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#ComoFoi Greengo e Slabdragger

#ComoFoi Greengo e Slabdragger

Uma viagem pós-apocalíptica ao espaço sideral com Greengo e Slabdragger,


Slabdragger

Greengo + Slabdragger

ABSA
18 de Janeiro
Woodstock 69, S. Roque da Lameira

O primeiro evento da promotora ABSA (As Below So Above) foi, certamente, lendário. Com os portuenses Greengo e os londrinos Slabdragger a compor o cartaz do concerto no Woodstock 69 não se esperaria outra coisa. Dezoito de Janeiro, um frio de bater o dente, mas lá dentro os rostos ferviam.

Assim que os Greengo arrancam, sem tempo para cortesias, ouve-se no público:

“my kind of drum’n’bass”

O duo de Martelo e Chaka, o primeiro no baixo e o segundo na bateria, resolve bem a discussãozinha sobre a necessidade (ou não) de uma guitarra em palco. O baixo de Martelo enche de tal forma o palco que, sozinho, parece encher as sonoridades normalmente atribuídas à guitarra. Sabemos que dentro do género – doom, stoner, sludge, etc. – é frequente encontrar esta fórmula, mas nem sempre funciona com a mesma elasticidade que os Greengo encontraram.

A oscilarem entre um registo mais imersivo e ritmos mais acelerados, conseguem que mesmo os andamentos mais demorados não se tornem entendiantes, assegurando um crescendo discreto mas constante.

O mais curioso de notar em Greengo é a velocidade, que, não sendo assumida, não deixa de se fazer notar.

E quando se assume, parece qualquer coisa como Motörhead em downers. E mesmo no final, quando o ruído já era de tal ordem que se podia tornar assoberbante, conseguia ouvir-se a música sobre ele.

Este duo junta o melhor de muitos mundos: tem a gracinha do psicadélico, com a malvadez do sludge e a nojeira do crust.

E depois de uma pausa para o público alongar os pescoços, sobe Slabdragger, trio londrino com data única em Portugal, assegurada pela ABSA. Há bandas que são descrições gráficas dos géneros que representam, e cujas influências são assinaláveis – Slabdragger é dessas bandas que não é possível meter em nenhum tipo de dossier devidamente catalogado.

Há qualquer coisa de dimensão cósmica na linguagem deles, entre os gritos à Dopethrone do baixista e os urros animalescos do guitarrista.

Nota-se bem a escola punk do trio londrino, mas também é evidente que cresceram para lá dela e foram capazes de absorver outras influências. Arrancaram o gig com uma intro bem à Black Sabbath, para que não sobrassem dúvidas sobre a viagem que se ia fazer. Os solos de guitarra fazem jus ao nome e valem por si sós, e ainda assim não dispensam as linhas de baixo mais funky que se ouvem por baixo.

De assinalar que esta vossa repórter ficou francamente surpreendida ao primeiro grunhido mais gutural que se ouviu do palco. Para além do baixista, dono dos gritos e voz limpa, estava o baterista em palco (sem microfone) e o guitarrista, um homem baixinho, franzino, grizalho. E a dado ponto, quando se ouve uma voz diabólica, pareceu por momentos estar um quarto elemento algures camuflado no palco que fosse dono daquele som cavernoso.

E em parte, sim, estava um elemento camuflado, não seria fácil adivinhar aquela voz de um homem com aquela constituição. Mas, de facto, o pequeno guitarrista com ar de feiticeiro era de onde brotava aquele som infernal.

 

E de tal forma foi o concerto de Slabdragger que teve direito a convidados especiais. A intervenção da Polícia Municipal obrigou à interrupção momentânea do concerto, para desolação do público e frustração dos músicos, mais ainda quando estavam num crescendo acelerado em direcção ao cosmos. Sabe-se que a música está mesmo muito boa quando até a polícia aparece.

Nuno Sina, da ABSA e da Associação Cultural KolaMoka não se mostrava particularmente apoquentado; diz que “já é tradição que a polícia apareça” em concertos que organiza, independentemente de onde sejam.

E quando se retomou o concerto para uma última música de Slabdragger parece que, de zangados por terem sido interrompidos, tocaram uma malha mais barulhenta e mais nojenta que as anteriores.

Para que não sobrassem dúvidas de Slabdragger é tanto para jingar a anca como é para bater com a cabeça nos joelhos.

 

Texto: Zita Moura
Fotografias: downclose