a personagem nela retratada. Enquanto representações explícitas o espectador facilmente sente-se envergonhado e não cria uma conexão profunda. Como exemplo, Scruton usa a obra Renascentista de Ticiano, Vénus de Urbino, para mostrar que o foco da atenção é a cara, e não a genitália da personagem, apesar desta se encontrar completamente nua deitada numa espécie de cama. No entanto, ao observar a forma confiante em que Vénus se pousa e recusa a ser objectificada, ignoramos outras obras de Ticiano onde o oposto também é verdadeiro como Vénus e Adonis. Observemos agora a obra Surrealista de Salvador Dalí: “Jovem Virgem autosodomisada pelos chifres de sua castidade”, através do mesmo médium e com o mesmo estatuto de ‘arte’, encontra-se uma jovem de costas viradas para o espectador a ser penetrada por chifres. Tão explícita sexualmente que está neste momento exposta na Playboy Mansion West. Da mesma forma, pornografia pode viver da sugestão, exemplo disso são: a obra literária de Molly Kielly, “That Kind of Girl”, ou o filme “All about Anna”, criado por Zentropa, a produtora de Lars Von Trier.

Jovem virgem sodomizada pela sua própria castidade, Salvador Dalí, 1954

Cuidadosamente concebidos, onde a estética é uma preocupação primária. Pertencem ao crescente subgênero da ‘pornografia amigável feminina’ onde é dada atenção às experiências pessoais e personalidade da liderança feminina. Frequentemente servem um propósito educacional e emancipatório. Scruton acredita que uma obra de arte nunca deve despertar o espectador ou leitor, mas se alguém usasse isso como um critério para separar a pornografia de arte, também teria que excluir obras-primas eróticas, como “Lady Lover”, de Lady H. Chatterly, ou “Sleeping”, de Gustave Courbet.

Outra crítica apontada ao conteúdo apresentado é a violência e a agressividade do sexo retratado na pornografia. Para suportar este argumento, muitos autores recorrem à etimologia das palavras. Enquanto pornografia provem do grego ‘porno’ que significa prostituta e reflete uma sexualidade desumana e sem emoção, erótico provém de ‘eros’, palavra grega para amor ou paixão, indicando integridade sexual baseada em afecto. Daí o termo arte erótica não ser usado de forma pejorativa quando atribuído a uma obra. Em relação a este tema, Ayn Rand defende que a separação entre pornografia e arte erótica começa na pornografia ‘hard-core’, considerando esta terrivelmente nojento para alguma vez ser considerado arte. John Stagliano contra-argumenta justificando que qualquer tipo de sentimento, mesmo que seja o de repulsa, contribui para provar que pornografia é efectivamente arte. Exemplos artísticos deste argumento são os controversos filmes de Bernardo Bertolucci “Last Tango in Paris”, Pier Paolo Pasolini “Salò” ou “Os 120 dias de Sodoma” e Gaspar Noé “Irreversível”.

O Amor Vitorioso, Caravaggio, 1601-1602

Status Moral

A maneira mais clara de discutir se a pornografia é moralmente questionável (de um modo que a arte não o é) é considerá-la prejudicial. Considerar que a pornografia se foca em formas alienadas e pobres da sexualidade torna-a vulgar mas não necessariamente moralmente errada, assim como uma pessoa sem maneiras não é diretamente considerada má. As acusações mais frequentes focam-se nos danos causados aos seus participantes e aos seus espectadores. Começando logo durante a produção, acusações de: violência, violação e brutalidade, mesmo quando nenhum mal ocorre e toda a equipa de filmagem é tratada com respeito.

Da série “The Doll”. Hans Bellmer, 1936

Várias actrizes pornográficas como Alexa Milano, Jersey Jaxin e Princess Donna relataram episódios onde apesar de terem consentido certos actos, foram brutalmente abusadas durante a filmagem. Mas não menos terrível é o caso de Maria Schneider durante as filmagens de “Last tango in Paris” ou de Caravaggio e os seus modelos. Outro argumento utilizado é contra o material pornográfico em si, que por um lado subordina e silencia a mulher, tal como no trabalho fotográfico de Hans Bellmer, e por outro a exposição a conteúdo pornográfico pode causar danos a longo prazo. Susan Dwyer defende que assistir frequentemente a pornografia é como induzir constantemente pensamentos violentos sobre outros. É tóxico e pode manipular o carácter do participante. Da mesma forma pode-se afirmar que videojogos podem corroer o carácter do seu jogador, mas ao mesmo tempo, desenvolvem as suas capacidades cognitivas. Ou até os efeitos secundários causados pela exagerada exposição a filmes de terror, que variam entre paranóia e o desenvolvimento de estratégias de sobrevivência. Quando Dwyer se refere a pensamentos violentos, está claramente a centrar-se num só tipo de pornografia, excluindo muitos outros que, além de não-violentos podem conter conteúdo educativo ou qualidades artísticas. Da mesma forma seria falar de cinema avaliando apenas filmes com personagens cruéis.

Da série “The Doll”. Hans Bellmer, 1936